Chile aos 17: o Casaco do Thiago e a Caixinha

Como na canção de Violeta Parra “Volver a los 17”, voltamos todos a ter 17 anos

Olho a meu redor. Vejo cabeças brancas ou calvas, peles enrugadas, mãos trêmulas, passos trôpegos. Vou conferir, então, minha própria imagem de velhinho no espelho do restaurante Las Vacas Gordas em Santiago, no jantar de confraternização de ex-exilados brasileiros no sábado (9). Mas – oh milagre! – minha barriga de bispo pós-conciliar virou tanquinho. Como na canção de Violeta Parra “Volver a los 17”, voltamos todos a ter 17 anos, com o viço e o frescor dessa idade, mas com a fiel memória de meio século vivido.

Essa memória será reativada pela comitiva do Grupo Viva Chile neste domingo (10) em visita ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos e na inauguração da Exposição de fotos de Evandro Teixeira, assim como na deposição de flores no Mausoléu dos Desaparecidos e nos túmulos de brasileiros. Um velório madrugada adentro no Estádio Nacional homenageará os mortos. São muitos os que já nos deram adeus em circunstâncias dramáticas.

– Não vai chorar, Zé Bigodinho. Comuna não chora. Pra controlar o choro, lembra do casaco do Thiago de Mello.

Somente em ocasiões solenes como essa o meu amigo titiriteiro Euclides Souza, 88 anos, usa o “nome artístico” com o qual atuei no Teatro de Bonecos Dadá no exílio. Deu-me este conselho por telefone ao saber da viagem ao Chile, onde me encontro, para rememorar os 50 anos do golpe que matou Allende. Mas afinal que casaco é esse?

O casaco de Marx

Chamar de casaco, depende do usuário. O fato é que Thiago e eu cruzamos a pé a fronteira do Uruguai, em 1969, com a roupa do corpo. Viajei de Montevidéu ao Chile um mês antes dele, que me emprestou seu casaco. Para o poeta, era um overcoat, que ia até pouco abaixo do joelho. Para mim, de menor tamanho, virou um sobretudo que descia até o tornozelo.

Era preciso me abaixar para mexer no bolso que, em mim, ficava na altura da canela. Foi com essa túnica comprida que cheguei à pensão dos exilados em Santiago. Parecia um padre de batina pré-conciliar.

A história do casaco do poeta lembra “O Casaco de Marx”, tantas vezes penhorado em Londres e que foi por ele usado como exemplo para desnudar o capitalismo. O que têm em comum é apenas que ambos constituem uma peça de roupa transformada em objeto de memória repleto de significados.

O casaco pode ser ponto de partida para dar conta da vida dos exilados no Chile. Ele nos remete à “Caixinha”, que me deu uma jaqueta usada para substituir a “batina” e garantiu para muitos de nós casa e comida, o que, por sua vez, nos leva ao SNI que espionava a “Caixinha”.

Caixinha, obrigado!

Muitos exilados ingressavam no Chile sem um puto no bolso. Até arrumarmos trabalho éramos mantidos pela “Caixinha”, uma instituição sustentada por asilados da primeira leva com cargos em organismos internacionais sediados em Santiago.

Já no primeiro semestre de 1970, o SNI, que monitorava os dissidentes chegados ao Chile e seus respectivos contatos e ações, registrava a ajuda que recebíamos da Caixinha.

Darcy Ribeiro dizia que o Brasil sempre viveu de costas para os seus vizinhos, mas o exílio permitiu que descobríssemos os hermanos. O Chile abriu para nós as janelas da música, da literatura, do teatro, da culinária e da língua da América Hispânica. Três cantores já falecidos registraram essa expansão da nossa identidade.

Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco – cantava Belchior. Soy latino-americano e nunca me engano – completava Zé Rodrix. – Anda, preparándote a vivir en América, tu América – recomenda a canção de Payo Grondona.

Nuestra América! Nós, moças e rapazes latino-americanos, aprendemos a amá-la. Suspeito que o querubim vai pedir de volta os 17 anos que nos deu para revisitar o Chile e que no retorno ao Brasil entardeceremos outra vez como no poema de Benedetti para quem “aqui não tem velhos, acontece apenas que a tarde chegou para nós”.

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