Dom e Bruno: Amazônia, sua linda!

É belo o vídeo de um minuto, que viralizou e foi exibido pelo jornalista André Trigueiro num canal de TV

Quero sua risada mais gostosa / Esse seu jeito de achar /

Que a vida pode ser maravilhosa (Ivan Lins. Vitoriosa. 1986).

A cena é paradisíaca. Cercado por árvores no meio da floresta, Bruno entoa um canto na língua Kanamari:

Wahanararai wahanararai, marinawah kinadik marinawah kinadik; tabarinih hidya hidyanih, hidja hidjanih

A câmera capta sua imagem de perfil, sentado no chão sobre um tapete de folhas, cadenciando a música com o pé esquerdo. Parece estar só. Não está. Gira seu rosto à direita e, agora de frente, abre um sorriso alegre para os índios com quem ele fala e que, fora do enquadramento, não aparecem no vídeo. Escutamos suas vozes cantando com Bruno um contracanto coletivo, afinado pela cumplicidade construída na partilha das experiências de luta.

É belo o vídeo de um minuto, que viralizou e foi exibido pelo jornalista André Trigueiro num canal de TV. Não precisa conhecer a língua Kanamari para perceber que se trata de um hino em defesa da floresta e dos povos que lá vivem há milênios. Basta ver, ao final, a risada gostosa de Bruno, de bem com a vida, interrompida aos 41 anos, o que torna a cena desgarradora. Daí o sentimento ambíguo que provoca em nós, mesclado de tristeza. É que o outro lado, o que mata e não canta, ceifou a vida e o riso nela contido.

– Quando vi o vídeo do Bruno chorei muito – escreveu o cantor e compositor André Abujamra, autor de um remix do canto indígena de Bruno. Chorar e orar. Dominado pela tristeza, ele expressou o sentimento de todos nós. Já ouvi trocentas vezes as imagens, hipnotizado pelo riso e a alegria de menino brincalhão, que deve ter encantado a sua Beatriz e os dois filhos de 2 e 3 anos, um deles com o riso do pai, ambos fotografados em um barco no rio de água barrenta, em cujo toldo está escrito: “Este rio é minha rua”.

Piranha no pirarucu

Navegar pelo rio Amazonas e seus afluentes, contemplando a mata exuberante, tem algo de sagrado. O jornalista britânico Dom Phillips, 57 anos, uma semana antes de ser assassinado postou no Instagram um vídeo dentro de um barco, com uma frase que diz tudo sobre ele e seu parceiro de vida e de morte:

Amazônia, sua linda!

O amor pela região unia ambos e vinculava os dois aos povos indígenas.

“Como Salvar a Amazônia”. Esse é o livro que Dom estava escrevendo, com a experiência adquirida em viagens pelo Brasil durante 15 anos, nos últimos cinco anos pela região amazônica, acompanhado de Bruno. Suas reportagens em jornais europeus e dos Estados Unidos documentaram o avanço do desmatamento, a predação do garimpo, a invasão dos territórios indígenas durante o governo do Coiso.

O jornalista era amado pelos povos indígenas, assim como Bruno, conforme declarações de líderes da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA). O Coiso, porém, avocou como seu o sentimento dos que destroem a floresta e poluem os rios, ao dizer que Dom era “malvisto” pela população local. Enquanto ainda se desconhecia o paradeiros dos dois, o Coiso tripudiou sobre os cadáveres em entrevista à coisificada jornalista Leda Nagle:

– Se estiverem mortos, os corpos podem estar dentro da água e pouca coisa para sobrar. Tem piranha lá no rio Javari”. Completou: “A gente lamenta e pede a Deus para que nada tenha acontecido”. Mas advertiu: “É muito temerário andar naquela região sem estar preparado fisicamente e também com armamento devidamente autorizado pela Funai. Pelo que parece eles não estavam”. Em conversa com gente de sua laia, defendeu o uso de armas: Jesus só “não comprou pistola porque não tinha” naquela época.

Lei da selva

Dom e Bruno foram censurados por embarcarem “em uma aventura não recomendável onde tudo pode acontecer” na visão do Coiso, dando aval a garimpeiros ilegais, envenenadores de rios, narcotraficantes e grandes contraventores, evidenciando que não há qualquer controle sobre a região por parte do Estado e suas instituições, incluindo o Exército, o Judiciário e a Polícia.

Diante da ausência dos poderes públicos na Amazônia, aqueles que condenam a selvageria política concluíram que lá predomina a lei da selva, que é anterior à lei dos homens e que dominou o período histórico antes do surgimento da religião, da escrita, das constituições, dos tribunais, onde os crimes cometidos gozavam de total impunidade.

No entanto, o termo talvez seja impróprio, porque na selva nenhuma animal tortura outro animal ou promove guerras, nem envenena os rios e muito menos destrói a floresta, que é seu habitat. Mais apropriado seria falar na “lei da bandidagem”, que até 1º de janeiro de 2023 continuará sendo insuflada pela boçalidade instalada no poder.

O avô dos netos de Bruno, Kleber Gesteira Matos, ex-coordenador da Educação Escolar Indígena no MEC e um dos maiores especialistas na área não tem dúvidas:

– Bolsonaro tem sangue nas mãos e não tem coragem de dizer que está muito satisfeito com o que aconteceu – declarou ele ao Diário do Centro do Mundo (DCM).

– Onde estão Dom e Bruno? A pergunta feita no mundo inteiro agora tem uma resposta: eles estão no coração da floresta e do rio, no coração dos povos indígenas, no coração de todos nós. Amazônia, sua linda. Wahanararai wahanararai.

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