Um ano da tragédia que sufocou vidas no Amazonas

“Foi uma coisa horrível. Ao todo, vi onze pessoas morrerem, disse um sobrevivente da ‘Crise do Oxigênio’

Manaus –  Janeiro de 2021 ficou marcado na história do Amazonas pela ‘Crise do Oxigênio’ na pandemia da Covid-19. Há um ano, o oxigênio nas unidades de saúde do Amazonas acabava e os internados morriam sufocados nos hospitais.

(Foto: Sandro Pereira/Fotoarena/Estadão Conteúdo)

O coordenador de Tecnologia e Informação Wilson Costa(divulgação), estava internado no hospital quando o colapso aconteceu e viveu momentos desesperadores na unidade. “Foi uma coisa horrível. Ao todo, vi onze pessoas morrerem. Ouvia pessoas gritando de dor, pessoas morrendo na minha frente. Pessoas morriam de manhã e eram resgatadas apenas a noite”, disse ele.

Ele acabou tendo que comprar oxigênio para sobreviver e expôs a ineficiência do estado com relação ao preparo nos hospitais. “Compramos e alugamos oxigênio quando o do Estado acabou. Ninguém estava preparado. Para vocês terem ideia, familiares faziam os furos em mim para por equipamentos, pois a equipe não estava conseguindo. Pessoas sem preparo foram colocados na linha de frente”, afirmou.

O coordenador até hoje vive com os traumas causados pela Covid-19. “Eu lembro até hoje das mortes, foi um impacto forte, as pessoas tentando respirar e não conseguindo. Não tinham gravidade do impacto, não pensei que ia morrer. Ao tentar levantar e não conseguir, percebi o quanto estava mal. Tive perda de memória, perdi 24 quilos, acabei adquirindo diabetes”, finalizou.

Segundo Igor Brito, músico que fez parte do grupo de ajuda nos hospitais de Manaus, “O que mais me marcou na época do colapso foi ver o tamanho do problema que é o desvio de dinheiro na saúde pública. Não temos a imensidão do quanto isso é um malefício e o colapso trouxe isso à tona da pior maneira, custando a vida de várias e várias pessoas que ficaram à mercê de um governo irresponsável, corrupto e negacionista.” disse.

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(Foto: Sandro Pereira/Foto Arena/Estadão Conteúdo)

Desde junho de 2020, a fornecedora de oxigênio do Estado avisava sobre a necessidade de alteração no contrato de fornecimento, reforçando a necessidade de alteração no contrato para que fosse contratada oferta maior para atender a demanda do estado.

Após seis meses do primeiro aviso, os médicos do Amazonas entravam no dilema de ter que escolher quem morria ou quem vivia enquanto administravam e faziam rodízios entre os pacientes com os poucos tanques de oxigênio restantes.

Naquele dia, os familiares de pessoas internadas viveram uma verdadeira odisseia em busca dos tanques particulares que eram vendidos em Manaus. Enquanto muitos corriam, muitos morriam nos hospitais.

Conforme dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas Dra. Rosemary Pinto (FVS-RCP), em 14 de janeiro de 2021 haviam 2.205 pacientes internados na rede estadual de saúde, o maior número registrado na pandemia. Uma semana antes, em nota, a Secretária de Estado de Saúde do Amazonas informava que as unidades do estado estavam abastecidas e não havia falta do insumo. Quatro dia depois, o Governo do Amazonas admitia o erro. Mas já era tarde demais.

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(Foto: Edmar Barros / Estadão Conteúdo)

Profissionais de saúde, que preferiram não se identificar, relembraram a dor vivida nesse dia. “Foi feito de tudo pelos profissionais para tentar salvar a vida das pessoas, mas os pacientes não resistiam. Infelizmente, vidas eram perdidas, vidas com história. É algo difícil de mensurar”, foi dito.

