Economia brasileira surpreende em 2023, mas feito não deve se repetir em 2024

Economistas dizem que o primeiro semestre foi marcado por forte desempenho da soja, o que não deve acontecer em 2024

Brasília- A economia brasileira deve ter um crescimento nada desprezível em 2023. Segundo o Boletim Focus, do BC (Banco Central), a expectativa do mercado é de alta de 2,9%. Porém, economistas de diferentes correntes teóricas têm, no mínimo, dúvidas se esse cenário positivo se repetirá no ano que vem.

(Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo)

“Em 2024, até pelo efeito base de comparação com 2023, o crescimento deverá ser menor”, acredita Felipe Salto, economista-chefe da Warren Renascença.

Os especialistas ouvidos pelo R7 concordam que “todo mundo” errou nas previsões para este ano. Por exemplo, Leo Siqueira, doutorando em economia e deputado estadual paulista (Novo), lembra que o Focus indicava crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), que mede o tamanho da economia de um país, de 0,80%.

O parlamentar e o economista André Roncaglia ressaltam que o indicador anual até aqui foi puxado pelo desempenho surpreendente do agronegócio no primeiro semestre, quando o setor registrou crescimento de 21% em relação ao mesmo período anterior.

A efeito de comparação, no primeiro trimestre o crescimento de serviços foi de 0,6% e da indústria de 0,1%.

“Esse crescimento não vai se repetir no ano que vem, porque uma parte importante desse crescimento veio pela consequência da seca na Argentina. O Brasil acabou ocupando uma parte do mercado de exportações argentinas, que tiveram uma pancada forte. Então, eu não sei, eu imagino que no ano que vem a história do setor externo não vai ser tão pujante quanto a desse ano”, explica Roncaglia.

O consumo do governo, que turbina o cálculo do PIB, também “influenciou a alta do indicador”, destaca Leonardo Siqueira. Nos primeiros dois trimestres deste ano, esse item teve crescimento de 0,4% e 0,7%.

Nesse sentido, Roncaglia lembra da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do Estouro, aprovada no fim de 2022, que possibilitou à gestão Lula da Silva ter despesas extras de até R$ 145 bilhões em 2023.

“A gente teve um pacote muito importante com a PEC da Transição, que gerou o que eu chamo de um bônus fiscal para o governo, em termos de crescimento, que dificilmente vai se repetir no ano que vem, porque vai iniciar, vamos dizer, a prática efetiva do novo marco fiscal”, opina André Roncaglia.

Ocorre que gastos públicos geram endividamento do governo, a ser pago pelos pagadores de impostos. Isso faz com que especialistas, de uma maneira geral, defendam certa cautela com o uso desse artifício.

No Orçamento para 2024 enviado ao Congresso pelo governo federal, há a previsão de zerar a dívida pública primária. Sem contar com os pagamentos de juros de débitos passados, a atual gestão quer ter saldo nulo no ano que vem.

Inclusive, essa tem sido a principal promessa do ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Para fontes ouvidas pelo R7 e por outros agentes de mercado, a promessa de déficit zero não será cumprida.

Nas contas do próprio governo, cumprir esse objetivo exigiria que a arrecadação tivesse aumento de R$ 168,5 bilhões em 2024.

Para Cláudia Moreno, economista do C6 Bank, “existe uma incerteza muito grande se de fato essa expansão nas receitas vai ocorrer”. Ela prevê que, desse total, somente R$ 100 bilhões se concretizarão.

A previsão do banco para 2024 é de saldo negativo de 0,7% do PIB (Produto Interno Bruto). É a mesma estimativa do Warren Renascença.

Incertezas

Salto e Roncaglia afirmam que um crescimento nos próximos anos dependerá dos passos que o governo dará.

“A expansão das taxas de crescimento potencial dependem de uma agenda intensa na área de investimentos em infraestrutura e, em outra frente, dependem de turbinar as exportações”, diz Felipe Salto.

Já André Roncaglia diz que a reforma tributária é outro ponto fundamental. Porém, ele teme qual será o texto final eventualmente aprovado.

“A reforma tributária acabou sendo muito mais extensa do ponto de vista da sua implementação do que aquilo que havia sido previsto, ela vai começar a ser operada em 2025. Se for aprovada neste ano, né? E há uma elevada incerteza quanto a isso e outros pontos”, argumenta.

Outro ponto de incerteza levantado pelo economista é o da guerra de Israel contra os terroristas do Hamas. Segundo ele e outras fontes ouvidas, um dos impactos do conflito na economia brasileira poderá ser a pressão em cima da inflação.

Renan Diego, educador financeiro e consultor no segmento, acredita que, se mais países entrarem na guerra, os preços em território nacional vão encarecer.

Há cada vez mais indícios de que o governo do Irã tenha ajudado o Hamas a iniciar a guerra contra Israel. E, à medida que as evidências se acumulam, aumenta a preocupação de que o governo de Teerã possa se envolver diretamente no conflito no Oriente Médio.

Isso porque o país muçulmano é o único na região a ter arsenal capaz de ameaçar a existência de Israel, incluindo armas nucleares, segundo fontes militares.

“[Se isso acontecer] provavelmente o petróleo vai aumentar muito e outras commodities também. Tudo vai ser influenciado, os alimentos vão ser impactados, porque o petróleo subindo, aumenta a maior parte do transporte alimentar do Brasil, que usa diesel e gasolina, derivados do petróleo”, afirma.

Vale lembrar que o diesel é utilizado nos caminhões, responsáveis pela maior parte do transporte de carga no Brasil. Segundo a CNT (Confederação Nacional do Transporte), 61,1% desse tipo de deslocamento é feito por rodovias.

“Um aumento de preços do petróleo pode levar a um aumento generalizado da inflação, pois os custos de produção e transporte aumentam, o que é repassado aos consumidores”, explica Victor Arduin, analista de Energia e Macroeconomia da Hedgepoint Global Markets.

Algum otimismo

Por outro lado, André Roncaglia também acha que o governo de Lula caminha na direção certa ao implementar o novo PAC (Programa de Acelereção do Crescimento), que promete R$ 260 bilhões em investimentos até 2026.

“Eu compartilho da ansiedade em relação aos efeitos de uma política industrial, mas é um governo que ainda tem dez meses completos, política industrial é algo que demora bastante tempo. Os resultados devem aparecer em 2025, talvez em 2026”, afirma ele.

De forma semelhante, Felipe Salto acredita que medidas de investimentos em infraestrutura do governo federal “parecem estar acontecendo”. Isso estaria ocorrendo pela atuação de Geraldo Alckmin, vice-presidente e ministro de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

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