Livro revela frieza, dor e passado conturbado de Elize Matsunaga

‘A mulher que esquartejou o marido’ narra histórias familiares, a vida na prostituição e a tentativa de rever a filha

São Paulo – A história de Elize Araújo Matsunaga, que matou e esquartejou o marido Marcos Kitano Matsunaga em maio de 2012, virou livro. A obra foi escrita pelo jornalista Ullisses Campebell e estará nas livrarias a partir desta sexta-feira (20).

(Foto: Reprodução)

Ao contrário do recente documentário na plataforma de Streaming, ela não foi ouvida pelo jornalista. Ele reconstrói o passado dela por meio de relatos de familiares e conhecidos desde a saída de Chopinzinho (PR) até a prisão na Penitenciária Feminina de Tremembé, no interior de São Paulo.

A vida na prostituição, o abandono do pai, o estupro sofrido aos 15 anos pelo padrasto e a violência doméstica sofrida pela mãe são retratados ao longo de 367 páginas do livro ‘Elize Matsunaga: a mulher que esquartejou o marido’.

“Elize foi muito maltratada pela vida e criou uma casca de proteção. O estupro pelo padrasto e a mãe não ter ficado ao lado dela é uma história incômoda. Mas tudo molda o caráter dela. A vida também foi muito cruel com ela na prostituição, por isso teve de criar um alter ego para fazer os programas”, afirma ao R7 o autor do livro.

Nove anos após o crime que chocou o Brasil, a condenada ainda não pode ver a filha, hoje com 10 anos. A menina é criada pelos avós paternos, a quem chama de pais, segundo a publicação. Para comprovar a paternidade foi feito um exame de DNA.

Mas a história com a família Matsunaga não chegou ao fim com a morte do então executivo da Yoki, uma das maiores empresas alimentícias do país. Elize quer ter o direito de encontrar com a filha, agora que já está no regime semiaberto, enquanto a família de Marcos tenta a destituição do poder familiar. Isto significaria quebrar de vez o vínculo de mãe e filha e impedir uma reaproximação.

“Aos 18 anos, ela vai herdar os bens do pai. O plano da família Matsunaga é que ela saia do Brasil, já fala várias línguas e visita sempre o exterior. Eles acham que a menina não vai querer contato com a mãe porque não pergunta sobre ela. Ela só descobriu a história aos 8 anos quando um amigo de escola contou e procuraram um psicólogo”, lembra o jornalista.

Feridas familiares

Elize foi condenada a mais de 19 anos de prisão no júri popular, mas teve a pena diminuída em 2 anos pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Na cadeia, ela trabalha na oficina de costura e lê bastante para reduzir ainda mais a pena pelo homicídio qualificado e ocultação de cadáver.

Hoje só tem contato com a tia e a avó, que a criou. Mesmo fora das grades, Elize não quer voltar para a pequena Chopinzinho e se estabeleceu em São José dos Campos, no interior paulista. Ela quer abrir o próprio negócio.

Os pais de Elize já morreram. O pai era alcoólatra, batia na mulher e deixou a família pobre ainda na infância. Quando voltou, pegou a TV da casa humilde e não mais retornou. A mãe não teve sucesso na vida amorosa e se envolveu com homens violentos e agressivos.

Após o abuso do padrasto, Elize fugiu de casa e foi para o sul, onde teve o primeiro contato com a prostituição. Para ter onde ficar e comer, ela fazia programas com caminhoneiros.

Na volta a Chopinzinho, foi morar com a tia e a avó, mas não revelou o motivo da fuga. Sempre tirou boas notas na escola, fez contabilidade e se mudou para Curitiba para se tornar técnica em enfermagem.

Na despedida, não foi capaz de perdoar a mãe, segundo o livro: “Filha, às vezes, fazemos coisas horríveis para quem amamos. E isso nos consome por uma vida inteira. Mas você só entenderá o que estou sentindo quando tiver um homem e uma filha”.

Mais uma vez, ela recorreu à prostituição para bancar a vida que levava e conheceu Estella, sua mentora. Para fazer os programas, se apresentava como Kelly, nome de sua irmã.

“A família tem muitas feridas abertas. Usava como nome de guerra o de uma das irmãs. Isso criou um abismo entre ela e a família, manchou o nome. Na vida, Elize repete padrões e se apaixona por clientes. Fez com o deputado o mesmo que com Marcos Matsunaga. Busca afeto genuíno, mas ganha dinheiro deles”, ressalta Ullisses.

