A ceia do amigo oculto: árvores e livros

No réveillon, a primeira a falar foi a Seringueira, que transpirava látex por todos os poros

No (des) governo do Coiso, as árvores se comunicaram através de suas raízes e do ar para lamentar os incêndios florestais criminosos. Agora, com o novo tratamento dado pela Secretaria de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais, fizeram sua festa de amigo oculto, como seres de vida social que são, para celebrar a recuperação da flora e da fauna determinada pelo decreto de 01/01/2023. Ainda não é o ideal, mas pelo menos puderam respirar neste ano. As árvores falam.

No réveillon, a primeira a falar foi a Seringueira, que transpirava látex por todos os poros:

– Conheço minha amiga oculta desde criancinha. Ela sempre nos protegeu, matou nossa sede, preservou ninhos de passarinho em nossos galhos e defendeu o manejo sustentável da floresta.
As outras árvores gritaram:

– Ma-ri-na! Marina!

A ministra do Meio Ambiente ganhou da Seringueira um cacho de florezinhas brancas perfumadas e um exemplar de “A Selva” de Ferreira de Castro, que trata da exploração nos seringais.

O imponente Buritizeiro, com as raízes fincadas no brejo, falou do alto dos seus 30 metros olhando para Sônia Guajajara:
Minha amiga oculta mede 1,50 metros, mas se agiganta e fica maior do que eu, quando sai pra luta. Foi eleita em 2022 uma das 100 pessoas mais influentes do planeta pela revista TIME. Dou-lhe o livro “Buriti” de Guimarães Rosa, relacionado com a cultura dos povos ameríndios e esta rede artesanal feita com fibra da minha folha.

Foi então que o Açaizeiro balançou as folhas de palmeira e anunciou:

– Tenho dois amigos ocultos. Um mora no Palácio da Alvorada e reduziu o desmatamento na Amazônia em mais de 50%. O outro impediu o golpe e vai lutar por nós no STF com a toga do Batman.Entregou então três embrulhos em papel de presente com uma fita amarrada no topo. Todas as espécies vegetais gritaram:

– Abre! Abre!

De lá saíram uma garrafa de vinho de açaí Flor da Samaúma com sabor de vinho tinto de uva e teor alcoólico de 12% produzido pela vinícola de João Capiberibe no Amapá e dois livros: Iracema de José de Alencar com palmeiras se destacando na paisagem do Ceará e a Canção do Exílio do poeta maranhense Gonçalves Dias.

Chegou a vez da Amendoeira, a árvore de Exu, orixá da comunicação, que emigrou de Portugal. Ela presenteou duas amigas, ambas defensoras do meio ambiente:

– Uma amiga cantora gravou a canção “Elegibô – Uma História de Ifá”. A outra, ex-jogadora de vôlei do Vasco, nasceu no Complexo da Maré e se formou em jornalismo nos Estados Unidos.

Os olhares todos se voltaram para as ministras da Cultura, Margareth Menezes e da Igualdade Racial, Anielle Franco. Ambas ganharam um vidro de licor Amaretto feito de amêndoas e o livro da crônica “Fala Amendoeira” de Carlos Drummond, que conversa com a árvore magra em frente a seu edifício, atravessada por fios elétricos, por ele chamada de “anjo vegetal” por dar sombra aos namorados e atender “precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes”.

A troca de presentes prosseguiu com outras árvores, que contaram suas histórias, algumas delas registradas em “O livro das árvores” do povo Ticuna, publicado em 1997 e usado nas aulas de educação ambienta, como fruto do projeto “A natureza segundo os Ticuna”.
A comunicação entre espécies vegetais de grande porte é confirmada pelo engenheiro florestal alemão, Peter Wohlleben em seu livro “A vida secreta das árvores”:

– Para nós, é difícil acreditar, em parte por causa da nossa tendência de avaliar outros seres vivos com base no nosso próprio organismo. Mas árvores são seres de vida social complexa, que trocam nutrientes e informações entre si, cuidam de seus “bebês” e combatem invasores de forma coordenada.

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