O Sobrenatural de Almeida na Eleição Argentina

O sobrenatural aqui é tão corpóreo, que recebeu até sobrenome como o personagem de Nelson Rodrigues, o Sobrenatural de Almeida

Quem será o presidente eleito neste domingo pelos argentinos? A escolha entre Sérgio Massa e Javier Milei depende de forças sobrenaturais. Compreendi isso ao assistir em Buenos Aires o último debate entre os dois candidatos, em companhia do jornalista Sérgio Kiernan e do escritor Guillermo David, degustando empanadas entre um gole e outro de vinho e ouvindo os comentários de ambos, autores de livros sobre a vida política argentina.

“Delírios Argentinos. As ideias mais mirabolantes de nossa política” do portenho Kiernan ironiza, com humor, as desvairadas fantasias políticas da história de seu país. Seu amigo Guille no livro “Na panela misteriosa: plágios, simulacros, calúnias e outros conchavos peronistas” relata uma história fantástica. O telefone toca na casa de um peronista católico:

– Quem fala?

– Jorge.

– Que Jorge?

El Papa, boludo.

Era mesmo Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, acusado por Milei de representar Lúcifer aqui na terra, de ser comunista, de estar sempre do lado do mal e de não entender a Bíblia. Em outro relato, Guille descreve a invenção de “uma máquina analógica para detectar peronistas” com cartões perfurados capazes de medir o grau de lealdade a Perón.

Bestiário

Essas histórias são café pequeno diante das conversas de Milei com seus cinco cães com quem dorme todas as noites. Pagou 50.000 dólares para clonar o seu “filho” de quatro patas morto em 2017, que lhe deu quatro “netos”. Fez isso não por amor a cães, já que despreza vira-latas abandonados, mas por se tratar de mastins de raça inglesa.

O sobrenatural aqui é tão corpóreo, que recebeu até sobrenome como o personagem de Nelson Rodrigues, o Sobrenatural de Almeida. Procurei seu hermano, o Sobrenatural López, mas não o encontrei na exposição “Bestiario Nacional, Criaturas del imaginário argentino” organizada pela Biblioteca Nacional.

Desfilam na exposição duendes, aves agourentas, pássaros azarentos, monstros, figuras míticas defensoras da natureza e personagens da cultura popular, alguns compartilhados com o Brasil como o Curupira, o Lobisomem, a Mula sem cabeça e tantos outros seres fantásticos que teceram o vínculo entre a natureza, o sagrado e o mundo humano e alimentaram os temores coletivos.

– Os seres sobrenaturais argentinos somos nós, nossa argentinidade está feita dessas criações dos povos originários, dos escravizados negros vindos da África e até dos conquistadores espanhóis e dos colonizadores – escreveu Ana Maria Shua para o Bestiário Nacional.

Embora o chamado “progresso” esteja afugentando esses personagens míticos, que perderam assim o caráter assustador de outras épocas, eles foram ressuscitados por Milei para aterrorizar a Argentina e a América. A realidade supera a ficção.

La casa tomada

Filho de Norberto, motorista de ônibus e de Alicia, dona de casa, Javier Milei demonstrou como trata a família ao declarar que nunca visita seus pais “que para mim é como se estivessem mortos”. Seguidor do Coiso e do Trump, ele se opõe à descriminalização do aborto, mesmo em caso de estupro, nega o aquecimento global “inventado pelo marxismo cultural” e promete acabar com o Ministério da Mulher, se eleito.

O Peruca, assim é conhecido por seu penteado esdrúxulo, discrimina LGBTs, considera a justiça social como “um roubo aberrante” e afirma que “as desigualdades sociais são naturais” e que vai valorizar “o espírito empresarial e o sucesso individual”.  Usa linguagem chula, chamou o prefeito de Buenos Aires de “esquerdista de merda, careca nojento”, que deve ser “esmagado politicamente”.

Enfim, com Milei na presidência, a Argentina será como no conto de Julio Cortazar La Casa Tomada, ocupada por intrusos invisíveis e fantasmagóricos, obrigando seus ocupantes a abandoná-la e a jogar a chave no esgoto, para que ninguém entre mais nel

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