Prostituição

Ao longo do livro, diversas histórias paralelas são narradas pelo autor, que entrevistou 82 pessoas, sendo 35 prostitutas e clientes. São pessoas que tiveram contato com Elize ou Marcos.

Em diversos momentos, a publicação se torna arrastada, com interrupções constantes para contar histórias de prostitutas e de cafetinas, deixando Elize e Marcos em segundo plano. Mas o jornalista acredita ser importante conhecer tais aspectos da então profissão de Elize, uma vez que foi assim que ela conheceu o marido.

Dois Marcos

Marcos Matsunaga também tinha duas personalidades. Na publicação, é retratado como o executivo da Yoki, responsável, quieto e pai de família nos dois casamentos. Mas também um homem violento, caçador, atirador, excêntrico, colecionador de armas e vinhos, que ostenta vida de luxo e que dedica boa parte do tempo à prostituição.

Uma das novidades do livro é a retratação do processo de venda da Yoki para a General Mills na época do assassinato. Os bastidores foram revelados pelo pai de Marcos. O executivo só detinha 0,5% da empresa e recebia um salário. Sem que a família soubesse até sua morte, ele abriu uma empresa de exportação dentro da Yoki e lucrava com o negócio.

Às amantes, costumava dar carros e presentes caros e pagava por exclusividade. Para a cultura japonesa, Marcos manchou o nome da família. Assim como fez com a primeira esposa, também traiu Elize com uma garota de programa. Mas o desfecho foi diferente.

Sem aceitar a traição, Elize afirma ter cometido o crime em um ímpeto durante a humilhação sofrida, para não ser afastada da filha após a separação.

Elize também demonstrava ciúmes da primeira filha de Marcos, criada pela mãe no Rio Grande do Sul, e, segundo Ullisses Campbell, parecia não se importar com a criança crescer sem a figura paterna, ao mesmo tempo que cobrava maior participação dele na vida da filha de 1 ano.

“A frieza de Elize é criada na prostituição. Como se ela desligasse o botão, assumisse outra persona para fazer o programa. Ela interpreta um personagem na hora de matar o marido. Segundo especialistas, o esquartejamento diz muito mais sobre ela do que o tiro”, destaca.

O livro não deixa claro se Elize é uma psicopata e traz laudos com diferentes conclusões baseados no exame Rorschach (teste de personalidade que analisa interpretações sobre manchas de tinta). Mas neles são identificados traços de psicopatia.

“A mulher psicopata não é um tipo de pessoa tão insensível, delinquente ou predisposta a cometer agressões físicas quanto o homem psicopata. Ela tende a se interessar mais pelo outro, embora não genuinamente. Mantém comportamentos de promiscuidade sexual, de mentira elaborada e de estilo de vida parasitário, com benefícios financeiros e sociais”, aponta um dos laudos.

Segundo a análise de especialistas descrita no livro, “a agressão da mulher psicopata é mais voltada a pessoas próximas (familiares, amigos e conhecidos) e mais visível por meio do ciúme, do medo do abandono, da agressão verbal e da autoflagelação”.

O crime

O crime é narrado no livro com base no inquérito policial e na reconstituição. Mais uma vez se apresenta a tese de que Elize teve ajuda para esquartejar o marido, mas nunca se comprovou o envolvimento de uma terceira pessoa.

O corpo foi desmembrado em sete partes horas depois do assassinato de Marcos com um tiro na cabeça, após uma discussão do casal. Enquanto Elize tentava tirar o corpo do apartamento sem levantar suspeita, a filha de 1 ano e a babá estavam em outro cômodo da casa. A mãe ainda interrompeu o processo para acalmar a bebê.

Elize foi flagrada carregando três malas pelas câmeras de segurança. As partes do corpo foram colocadas em sacos plásticos e jogadas na beira de uma estrada de Cotia, na Grande São Paulo, em um raio de 4 km.

A presa ainda enviou um falso e-mail à família Matsunaga e afirmou que Marcos fugiu com uma amante. A verdade veio à tona dias depois com o encontro do corpo e o reconhecimento pelo irmão da vítima.

Ele levou 2 anos para concluir a obra, sendo 8 meses só para escrita. Segundo o autor, os relatos de Elize foram obtidos pelo inquérito policial, já que ela confessou o crime. Os outros depoimentos foram conseguidos em Chopinzinho.

O livro “Elize Matsunaga: a mulher que esquartejou o marido” está em pré-venda Esta é a segunda publicação do autor, que escreveu ‘Suzane: Assassina e Manipuladora’.

Anúncio