A Casa do Índio: uma história esquecida

Durante mais de meio século, cerca de 30 mil indígenas passaram pela Casa do Índio criada pela ditadura

Manaus – Durante mais de meio século, cerca de 30 mil indígenas passaram pela Casa do Índio criada pela ditadura, em 1968, na Ilha do Governador, no Rio, no contexto da instalação de uma estrutura policialesca no Brasil do AI-5, com três aparelhos repressivos centrados em Minas Gerais: a Guarda Rural Indígena (GRIN) treinada no quartel da PM, o Reformatório Krenak, em Resplendor e a Fazenda Guarani, perto da Serra do Cipó, com índios conduzidos presos para lá “dentro de uma vagão de carga que nem animais”.

No contexto da repressão, qual o tratamento dado aos povos originários pela Casa do Índio, precursora de 40 outras? Por que apenas a Casa do Rio permanece e abriga, ainda hoje, 11 indígenas? Qual o lugar da psicologia dentro dela e de que forma conta a trajetória dos saberes Psi no Brasil? Essas são questões formuladas por André
Sant´Anna em sua tese de doutorado defendida nesta quinta-feira (28) na UERJ. A busca de respostas levou o autor a visitar a Casa do Índio para entrevistar a sua
fundadora, Eunice Cariry que, apesar de exonerada em 2009, lá permanece, enquanto as demais casas foram convertidas, em 2015, em Casas de Apoio à Saúde Indígena
(CASAIS). Para assegurar o controle dos registros de indígenas que ali estiveram, Eunice, a guardiã dos documentos, vedou o acesso de André aos prontuários. Cem anos
de sigilo?

Casa de Horrores

– O silêncio sobre a Casa do índio e o desconhecimento sobre ela são sintomas de um esquecimento programado, não se trata de uma falha, mas de uma política deliberada
que visa apagar aquilo que a estrutura do poder não quer que seja lembrado. O esquecimento, nesse caso, é uma fabricação. O resgate da memória é um ato de
enfrentamento para que as narrativas não permaneçam na sombra do autoritarismo – escreveu o doutorando.

Ele aceitou o desafio, consciente de que o arquivo é um campo de batalha, onde o que está em disputa não é apenas a memória, mas também aquilo que se pretende ocultar. Com o apoio do Laboratório de História e Memória da Psicologia Clio-Psyché, procurou o Serviço de Gestão Documental (SEDOC) da FUNAI, em Brasília, e lá consultou cópias da documentação enviada pela Casa do Índio para aquela Fundação, incluindo os relatórios anuais desde 1968.

Outra fonte importante foi o livro Pharã Kaxtirore Darashé: pelos mutirões da vida, escrito pela jornalista Bia Porto, com relatos que trazem a versão de Eunice sobre a
trajetória da Casa do Índio, assim como notícias na mídia e depoimentos de médicos, militares, professores, funcionários. Foi possível acessar também o inquérito que corria em sigilo sobre a situação irregular de indígenas em situação de vulnerabilidade. O que o doutorando encontrou na documentação por ele analisada com olhar crítico confirma a entrevista que lhe foi concedida em 2015 por José Carlos Levinho, então diretor do Museu do Índio: “É uma casa de horrores, um depósito de indesejados”.

Efetivamente, a instituição que teve seu auge nos tempos do DOI-CODI, “permanece hoje como um fóssil de outra época”, que reflete como os indígenas foram tratados na
história, mas também como seguem sendo vistos, ou seja, não vistos.

Meus doentes mentais

Posto que o espaço da Casa, desde sua inauguração, se caracterizou como um lugar destinado a receber indígenas portadores de doença mental, era necessário – diz o
pesquisador – verificar a presença de médicos e psicólogos e o modo como foram administradas as medicações psiquiátricas, assim como indagar sobre a formação e os
conhecimentos de Eunice no campo da saúde mental, como ela acessou o conhecimento psicológico e como o utilizou para ordenar condutas individuais e coletivas.
Além de analisar os discursos de Eunice Cariry, nascida no subúrbio do Rio em 1935, filha e mulher de militar, a tese reconstituiu a sua formação para compreender suas
práticas na Casa do Índio, procurando evitar as armadilhas comuns no uso de biografias como fonte. Ela seguiu vários cursos voltados para a segurança: de Polícia Feminina Auxiliar; de Especialização em Problemática Carcerária e de Organização, Investigação e Prática Policial, atuando como professora no curso supletivo aos internos da Penitenciária Milton Moreira.

Quando recebeu o título de cidadã benemérita do Estado do Rio de Janeiro concedido pela Assembleia Legislativa, Eunice teve seu currículo detalhado. Lá se observa que ela participou de um curso de férias de Introdução à Psicologia Junguiana, de 12 a 26 de julho de 2006, na Universidade Estácio de Sá e de cursos de extensão na Universidade de Valença, onde figurava, entre outras, a disciplina de Psicologia.

Num de seus relatórios citados na tese, ela se refere aos “meus doentes mentais tão queridos que, apesar de suas ´imbecilidades´ e das asneiras que praticam a todo
instante, me recompensam com gestos e olhares carinhosos”. A tese conclui que “A Casa do Índio foi um hospital, um manicômio, uma escola, um quartel, uma fábrica, dependendo do enquadramento com que for olhada. Ao longo de sua história foi um importante mecanismo na fabricação de índios dóceis”.

P.S. André Luís de Oliveira de Sant’Anna: “Casa do Índio: uma narrativa sobre o controle psicossocial de indígenas na ditadura empresarial-militar” Tese de doutorado.
Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGPS/UERJ). 2022.

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