Comércio online de imóveis cresce durante pandemia de covid-19

A mudança no comportamento do consumidor é muito recente, mas significativa a ponto de chamar atenção até mesmo das imobiliárias virtuais

Brasília – A boa experiência de alugar um apartamento só a partir de fotos – e o imóvel corresponder ao que foi anunciado – está dando confiança às pessoas para irem às compras de forma totalmente digital. O analista de sistemas Michel de Souza, de 32 anos, é um desses novos consumidores do e-commerce imobiliário. “O apartamento que moro é alugado. Fechei a locação sem ter visitado, e foi exatamente o que eu tinha visto no site.”

O aluguel do apartamento onde mora desde agosto de 2020 vai ficar inviável a partir do mês que vem por causa do reajuste na faixa de 20%.

Para sair do aluguel, Souza começou a procurar pela internet apartamentos novos para comprar que seriam entregues neste ano. Encontrou um imóvel de 30 metros quadrados, na Lapa, que fica pronto em outubro.

Fez um tour virtual e entendeu a planta. “O máximo que eu fiz foi passar de carro depois das 10 (horas) da noite na frente do prédio”, conta. A intenção foi conhecer as ruas vizinhas, pois costuma sair nesse horário para passear com os cachorros.

Imagens de cada cômodo dos imóveis são disponibilizadas online
FREEPIK

Com base nessas informações, ele fez uma proposta virtual e fechou o negócio. Vai pagar R$ 236 mil pelo apartamento, financiado em 25 anos. Souza diz que não tem receio de encontrar algo diferente na hora de receber as chaves.

Da mesma geração de Souza, que é antenada em tecnologia, o supervisor de vendas Diego Andreolli da Silva, de 35 anos, casado e sem filhos, é adepto do e-commerce de imóveis.

De mudança de Brasília (DF) para São Paulo, ele alugou em fevereiro um apartamento sem nunca tê-lo visitado fisicamente. “Quando peguei a chave e fui abrir a porta, pensei: meu Deus do céu, o que eu vou encontrar? E estava exatamente conforme tinha visto no vídeo”, conta.

Quatro meses depois, ele decidiu comprar um imóvel. “A experiência do aluguel me fez acreditar, a ponto de eu procurar outra casa virtualmente para comprar.” Depois de procurar, Silva não teve de ir muito longe. Acabou comprando o apartamento onde já mora. Agora, não terá de enfrentar o frio na barriga na hora de pegar as chaves.

Consumidor já compra imóvel ‘às cegas’

Mais de um ano de pandemia e de isolamento social quebraram muitos tabus dos brasileiros em relação ao comércio online. Se antes havia algum tipo de receio de comprar um item de vestuário e se frustrar – porque a roupa não caía bem, por exemplo -, hoje até imóvel é vendido digitalmente. Detalhe: sem que o comprador tenha visitado fisicamente o apartamento antes de bater o martelo.

A mudança no comportamento do consumidor é muito recente, mas significativa a ponto de chamar atenção até mesmo das imobiliárias virtuais. Levantamento feito pela Apê11, startup especializada na compra e venda de imóveis pela internet, mostra que 63% das propostas para aquisição recebidas em maio foram totalmente digitais, sem a interação humana. Destas, 12% viraram negócios fechados – e a metade sem que o comprador tivesse posto o pé no imóvel ao menos uma vez.

“O resultado foi uma surpresa: imóvel vendido pelo e-commerce como café em pó ou calça jeans”, compara o sócio-diretor da Apê11, Leonardo Azevedo. Esse comportamento de compra ganha relevância especialmente porque a casa é a aquisição mais importante para a maioria das pessoas. A empresa começou a funcionar em 2019 e sempre teve como meta digitalizar ao máximo a transação. “Mas éramos um pouco céticos de que a operação pudesse ser 100% digital”, admite.

As propostas 100% digitais começaram a aparecer em fevereiro deste ano e, na época, representavam 21% do total. Daí para frente, só cresceram.

A proposta é uma oferta firme, onde constam o valor, a forma de pagamento e a origem do dinheiro. O caminho normal das negociações digitais é, após o primeiro contato virtual por meio de fotos e vídeos, que o comprador inicie o diálogo com o corretor e visite fisicamente o imóvel antes de fechar a oferta.

Também o QuintoAndar, startup de locação e venda de imóveis, captou nos últimos meses o avanço do e-commerce de imóveis sem a visita presencial. Uma em cada quatro cidades onde a startup atua com vendas teve algum caso de negócio fechado sem visitação. A maioria foi na capital paulista.

Além do empurrão dado pelo isolamento social, Arthur Malcom, head de compra e venda do QuintoAndar, diz que a transparência de dados sobre os imóveis para locação disponíveis na sua plataforma abriu caminho para negócios de compra e venda totalmente digitais.

“O cliente que compra para investir quer muito menos visitar o apartamento e muito mais entender o potencial de retorno do negócio”, diz o executivo.

Perfis

Apesar de este tipo de compra ser mais viável para investidores, focados na renda de aluguel e na valorização do próprio ativo, há também outros perfis de compradores que buscam esse tipo de transação.

Azevedo cita o comprador que procura uma moradia e teve alguma relação de proximidade com o imóvel, como um parente que morou no condomínio. Há aqueles que passam na frente de um prédio em construção, sem o estande de vendas, e compram pela localização.

Imobiliárias digitais não revelam números absolutos de transações sem visita física, mas indicadores dão pistas do perfil dos interessados. No primeiro semestre, 74% dessas transações da Apê11 foram para moradia e 26%, investimento. No QuintoAndar, dos imóveis negociados sem visita prévia, 92% envolveram apartamentos e estúdios/quitinetes.

Claudio Hermolin, vice-presidente de intermediação imobiliária do Secovi-SP, diz que não tem dados sobre esse novo tipo de venda. “É algo recente, não há um volume grande.” Mas essa forma de transação deve continuar no pós- pandemia, diz. A razão é que as pessoas acreditam cada vez mais na transparência de dados que veio com a tecnologia e na visita virtual.

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