Desmatamento da Amazônia aumenta risco de apagão

Retirada da floresta afeta volume de água de rios do Sul e do Sudeste e prejudica o funcionamento de mais de 10 hidrelétricas

Brasília – A Bacia do Paraná está com problemas. Fundamental para a regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, serve para abastecer a população, irrigar zonas agrícolas, desenvolver a piscicultura, transporte fluvial e gerar de energia, por meio de hidrelétricas.

Este período próximo do inverno costuma ser de estiagem. Mas nunca uma estiagem tão intensa quanto a atual que fez o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) divulgar um relatório em maio, alertando para uma situação crítica, que pode levar a um apagão no país, devido à baixa vazão que atrapalharia o funcionamento de suas mais de 10 hidrelétricas.

O desmatamento afeta diretamente o funcionamento de 10 hidrelétricas do País (Foto: Divulgação)

Esse risco de apagão existe e é alto, se nada for feito. Além de outros transtornos, como a falta de água e prejuízos na agricultura. Sofre com isso a vida que cerca os rios Paraná, Paraná, Grande, Iguaçu, Paranaíba, Amambaí, Tietê, Dourados, Paranapanema, Ivaí, Sucuriú, Tibagi, Pardo, e Aporé Verde, principais da região.

Tal situação, em grande parte é reflexo de algo que está ocorrendo no norte do país, mostrando que, em se tratando de meio ambiente, uma região depende da outra. No caso, da Amazônia.

O desmatamento da floresta, que vem crescendo nos últimos tempos, tem tudo a ver com a seca no Sul e no Sudeste, segundo os especialistas, dois deles ouvidos pelo R7: Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP ), e Ângelo José Rodrigues Lima, biólogo, secretário executivo do Observatório Governança das Águas.

“O desmatamento da Amazônia compromete um processo muito importante que é responsável pela chuva que cai nessa região. Quando a floresta é cortada, a chuva que cai nessa região acaba percolando (espécie de filtragem) o sedimento e escoando para os rios e não voltando para a atmosfera pelo processo chamado de evapotranspiração, retirando a água que está no solo. A retirada da floresta diminui a possibilidade da água entrar no solo e também diminui o retorno dessa água para a atmosfera”, afirma Turra.

Há ainda o fenômeno La Niña, que, ao contrário do El Niño, decorre da diminuição da temperatura da água do Pacífico e provoca mudança de clima e falta de chuvas em outras regiões.

Mas o especialista ressalta que o desmatamento é um forte fator de desequilíbrio. E, prossegue, descrevendo a quebra de um ciclo natural.

“Quando há o retorno dessa água para a atmosfera, são formadas nuvens, a umidade do ar, que vai ser direcionada para as regiões Sudeste e Sul, por meio dos ventos que vêm do oceano e que se desviam na cordilheira dos Andes, retornando para essas regiões Sul e Sudeste e provocando as chuvas.”

Com a retirada da mata, por meio do desmatamento, Turra aponta que esse processo está sendo perdido ao longo do tempo, agravando essa crise hídrica na região.

“Se esse processo é duradouro, vem ocorrendo ao longo do tempo de forma cumulativa, porque a floresta que está sendo tirada não está sendo recomposta, a gente tende a ter um agravamento desse fenômeno, especialmente pelo não reabastecimento do lençol freático e dos reservatórios superficiais que também são importantes para a geração de energia”, observa.

Turra explica que não basta acabar com o desmatamento, algo essencial, para que tal situação seja revertida. É preciso recompor a vegetação que foi perdida.

“O que a gente tem de fazer na Amazônia é exatamente o oposto do que tem hoje: além de reduzir o desmatamento para zero, a gente tem que recompor floresta e trabalhar riqueza associada a essa floresta, para qualificar a economia da região com a floresta em pé e não comprometer as atividades agrícolas, humanas e o próprio abastecimento de água e energia nas regiões Sul e Sudeste do país”.

Para ilustrar a influência que a Amazônia exerce em outras regiões, Lima cita um estudo do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG ). E se baseia nos mapas e dados atualizados do Map Biomas, que mostram que o Brasil perdeu 87,2 milhões de hectares de áreas de vegetação nativa, de 1985 a 2019, o que equivale a 10,25% do território nacional.

Na análise da UFMG, ficou constatado que, por causa do desmatamento da Amazônia, a quantidade anual de chuva caiu à metade ao longo dos últimos 20 anos em regiões de Rondônia, norte de Mato Grosso e sul do Pará, onde a agropecuária ocupou até 60% de áreas antes florestadas, com prejuízo anual estimado em R$ 5,7 bilhões.

“É bom lembrar que a Floresta Amazônica é responsável pelas chuvas que chegam na região Centro Oeste, Sudeste e Sul, sãos os nossos rios voadores”, ressalta Lima.

Olhar estratégico

Outros fatores, segundo ele, também contribuem para a seca. O argumento, verdadeiro, de que a falta de chuva é um fenômeno natural da região, portanto, não justifica a atual seca na região.

“Com o manejo e uso do solo (feito de forma equivocada), o modelo de produção agrícola, a forma de ocupação na área urbana e o desmatamento já não se pode mais colocar culpa somente na ausência de chuva nesta nova crise hídrica”, destaca.

Para lidar com a situação de urgência, a Agência Nacional de Águas (ANA ) está trabalhando na redução das vazões de vários reservatórios, direcionando a produção de energia elétrica para os rios de maior vazão, nesta Bacia do Paraná que engloba seis estados, mais o Distrito Federal (cerca de 30% da população brasileira), produz 65% da energia elétrica consumida no País (mais de 50% de todo o sistema elétrico brasileiro) e representa 55% do PIB nacional, segundo levantamento do IBGE em 2014.

A conscientização humana em relação a um consumo mais equilibrado da água tem uma parcela de importância, mas não é suficiente para resolver a questão, segundo Lima. Técnicas de irrigação (que poderiam ser melhoradas com o gotejamento, por exemplo), uso irregular do solo e desmatamento têm um amplo potencial destrutivo e precisam ser revistos.

Neste sentido, Lima afirma ser fundamental haver um olhar sobre o urbano e o rural, levando em conta as diferenças de quantidade de água existente no Brasil e o tamanho da população de cada região, Ele aponta para a necessidade de que as obras de infraestrutura tenham rigor de análise ambiental e territorial para não causarem mais impacto ainda.

“É importante combinar obras de infraestrutura (barraginhas, barragens, piscinões, etc) com um forte estabelecimento de programas de revitalização, recuperação de rios nas áreas urbanas e rurais. É preciso um olhar sistêmico e integrado para resolvermos os desafios de garantir água em quantidade e qualidade para todos os usos. A água não pode ser estratégica somente na hora da ausência, é preciso implementar políticas para as águas de forma permanente”, completa.

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