Velhice não é doença

Uma das mudanças mais controversas e que vem gerando muita preocupação é a inclusão da Velhice na categoria de doença

A partir de janeiro de 2022 entrará em vigor o novo CID11 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) uma tabela criada pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para a padronização de diagnósticos. E uma das mudanças mais controversas, e que vem gerando muita preocupação é a inclusão da Velhice na categoria de doença.

Para se ter uma ideia do panorama. O envelhecimento da população é um fenômeno global e, no Brasil, tem se acentuado nos últimos 20 anos tendendo a se acelerar ainda mais nas próximas décadas. A compreensão do processo de envelhecimento como algo ruim pode trazer graves problemas, como o ageísmo que consiste no preconceito, intolerância e na discriminação contra pessoas com idade avançada.

Tudo parece confluir para uma grande armadilha. A velhice de forma alguma deve ser encarada como uma doença, correndo-se o risco de criar um “rotulo”, mascarando os reais motivos do adoecimento e prejudicando a identificação e criação de políticas publicas para o combate das doenças crônicas, afinal, só no Brasil, de acordo com dados atuais, cerca de 3/4 das mortes ocorrem a partir dos 60 anos, por doenças cardiovasculares, oncológicas e neurológicas. Se todos os motivos forem resumidos à velhice, corremos o risco da falta de informação e investimento para o tratamento destas patologias.

A grande pergunta no momento é: a quem interessa essa mudança? Muitos estudiosos apostam que interesses privados, a indústria farmacêutica e o ramo da estética serão os grandes beneficiados. Afinal de contas, suplementos, medicamentos, cirurgias e procedimentos estéticos crescerão de forma vertiginosa evitando o avanço da “doença” do envelhecimento. E os planos de saúde e seus valores? E as seguradoras? Velhice agora será entendida com uma comorbidade? São muitos os questionamentos e poucas as respostas.

Uma mobilização das sociedades, movimentos sociais e políticos se faz necessária na tentativa de não validar essa alteração no código e conscientizar a população para o que vem pela frente. Por fim, não se esqueça. Velhice não é doença. Envelhecer com saúde, autonomia e independência é um direito e uma conquista, e nisso devemos investir todos os nossos esforços.

*Médico oftalmologista. Tem formação em Oftalmogeriatria, com especialização em Gerontologia e Saúde do Idoso. Atua como diretor clínico na Policlínica Codajás, é coordenador do ambulatório de oftalmologia na FUnATI (Fundação Universidade Aberta da Terceira Idade ) e cursa mestrado em Doenças Tropicais e Infecciosas pela Fundação de Medicina Tropical (UEA/FMT – HVD)

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