Paciente de Covid-19 conta que ficou quatro dias sem comer no Hospital Delphina Aziz

Administrador de empresas denuncia falta de tratamento adequado no HPS, onde ficou isolado num quarto praticamente esquecido pela equipe médica

Manaus – O administrador de empresas Carlos César Dutra dos Reis, 52, denuncia a falta de atendimento adequado no Hospital e Pronto Socorro Delphina Aziz, que fica no bairro Terra Nova, zona norte de Manaus. Ele conta que ficou quatro dias no hospital, esquecido em um quarto sem comida e água. O que não faltava era a cloroquina, pois ele participou de um estudo do medicamento no combate à Covid-19.

Os primeiros sintomas da doença causada pelo novo coronavírus apareceram em Carlos no dia 1 de maio, quando voltava de um supermercado no bairro Nova Cidade, zona norte, local onde reside. Ele achou que não estava com o coronavírus, e sim uma gripe, então suportou durante 8 dias sintomas como febre, dor de cabeça, mal estar e fraqueza.

Carlos César Dutra dos Reis foi transferido para o Delphina Aziz no dia 10 de maio (Foto: Divulgação)

No dia do seu aniversário, 8 de maio, Carlos recebeu alguns amigos da igreja que frequenta para comemorar. Ele contou aos amigos o que estava sentindo e foi orientado a procurar uma unidade hospitalar. “Eu estava muito mal, não aguentava mais dar dois passos e ficava com falta de ar, não conseguia comer, então liguei para um amigo e pedi para me acompanhar até o hospital”, disse o administrador.

Na manhã do dia 9 de maio, Carlos foi ao Serviço de Pronto Atendimento (SPA) Danilo Corrêa, na Cidade Nova, zona norte, onde foi diagnosticado com o novo coronavírus. O médico que o acompanhou passou alguns medicamentos e disse que ele teria que ficar internado. “Me fizeram tomar cloroquina, azitromicina e fizeram um exame nasal”, conta. Como no lugar não havia equipamentos para realizar os outros exames, o médico o aconselhou a fazer um exame numa clínica particular, que ficava próxima ao SPA. O valor do exame era de R$ 60. “Eu liguei para os meus amigos que levaram o dinheiro e algumas comidas, como uma palma de banana e alguns iogurtes. Não sabia que isso ia salvar minha vida”, relatou.

Antes de Carlos fazer os exames na clínica particular, no dia 10 de maio ele foi transferido ao Hospital Delphina Aziz. “Era um lugar bonito, maravilhoso, fui bem tratado, muito melhor que o SPA da Cidade Nova. Eu fiquei impressionado”, disse.

O administrador conta que ficou internado no quarto de número 84, no terceiro andar do hospital (Foto: Divulgação)

No mesmo dia, um médico perguntou como o administrador se chamava, e descobriu que Carlos veio do SPA Danilo Corrêa com o cadastro de outra pessoa. Como não foi encontrada a ficha cadastral de Carlos, os médicos resolveram reiniciar o tratamento e fizeram uma proposta: “Perguntaram se eu queria participar do estudo da cloroquina. Disseram que não era certeza que eu ia ficar bom, que eu poderia até morrer, mas que eu ia ajudar em uma pesquisa que poderia salvar muitas vidas no futuro. Eu como estava muito mal, não conseguia pensar direito, assinei o contrato. A dose de cloroquina era cavalar, tomava três vezes ao dia e me sentia mal depois”, contou Carlos.

No mesmo dia, o administrador foi informado que sairia do leito clínico, que fica no térreo do hospital, para dar vaga a pessoas com estado de saúde mais grave. Ele seria levado ao terceiro andar. “Falaram que eu ia para um quarto onde ficaria sozinho, que havia toda uma estrutura, ar condicionado, TV, armário etc. Fui para o quarto 84, que fica nos fundos do terceiro andar. Mas como o quarto ficava bem afastado, acho que me esqueceram lá”, relatou o paciente.

Foi então que os problemas começaram. Segundo Carlos, ele ficou do dia 10 ao dia 15 de maio no quarto internado. Em quatro desses dias, foi praticamente esquecido pela equipe médica. Os medicamentos eram colocados ao lado do leito e demorava muito para que fosse feita a troca. Carlos registrou em alguns vídeos a demora no atendimento. “Eles me deram um botão do pânico, eu apertava e demorava horas pra que viessem me atender”.

Carlos contou que a situação piorou quando ele ficava muitas horas sem comer. As refeições, que eram seis por dia, não eram entregues em seu quarto e, durante quatro dias, ele ficou sem água e sem alimentação. “O que me salvou foram as bananas e o iogurte que meus amigos levaram para mim no outro hospital [o SPA Danilo Corrêa]. As bananas não estavam boas, mas com a fome que eu estava, eu comi todas”.

Ao chegar no Delphina Aziz, Carlos assinou um contrato para que fossem realizados testes nele com a cloroquina (Foto: Divulgação)

O administrador de empresas disse que medicamento não faltava. O teste da cloroquina continuava, mas como ele não se alimentava direito, se sentia a cada dia pior e até temeu a morte. “Teve um momento que eu pensei em me jogar do terceiro andar e acabar com aquele sofrimento. Também pensei em fugir, mas eu não aguentava andar por causa da falta de ar. Me contaram que um homem que tentou fugir, não aguentou e morreu”.

Na manhã do dia 15, uma sobrinha de Carlos, que é enfermeira, foi ao local a pedido do tio. Ela conversou com os médicos e contou a situação. Carlos contou que uma doutora, identificada pelo apelido de ‘Loira’, foi ao local e conversou com ele. O administrador contou toda a história e disse que ela ficou impressionada. Chamou os outros funcionários e falou que ele passaria a ser cuidado da forma correta. Ela também pediu que todos os exames fossem feitos para saber o estado de saúde de Carlos. “Ela me disse que prefere acreditar que alguém esqueceu que tinha alguém vivo dentro do quarto onde eu estava, do que alguém ter esquecido de propósito, pois o que fizeram comigo era desumano”, relatou Carlos.

A médica falou que Carlos não poderia sair do hospial, pois estava incluído no teste do medicamento cloroquina e que assinou um contrato e teria que cumprir. O administrador leu então todo o contrato. “Pelo contrato, se eu me sentisse mal, eu poderia pedir para parar o tratamento. Eu contei isso para a doutora e ela disse que ia me liberar imediatamente, pois os exames apontavam que eu já estava fora do período de transmissão”, contou Carlos.

Nota

A direção do HPS Delphina Aziz informou por meio de nota que o paciente deu entrada na unidade no dia 10 de maio, com o nome correto, vindo transferido da unidade SPA Danilo Corrêa. O paciente recebeu acompanhamento médico e tratamento adequado durante todo o período que esteve internado na unidade. Teve boa evolução no quadro clínico e recebeu alta médica no dia 15 de maio de 2020.

Carlos Dutra dos Reis pensa em processar o Estado por conta do descaso que sofreu enquanto esteve internado no Delphina Aziz. Para ele, se dependesse do atendimento no local teria morrido. “Eu estava esquecido, pensando em me matar e sem saber o que ia acontecer. Espero que ninguém passe pelo que passei. Se eu estou vivo hoje, foi por ajuda divina”, disse emocionado.