Enfermeiros do Hospital 28 de Agosto anunciam paralisação nesta segunda-feira

Funcionários pedem às autoridades equipamentos adequados para tratar infectados pela Covid-19 e pagamento de salários atrasados há 8 meses

Manaus – O sistema de saúde do Amazonas está em colapso por conta do novo coronavírus e as pessoas que trabalham no sistema de saúde também estão adoecendo. Segundo o Sindicato dos Enfermeiros do Amazonas, mais de 1.200 profissionais estão afastados de suas atividades, e esse número cresce a cada dia. A falta de equipamentos de proteção adequados para tratar infectados pela Covid-19 e o período de oito meses sem receber salários são apontados como os motivos para que os profissionais da saúde estejam doentes.

Mais de mil profissionais da saúde estão afastados de suas atividades, de acordo com o Sindicato dos Enfermeiros do Amazonas (Foto: Yago Frota/GDC)

Os enfermeiros do Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto, o maior do Estado, localizado na Avenida Mário Ypiranga, zona centro-sul, anunciaram neste domingo (26) que vão paralisar suas atividades durante uma manifestação marcada para as 7h desta segunda-feira (27). Na ocasião, os funcionários vão pedir as autoridades que forneçam Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs) e o pagamento dos salários que estão atrasados há 8 meses.

Alguns trabalhadores tiveram que comprar com o próprio dinheiro, que receberam de outros trabalhos que fazem, o seu equipamento de proteção. Mas, segundo os enfermeiros, nem todos podem comprar, pois estão com salários atrasados e ficam expostos ao vírus. “A gente vê colegas saindo do hospital com desespero no olhar, e medo de serem contaminados”, disse uma enfermeira, que não quis ser identificada.

A presidente do Sindicato dos Enfermeiros, Graciete Mouzinho, conta que os equipamentos fornecidos aos profissionais não são adequados. “Eles dão apenas um avental e uma máscara descartável, que deveria ser usada por duas horas, mas tem que servir para todo o plantão, que é de 12 horas. Um óculos também é dado, mas é de uso coletivo. Nós precisamos de equipamentos adequados, como um capote que cubra todo o corpo, óculo e máscaras N-95, que podem ser usadas por mais tempo. O governo diz que tem esse equipamento, mas no hospital ainda não chegou. Estamos indo para a guerra contra a Covid-19 sem armadura”, reclama Graciete.

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Sem botas adequadas para se proteger do novo coronavírus, enfermeiros precisam improvisar com sacos plásticos de lixo (Foto: Reprodução/Facebook)

Ela aponta também a falta de pagamento como um dos fatores que contribuem para o alto número de profissionais infectados. “São oito meses sem receber salários. O profissional não pode se alimentar da forma correta para aumentar sua imunidade e, por conta da redução de pessoal trabalhando nos hospitais, o serviço aumentou mais de dez vezes, o que desgasta ainda mais os profissionais”, relatou a presidente do sindicato.

Graciete disse que foi infectada pelo novo coronavírus e teve que ser afastada de suas atividades. “O vírus é potente, destruidor e devastador, ele acaba com as nossa forças. Quando achamos que estamos recuperados, se fizermos um esforço os sintomas voltam. Não temos nenhum apoio dos governantes. Adoecemos trabalhando e temos que enfrentar uma fila quilométrica para fazer o exame e ainda comprar com nosso próprio dinheiro os medicamentos para tratar a doença. São R$ 380 que cada enfermeiro gasta para comprar os medicamentos para ficar em tratamento em casa”, afirma.

A presidente do Sindicato dos Enfermeiros contou ainda que sete profissionais da saúde já morreram por conta do novo coronavírus e três estão internados em estado grave. Além de não receberem os remédios, eles ainda têm que fazer uma cota, toda vez que um profissional de saúde morre, para pagar o funeral do colega.

“Alguns profissionais são ameaçados para voltarem ao trabalho, mesmo doentes, e são ameaçados de perder seus cargos no hospital”.

Um enfermeiro postou nas redes sociais uma imagem com sacos de lixos nos pés, já que não é fornecida um par de botas adequado para o serviço.

Nota da Susam

“Não há ameaça de paralisação [de funcionários do Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto] até porque não está faltando Equipamentos de Proteção Individual (EPI) na rede estadual. Trata-se de uma manifestação pessoal e isolada de um servidor que, por falta ou pedido de afastamento, já não vinha cumprindo a escala de trabalho.

O servidor falta com a verdade porque todos os profissionais, incluindo ele, que estão nos setores de emergência,  Sala Rosa, Politrauma e UTI estão recebendo máscara N95 e outros EPIs necessários, conforme protocolo de recebimento assinados pelo próprio.

A máscara N95, que em situação normal dura 30 dias, está sendo entregue excepcionalmente para ser usada durante 15 dias.

Entre os dias 17 e 24 de abril, o HPS 28 de Agosto recebeu da Central de Medicamentos do Amazonas (Cema) cinco remessas de EPIs, com 143,1 mil itens, incluindo 18 mil máscaras cirúrgicas, 700 máscaras N95, 1 mil máscaras de proteção respiratória, 850  kits completos de EPIs produzidos pela UEA, entre outros equipamentos de proteção.

A Secretaria Estadual de Saúde [Susam] tem orientado o uso racional e correto de EPIs, conforme recomendações da Anvisa e da Fundação de Vigilância em Saúde e, desde o início da pandemia, vem difundindo material educativo para serem trabalhados nos núcleos de vigilância das unidades.

Os equipamentos são distribuídos aos profissionais de acordo com a situação, o ambiente e o tipo de procedimento realizado em suas unidades.

Para o combate à Covid-19, o Governo do Estado fez aquisição de mais de 4 milhões de máscaras entre cirúrgicas e N95, 36 milhões de pares de luvas descartáveis, 400 mil aventais impermeáveis, 49.1 mil aventais cirúrgicos, 1,2 milhão de aventais descartáveis, 35 mil sapatilhas, 41 mil toucas, 1.115 óculos de proteção. Também recebeu várias remessas do Ministério da Saúde, incluindo 292 mil máscaras cirúrgicas e cerca de 415 mil pares de luvas descartáveis, entre outros itens,

Vem recebendo ainda contribuição de diversas empresas parceiras e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que está produzindo EPIs para os hospitais da capital e interior.”

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