Faixa de Gaza: a fábrica de mortos em série

“Guerra é isso. A gente volta de lá mais bicho do que gente”. (Paulo de Mello Bastos. Tauã. 2003)

A sirene toca. O som alto e agudo indica o horário do início de mais um dia de labuta na fábrica. O canteiro de obras é um formigueiro humano. A linha de montagem produz mercadorias, mas de uma indústria sinistra. É a fábrica de mortos em série da Faixa de Gaza, que usa corpos vivos de civis como matéria prima em sua linha de produção em massa. A mercadoria final manufaturada são cadáveres, entre outros, de crianças e jovens inocentes.

A indústria da morte evidencia que no sistema capitalista esgotado, “as forças produtivas da humanidade pararam de crescer” – como profetizou Leon Trotsky no Programa de Transição aprovado, em 1938, no Congresso de fundação da IV Internacional Socialista, em Paris. Novos progressos técnicos não conduzem mais ao crescimento da riqueza material e do bem-estar coletivo e são usados pela indústria bélica para matar, causar sofrimento e privações.

Indústria da morte

Esse é o sinal da agonia de um sistema socioeconômico, quando a forma como a sociedade está organizada já não corresponde mais ao nível das forças produtivas em contínuo avanço. Foi assim com a sociedade escravista, a feudal e agora com a capitalista, que depende para sobreviver cada vez mais da indústria armamentista trilionária.
Neste caso, as forças produtivas são transformadas em forças destrutivas da humanidade, que mata em série Segundo relatório do Instituto Internacional de Estudos para a Paz (SIPRI) de Estocolmo, os gastos militares globais, que atingiram níveis recordes, ultrapassaram a marca de US$ 2 trilhões de dólares só no ano de 2021, o equivalente a R$ 10 trilhões de reais.

Nos últimos 85 anos, da fundação da IV Internacional aos dias atuais, se estima em mais de 140 trilhões de dólares o gasto em armas, munições, equipamentos e tecnologia militar, o que se aplicado na indústria da paz acabaria com a fome e a desigualdade social.

O Programa de Transição de uma atualidade espantosa acertou na mosca, não pelas tarefas propostas ao movimento revolucionário, mas porque cantou a pedra, antecipando o que ocorre hoje. Refere-se à catástrofe econômica e militar, ao “incêndio mundial” com conflitos e explosões sangrentas cada vez mais frequentes e às “tendências destrutivas e degradantes do capitalismo decadente”.

O desemprego cresce, a crise financeira do Estado mina os sistemas monetários. Governos democráticos ou fascistas, vão de uma bancarrota à outra – diz o Programa, herdeiro da Primeira Internacional de Marx. Sua atualização exige explicitar que as forças destrutivas não exterminam exclusivamente seres humanos, mas em nome do lucro depredam o meio ambiente, tocam fogo nas florestas, contaminam os rios, poluem o ar que respiramos.

Terrorismo de Estado

Divisões internas e erros políticos da IV Internacional contribuíram para que o sistema capitalista não tenha sido sepultado, como ocorreu com feudalismo em seu momento histórico, o que acelerou o crescimento da indústria armamentista e propiciou a tragédia atual vivida pelo mundo estarrecido. As mortes causadas pelo Hamas, que não representa o povo palestino, desencadearam um terrorismo do estado de Israel, com mortes em série da população civil.

Muita gente está envergonhada de pertencer à espécie humana, diante das atrocidades cometidas, ironicamente, na Terra Santa, berço de um menino que há mais de dois mil anos pregava a paz. Além das mortes de inocentes, o dano maior causado pelas guerra é que ela brutaliza e desumaniza os que dela participam. Sequestra sua humanidade. Transforma assassinos em heróis.

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