Nunca se viveu tanto e nunca se viveu tão mal

Por outro lado, ao mesmo tempo em que nunca se viveu tanto com os avanços em todos os segmentos da sociedade, nunca se viveu tão mal e em dúvida sobre si mesmo

Manaus – Antigamente os avanços tecnológicos ocorriam lentamente, de acordo com o tipo de conhecimento que se tinha à mão, normalmente baseado no empirismo, isto é, na tentativa e no erro. O desenvolvimento de tudo demorava anos ou até décadas pela ausência de computadores e a tecnologia que atualmente torna tudo mais fácil, rápido e calculado em milésimos de segundos, seja uma planilha de orçamento doméstico ou o algoritmo que permite às empresas conhecer melhor o seu público com base no que pesquisam na internet ou mesmo no que falam em suas conversas perto do telefone (note que eu disse perto e não ao telefone).

Por outro lado, ao mesmo tempo em que nunca se viveu tanto com os avanços em todos os segmentos da sociedade, nunca se viveu tão mal e em dúvida sobre si mesmo. É notória a necessidade de aparecer para ser notado(a) assim como a baixa autoestima de quem não consegue se enxergar importante, pois a maioria do que se vê nas redes sociais, na TV ou na internet muitas vezes é mero faz-de-conta. Ao mesmo tempo, é inconcebível a velocidade com que as coisas ocorrem e são esquecidas, fazendo com que um “fenômeno” de hoje se torne uma vaga lembrança em poucas semanas.

Atualmente não criamos nem o pensamento. Tudo já vem pronto em algum aplicativo para você apenas colocar sua foto, a frase de alguém e o seu nome. Não é necessário raciocinar, principalmente em se tratando da diferença entre certo ou errado, verdade ou mentira. Importante é postar primeiro e encaminhar antes dos demais, afinal, amanhã ninguém mais lembra. E se estiver errado, basta excluir o post, a lembrança ou o amigo. Hoje nada dura, muito menos para sempre.

Talvez seja por conta dessa brevidade – ou do tédio de não ser mais novidade – que as pessoas também não sejam mais felizes como antes. Os desejos mudam a cada dia com tantas opções disponíveis para qualquer coisa. Quer um amigo? Tem na rede social. Um relacionamento sério? Tem no aplicativo. Um tratamento? Procura no Google. Nada dura porque amanhã aparece algo melhor e mais rápido, mais novo e mais moderno. Nada se conserta porque é mais fácil comprar novo, ainda que haja conserto ou solução. A pergunta que fica é: onde vamos parar desse jeito?

*Deputado federal (PSL) e delegado de Polícia Federal

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