A Rainha no Maracanã, o “Imbrocheibol” em Londres

No velório da rainha Elizabeth 2ª, o coiso espumará de ódio ao ver o vermelho da túnica comunista dos guardas, marchando à frente do caixão

Elizabeth II será sepultada nesta segunda (19) na presença de 500 autoridades do mundo inteiro, entre elas o Coiso do Brasil, que espumará de ódio ao ver o vermelho da túnica comunista dos guardas, marchando à frente do caixão, mas se alegrará com as salvas de tiros de canhão. Ele será recebido com o hino em inglês Imbrochable´s fat ass em retribuição ao canto entoado em novembro de 1968 por cem mil torcedores no Maracanã para homenagear a Rainha, em sua visita oficial ao Brasil.

Era uma tarde ensolarada de domingo. Sentada na tribuna de honra ao lado de Philip, Elizabeth perguntou ao tradutor o significado daquele canto, que a mídia, por decoro ou censura, se omitiu de publicar. Este Diário do Amazonas revela, 54 anos depois, a letra da canção em português, assim como aquela do hino em inglês agora cantado em Londres.

Afinal, o que cantarolou a torcida brasileira? Precisamos contextualizar os fatos. A Rainha Elizabeth, aos 42 anos, visitava o Brasil, encerrando a última etapa no Rio. Uma partida entre a seleção paulista de Pelé e a carioca de Gerson, foi agendada, mas precisava de um tradutor refinado que falasse inglês, entendesse de futebol, não cuspisse no chão e não coçasse o saco em público.

O perfil ideal era o do jornalista Manoel Muller (1923-2005), que havia mantido uma coluna social com o pseudônimo de Jacinto de Thormes. Nascido no Rio em berço esplêndido, numa família de diplomatas, era neto de Lauro Muller, ministro de Relações Exteriores. Aos três anos, com a separação dos pais, foi educado por uma governanta britânica, com quem aprendeu a falar inglês.

Cochicho com a Rainha

A língua, ele dominava. Normas de etiqueta, também. Sabia que não se deve chamar a Rainha de Sua Majestade, a não ser em cerimônia, mas de Madam. Futebol, então, nem se fala, pois anos antes havia migrado da coluna social para a página esportiva do jornal Última Hora, cuja crônicas foram reunidas no livro “O velho e a bola”.  

Com tais credenciais, foi convidado pelo Itamaraty para explicar à Rainha o jogo no Maracanã. Levou com ele foto de seu cão, chamado Shakespeare, portando um boné inglês na cabeça, “que cairia bem numa partida de críquete em Wimbledon”. Elizabeth adorou a figura elegante de Maneco Muller, seus ares de lorde inglês, seu majestoso cachimbo. “Ele foi o único brasileiro que teve o privilégio de trocar cochichos com a Rainha da Inglaterra”, segundo Geneton Moraes, que o entrevistou em 2004.

Maneco Muller revelou alguns desses cochichos. O governador da Guanabara, Negrão de Lima, ofereceu orquídeas à Rainha, que perguntou se vieram da Amazônia. Maneco confirmou, mas depois confessou: “Amazônia coisa nenhuma. Eram daqui mesmo. Tirei uma onda. A Rainha achou ótimo. A gente tem de falar essas coisas por gentileza”.

Em outro cochicho ao pé do ouvido, Elizabeth perguntou:

– “Você não acha que esse jogo está lento? Eu disse: “Madam, a senhora se acostumou a ver no estádio de Wembley jogadores ingleses fortes e robustos, que correm muito, são verdadeiros touros. O nosso jogador, Madam, é uma cobra. De repente, dá um bote”. Por sorte, minutos depois, Pelé gritou “dá”, driblou um, cortou o outro e quase fez um gol maravilhoso. A Rainha se virou para mim: “Isso é que é cobra”. Eu disse: “Yes, Madam, precisely”.

Maneco conta que ela olhou para o Príncipe Philip e perguntou: – “Você sabe qual é a diferença entre os nossos jogadores e os brasileiros”. Aí ela começou a contar ao marido a minha história, sem me pagar royalties”.

A hora do lanche

– “A impressão que a Rainha dá é a de que é uma pessoa triste. Aquilo deve ser muito, muito chato” – avaliou Maneco Muller.

Veio então a grand finale. No segundo tempo, o jogo estava 2 x 2, quando o juiz Armando Marques marcou pênalti contra os cariocas. O Maracanã em peso entoou, então, a paródia do jingle Biscoitos São Luíz:

É hora do lanche, que hora tão feliz, queremos a bundinha do juiz.

O nosso tradutor conta: – “A Rainha me perguntou o que era aquilo. Eu disse que a torcida estava aplaudindo o juiz, que era muito popular no Brasil. Quando, depois do jogo, ela se encontrou com ele, disse: Gostei de ver sua popularidade”.

Por pudibundez, os jornais silenciaram: “A reportagem do Globo no dia seguinte não informou qual foi a ofensa”.

O clima era de tensão. Um mês depois da visita da Rainha, a ditadura editou o AI-5, com prisões, tortura e censura férrea a qualquer manifestação cultural. No Maracanã, os generais haviam proibido o anúncio pelo autofalantes da presença da Rainha, “por terem descoberto conspiração de vaia articulada por elementos subversivos”.

No entanto, segundo a mídia, “a multidão percebeu a presença de Elizabeth e, de forma espontânea e alegre, de pé, passou a aplaudir. O Maracanã inteiro gritava: Rainha, Rainha. Sua Majestade de pé, acenou em agradecimento”.

Não foi bem assim. O que aconteceu, omitido pela mídia, foi o coro da torcida:

É hora do lanche, é hora da papinha, queremos a bundinha da Rainha.

Era uma homenagem irreverente como os cariocas sabem fazer. Eu estava lá com um amazonense, estudante de medicina. Está aí o Antônio Sanches, hoje médico em Manaus, que não me deixa mentir. Ou deixa?

Agora, como retribuição, os moradores de Londres receberão o representante do Brasil com a mesma música, mas letra diferente:

É tempo de eleição

É hora do assédio

Cadê o bundão

Do Imbrochável?

Anúncio