O boletim divulgado dias após ao colapso confirmava a tragédia. Foram 82 mortes por Covid-19 registradas, até então o segundo mais alto desde o começo da pandemia. Manaus nessa época teve chegou próximo a atingir 200 sepultamentos nos cemitérios da capital.

Segundo levantamento do Ministério Público do Amazonas (MPE-AM), mais de 60 pessoas morreram pela falta de oxigênio das unidades de saúde do Estado.

O agente de portaria Francisco Arimatéria de Almeida foi um dos que acabou pegando Covid-19 na época do colapso. Ele contou com a ajuda da família para seguir vivo e acredita que se tivesse ido para um hospital teria falecido, devido ao colapso que ocorreu nas unidades hospitalares.

“Foi muito difícil na época, pois foi na fatídica crise do oxigênio, onde muitos morriam. Ele estava com falta de ar, mas contei com a ajuda da família e conseguimos comprar oxigênio. Não fui para o hospital, mas se fosse provavelmente não estaria aqui contado esse relato”, detalhou ele.

Agora, um ano após o medo, ele volta a estar com Covid. Dessa vez, já vacinado, o cenário é bem diferente. “Agora um ano depois, fui infectado novamente. Meus sintomas são mínimos, quase assintomático”, disse ele.

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(Foto: Sandro Pereira / Foto Arena / Estadão Conteúdo)

O infectologista Nelson Barbosa da Silva estava na linha de frente quando o colapso aconteceu. Ele lamenta os números de óbitos. “Estava trabalhando na linha de frente do 28 de Agosto e foi uma experiência inexplicável, era um expressivo número de caso e não conseguíamos atender todos, pessoas morriam em ambulâncias ou em casa, pois não tinham lugar para ir”, relembrou ele.

Para a jornalista Maria Luiza Dácio, que integrou um grupo de amazonenses que buscavam ajudar os hospitais quando o colapso aconteceu, a sensação foi de incapacidade. “Se eu tivesse que definir, seria definido como impotência. Eu não dormi, sentindo muita ansiedade. Acabei revivendo muita coisa e sempre que vejo lembranças da época, o sentimento volta. Estávamos sem esperança, desacreditados, inseguros”, relembra ela.

Ela relembra que os insumos acabaram e mesmo querendo ajudar, eles sofriam com a falta de locais de venda. “Naquela época, sem ter dinheiro, gastei o que tinha e o que não tinha. Acabamos sofrendo também com a falta de materiais, quando tudo acabou. Queríamos ajudar e não tínhamos como”, afirmou Dácio.

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(Foto: Natasha Pinto / arquivo GDC)

A falta de estrutura nos hospitais foi algo marcante nesse período. “Um dos momentos que mais marcaram foi à mobilização de várias pessoas querendo ajudar. Até mesmo água faltava para as unidades hospitalares. Eu nunca vou esquecer isso, da dedicação dos profissionais da saúde em nos ajudar sem o mínimo de conforto”, finalizou.

Um ano depois, Manaus volta a viver um cenário parecido em 2022. Nas últimas 24 horas, foram registrados 2.404 casos de Covid-19, o mais alto desde março de 2021. O número de pacientes internados que era 130, subiu para 162, incluindo a capital e interior do Amazonas.

O epidemiologista Jessem Orellana alerta para a retomada do contágio pelo novo coronavírus. “A forte retomada está, muito provavelmente, relacionada aos relaxamentos que foram promovidos com anuência do governo do estado do Amazonas como shows musiciais, aglomeração e também festas de fim de ano, impulsionados pela variante Ômicron”, afirmou.

Em fevereiro de 2021, o MP-AM pediu investigação do Governador Wilson Lima e do Secretário de Saúde Marcellus Campêlo por suspeita de erros na crise do abastecimento do oxigênio no Estado. Além da área cível, o MP-AM também abriu procedimento criminal. Ambos foram alvos da Operação Sangria, posteriormente, em desdobramentos causados pela pandemia.

Assista a matéria completa veiculada na Record News Manaus

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