Alta do querosene encarece aviação na Amazônia

Companhias regionais tem custo ampliado por conta da logística diferenciada e não têm como evitar o repasse desse impacto, no valor das tarifas para o consumidor final

Manaus – Combustível utilizado na aviação, o querosene (QAV) tem sofrido sucessivos aumentos, acumulando, somente nos últimos dois anos, alta de 82%, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). A disparada no preço do combustível ameaça a aviação civil na região Amazônica, segundo as companhias do setor, por conta dos custos adicionais impostos pela logística de operação.

Poucos aeroportos da região estão aptos a reabastecer aeronaves. (Foto: Reinaldo Okita 20/06/15)

O vice-presidente da MAP Linhas Aéreas, Marcos Fernandes Pacheco, diz que o QAV representa o maior custo das companhias aéreas, correspondendo a 40% do valor das passagens aéreas. “Os sucessivos reajustes no preço do petróleo e a valorização cambial afetam diretamente no valor final das passagens, porque o querosene é cotado no mercado internacional”, explicou.

Ele considera necessário e urgente que se discuta a política de preço dos combustíveis, pois os consumidores são os principais prejudicados. Ressalta que o problema ainda é maior para as companhias que atuam na região, pelas peculiariedades que enfrentam e que acabam impactando no valor da passagem. Cita, por exemplo, a existência de poucos pontos para abastecimento das aeronaves, na Amazônia. “Isso significa que, se um avião tem capacidade para transportar 70 pessoas, ele precisa levar um número abaixo, para poder carregar mais combustível, já que muitos dos destinos são distantes e não tem como abastecer no caminho”, esclareceu.

A MAP, atualmente, opera voos para 14 cidades do Amazonas e Pará. No Amazonas, a companhia atende Manaus, Parintins, Lábrea, Carauari, São Gabriel da Cachoeira, Barcelos, Tefé, Eirunepé e Coari. No Pará, tem voos para Belém, Porto Trombetas, Santarém, Itaituba e Altamira.

Na semana passada, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) divulgou que o querosene atingiu seu valor mais alto desde 2002, chegando a R$ 3,30, incluindo os impostos. O presidente da Associação, Eduardo Sanovicz, destacou que a atual política de preços penaliza não só a aviação, mas diversas outras atividades que são de extrema importância para o País.

Custo

O preço do QAV no Brasil é um dos mais altos do mundo, segundo o Panorama 2017, feito pela Abear. De acordo com o consultor técnico da Abear, Maurício Emboaba, a precificação no Brasil segue o modelo de paridade de importação, implementado há 20 anos, quando o País produzia, segundo ele, metade do petróleo consumido. Hoje, destacou, o Brasil produz 85% do petróleo utilizado internamente. Ele lembrou, ainda, que da quantidade total de QAV produzida aqui, 92% é refinada no País.

O estudo mostra, ainda, que a importação direta pelas empresas aéreas é “praticamente impossível”, visto que, não há escala e que o QAV tem exigências de qualidade muito elevadas. Dessa forma, as margens de comercialização são mais altas do que nos Estados Unidos.

Conforme a Abear, incidem tributos federais como o PIS e Cofins, e estaduais, como o ICMS, que representam, na média, 20% do valor pago pelas empresas aéreas pelo QAV, em voos domésticos.

Apesar do custo, demanda doméstica tem alta de 7,43%

A demanda por voos domésticos (medida em passageiros-quilômetro pagos transportados, ou RPK) cresceu 7,43%, em julho, ante igual mês de 2017, de acordo com o levantamento da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), que reúne os dados de suas associadas (Avianca, Azul, Latam e Gol).

Já a oferta doméstica de assentos (assentos-quilômetros ofertados, ou ASK) também avançou 7,43% em relação a julho de 2017. Com a oferta e procura avançando em igual ritmo, segundo a entidade, a taxa de aproveitamento de voos domésticos ficou estável em 83,97%.

O número de passageiros, em um ano, cresceu em 5 milhões de pessoas, aponta a Abear. A razão seria a flexibilização da cobrança de transporte de cargas nas tarifas, o que reduziu preços de passagens e teria atraído um número maior de passageiros. “A economia não explica isso”, disse o consultor técnico da Abear, Maurício Emboaba, em coletiva de imprensa. Em julho, foram transportados 8,8 milhões de passageiros nos voos nacionais, aumento de 6,75% ante o mesmo intervalo de 2017.

A Gol manteve a liderança no mercado doméstico no mês, com participação de 38,50%, seguida pela Latam, com 30%.

Com isso, considerando os primeiros sete meses do ano, a demanda por transporte aéreo doméstico cresceu 4,79% frente ao observado no mesmo intervalo de 2017, enquanto a oferta subiu 4,81%.

No acumulado do ano, foram transportados 53,3 milhões de passageiros, aumento de 3,80% ante mesmo período de 2017.

A demanda por voos internacionais (RPK) apresentou alta de 14,78%, em julho, na comparação anual, segundo dados da Abear, cujas associadas abrangem cerca de 30% desse mercado.