Os sonhos de Manaus: poesia e psicanálise

Essa associação entre poesia e psicanálise surgiu ao encontrar entre meus alfarrábios, o boletim “Causa Analítica” de agosto de 1995

“São vorazes os sonhos de Manaus: cortam em miúdos tudo o que a vista alcança”. (Aldisio Filgueiras. 2023)

Os sonhos de Manaus fazem parte da criação poética de Aldisio Filgueiras em um dos tantos livros sobre a cidade onde nasceu, o mais recente deles “Manaus, como se diz, como se vê”, lançado no sábado (14) na Academia Amazonense de Letras. Sua leitura nos convida a refletir sobre a recuperação dos sonhos, tarefa da psicanálise, que envolve outras instâncias do saber, entre elas a poesia, segundo o médico psiquiatra amazonense Manoel Dias Galvão.

Essa associação entre poesia e psicanálise surgiu ao encontrar entre meus alfarrábios, o boletim “Causa Analítica” de agosto de 1995, publicado no Rio em edição bilingue português x espanhol, cujo representante no Amazonas era Manoel Galvão.

– Há um total desprezo pelos sonhos na nossa região. Por isso, tudo aqui é provisório. A psicanálise tudo tem a fazer neste recanto tropical – disse Galvão, que defendeu as terapias de grupos, “porque é nelas que os pacientes descobrem a importância da palavra na cura. É nelas que ficam sabendo que os medicamentos não curam e que muitas vezes encobrem e disfarçam os conflitos. Os pacientes aprendem a associar e a dar valor aos sonhos”.

As muitas cidades

– “Ah! A poesia aqui / meu filho / é uma doença tropical” – diagnosticava em 1976 em Malária e outras canções malignas, o nosso querido poetinha, “o poeta dos estilhaços da amazonidade que revolve, página por página, a mata destruída e a encenação das palavras num corpo a corpo com a língua portuguesa” – segundo o escritor Márcio Souza em A Expressão Amazonense.

Vale lembrar aqui outros livros de Aldísio sobre Manaus. Na apresentação ao Nova subúrbios (2006) a arquiteta Ana Lúcia Abrahim registra que se trata de uma leitura imprescindível para todos os que se interessam pela gestão da cidade – arquitetos, políticos, engenheiros, estudantes:

“Aldisio é um poeta do urbano – dos fatos, das cores, dos sons urbanos. A cidade de Manaus é mais que sua musa: ela é o seu “outro”, o seu próximo, o seu inferno pessoal de lucidez. O poeta cria uma nova geografia urbana e funda um lugar para aprender um novo idioma – a cidade”.

Os outros livros apontam na mesma direção. Lourival Holanda, doutor em literatura pela USP, no prefácio a Manaus, as muitas cidades” (1994) lembra que a poética de esconjuro de Aldisio transfigura o desespero em canto, “um canto de galo com crista, garras e asas erguidas” e que ele dedicou o melhor de sua poesia para retratar “essa Manaus atual, maquiada em moderna – e que se aliena de si”.

Sueños son

Com uma história literária fundada na coerência, no rigor literário e no espírito crítico como observou o professor e poeta Tenório Telles, Aldísio “abriu um caminho em meio ao cipoal de dúvidas e armadilhas, forjando uma expressão inquietante prenhe de questões, sonhos e duras verdades” – escreveu Vinicius do Amaral, doutor em história pela Universidade Federal Fluminense na apresentação do livro recém-lançado.

Os sonhos de Manaus hoje estão envoltos em fumaça provocada pelos incêndios na floresta do entorno, pela forte onda de calor e pelo período de seca dos rios. A fumaça entra pela boca ou nariz, invade as traqueias e o pulmão, causa danos nas vias respiratórias e asfixia os moradores em maior ou menor grau, dependendo do bairro e da arborização nele existente.

Calderón de la Barca, em 1635, já cantava que “toda la vida es sueño y los sueños, sueños son”.

 

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