A Faixa de Casa: Manaus e a maloca do tempo

O fumacê permanente que asfixia Manaus degrada sua paisagem, adultera cheiros, sons, cores, sabores e arruína a saúde

O fumacê permanente que asfixia Manaus degrada sua paisagem, adultera cheiros, sons, cores, sabores, arruína a saúde de 2 milhões de moradores e se entranha na pele da cidade. Olho fotos das casas imersas em nuvem de fumaça e as comparo com as da arborizada cidade de outrora e com imagens da Faixa de Gaza bombardeada, o que me leva a relacionar o poema Habitar o tempo de João Cabral de Melo Neto com o Regatão da Saudade de Arlindo Porto.

O passado é aquilo que “não passou do que lhe passou” diz João Cabral. O passado, já morto, só existe se ressuscitar no presente. Vivenciar cada instante e, enquanto ele transcorre, caminhar na trilha entre o pretérito e o porvir, é habitar o tempo ao vivo.

A maloca do tempo

O “Regatão da Saudade” habita o tempo de um passado “que não passou”. Releio o livro e fico só abicorando o autor nascido com os olhos fechados como um filhotinho de cachorro. Não via nada. Será que é cego? Pensaram até em operá-lo. Mas dona Inácia, sua mãe, pingou-lhe leite materno sobre os olhos.

Santo remédio. Esse regatão da saudade arregalou os olhos e começou a ler o mundo e o que ele viu, ouviu, cheirou, tocou, sua memória registrou. Criado na década de 30 no Alto de Nazaré em um barraco de zinco, sua memória acústica, olfativa, tátil, gustativa e visual foi gravando e fotografando tudo. Agora, sua memória não mais lhe pertence. Ela se fez carne e habita entre nós na maloca do tempo, nossa morada coletiva.

Ainda hoje, aos 94 anos, ele guarda os sons da cidade: o dlem-dlem do bonde que moía vidros sobre os trilhos para fazer cerol, o papagaio do famão da Vila Mamão – Descai linha, galinha! Bota outro, penoso, que teu pai é perigoso! – o apito triste do guarda noturno, o bimbalhar de sinetas dos carros coletores de lixo, o ruído das vassouras de cipó varrendo ruas, a sirene da usina de luz do Plano Inclinado e as crianças: – sua benção, mamãe! – quando badalava ao meio dia o sino da Matriz.

Odores das ruas arborizadas: aroma de manga e de mari-mari ficaram cravados na lembrança do menino, assim como buquês de angélicas perfumadas trazidas do Careiro.

Memória seletiva

Eita! Pera lá! Só sabor e perfume de flor? Dissabores e fedores não entram nesta memória seletiva? Qualquer tempo passado parece ter sido melhor. Parece. Acontece que o presente já é tão tétrico, que na construção da memória varremos o lixo de outrora pra debaixo do tapete.

É claro que agruras, desprazeres, intolerância religiosa, racismo e machismo, aporofobia e homofobia conviveram na Manaus de ontem com momentos intensos de alegria e de humanidade, evidenciando que a cor da realidade manauara não era preta nem branca. Era cinza, como esse fumacê que então não existia e que agora nos sufoca provocado, entre outros, por incendiários criminosos.

Difícil imaginar como nossas netas e netos lembrarão esse tempo sinistro. No poema “Aos que virão depois de nós”, Bertold Brecht lamenta os tempos sombrios em que vivemos, “quando falar de flores é quase um crime, pois significa silenciar sobre tanta injustiça”.  Para o poeta, “aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia”.

A terrível notícia não é apenas a dramática contaminação do ar, mas a passividade da população que, em sua maioria, caminha silenciosamente ao matadouro sem reclamar e ainda por cima elege seus algozes para cargos públicos. Até quando?

Eh, eh, Manaus, cadê você? / Eu escrevo só pra te ver / protestar contra o fumacê.

A fumaça era tanta que outro dia a Céu, minha irmã, teve de rastejar no chão para encontrar sua gatinha. Sem exagero. Fico ofegante só em ouvir tais relatos. Com o fiofó na mão, temo ficar órfão de nove irmãs. Bem que um avião da FAB podia retirá-las dessa Faixa de Casa, com sobrinhas e sobrinhos. A questão é: levá-los para onde, meu Deus?

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