Jornalismo e Ciência de mãos dadas: Até breve, José Monserrat

José Monserrat Filho idealizou e editou desde 1989 o Jornal da Ciência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

A Ciência, o jornalismo e o Brasil perdem muito com o adeus de José Monserrat Filho (1939—2023), velado no último dia do ano (31) no Cemitério do Caju. Suas cinzas serão enterradas em uma árvore na casa de seu filho, em Minas Gerais.

José Monserrat Filho idealizou e editou desde 1989 o Jornal da Ciência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que veio preencher uma lacuna da mídia pouca atenta às pesquisas acadêmicas. Abordou essa questão em entrevista a Bernardo Esteves:

–  Política e ciência andam juntas. No entanto, nem sempre essa proximidade se reflete nas páginas dos jornais e revistas. Não é possível fazer divulgação científica sem discutir as inúmeras questões políticas que determinam os rumos da ciência no país, como a definição das áreas prioritárias e estratégicas ou os critérios para o financiamento das pesquisas.

Este jornalista gaúcho, que começou sua vida profissional no Correio do Povo e na Folha da Tarde, fez o mestrado em Direito Internacional em Moscou, onde viveu de 1961 a 1967 e na Academia de Direito Internacional em Haia, na Holanda. No retorno a Porto Alegre, em 1967, depois do golpe empresarial-militar, Breno Caldas, dono da empresa jornalística Caldas Júnior, não o aceitou de volta, dizendo que “a cota de comunistas do jornal estava esgotada”.

O curioso é que, naquela época, eu nem era vinculado ao Partido Comunista – comentou Monserrat.

A “cota de comunistas” de outros jornais ainda teve espaço para receber o nosso Zé, que colaborou com o Pasquim, o semanário Polítika e a Tribuna da Imprensa, onde escrevia sobre temas internacionais.

Zé Monserrat andou por países da Europa e do continente americano. Estudou na Universidade Internacional do Espaço (International Space University), em Estrasburgo, na França, onde mergulhou no campo do direito internacional, especialmente do direito espacial, que se tornou seu xodó. Foi vice-presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), onde coordenou o Núcleo de Estudos de Direito Espacial.

O primeiro jornalista a comentar na imprensa brasileira o Tratado do espaço de 1967, foi eleito vice-presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA) e membro da Academia Internacional de Astronáutica (IAA). Com essa experiência acumulada foi convidado para chefiar a Assessoria Internacional do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação MCTI) e a Agência Espacial Brasileira (AEB).

Sua atuação profissional certamente contribuiu para que alguns cursos de jornalismo de universidades públicas criassem a disciplina “Jornalismo científico”. Na citada entrevista, ele falou sobre seu maior desafio:

– O meu interesse era tornar os artigos mais palatáveis e acessíveis. Por isso, incentivávamos os autores a escrever ao menos a primeira metade do texto, de tal modo que o leigo pudesse entender. Era uma luta permanente. Havia quem visse a Ciência Hoje como uma revista científica: “Se as pessoas não entendem, que estudem!”. Nunca aceitei isso. É preciso abrir caminhos, de forma inteligente e criativa para fascinar o leitor, para que ele chegue até a parte mais complexa.

Para ele, “não é questão de simplificar, mas de mostrar como aquilo é fascinante. Esse é um exercício permanente”, que possibilita fazer circular o conhecimento científico entre os leigos, tornando a ciência respeitável e admirada.

Autor de diversos livros e de artigos científicos na área do direito espacial, Monserrat Filho deixa um grande legado para os estudantes e profissionais brasileiros de direito espacial.

À sua esposa, Rute Monserrat, amiga e colega de tantas jornadas, a seu filho, familiares e amigos, os nossos sentimentos solidários. Especialista em direito espacial, o querido Zé sabe como navegar no espaço e como ser mais justo lá do que na terra.

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