Embrapa enfrenta sua maior crise em 45 anos com corte de 20% no orçamento

Maior instituição pública de pesquisa do País e responsável pela tropicalização de culturas como a soja, a Embrapa tem seu orçamento de R$ 3,5 bilhões para este ano ameaçado por um corte

Brasília – A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) enfrenta uma crise política, orçamentária e científica sem precedentes em seus quase 45 anos de história, a serem completados em abril. Maior instituição pública de pesquisa do País e responsável pela tropicalização de culturas como a soja, a Embrapa tem seu orçamento de R$ 3,5 bilhões ameaçado por um enxugamento estimado em mais de 20% neste ano.

Cerca de 85% do orçamento é consumido com pagamento de salários e benefícios dos 9,6 mil funcionários. As despesas com pesquisa (R$ 66,8 milhões) representaram 2% dos gastos da estatal em 2017. O valor é o menor desde 2010 e está 31% abaixo dos R$ 96,9 milhões investidos na área em 2016. Os contingenciamentos promovidos pelo governo federal, segundo a Embrapa, explicam a queda.

Estatal líder no campo gastou só 2% do orçamento em pesquisa, no ano passado (Foto: Divulgação/Embrapa)

Recentemente, a estatal passou a ser criticada internamente por pesquisadores e até pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi. Ele costuma dizer que a Embrapa ‘vive dos louros do passado’. A crise interna se tornou pública, no início do mês, no artigo ‘Por favor, Embrapa: acorde!’, do sociólogo rural Zander Navarro O texto, publicado no Estado, em 5 de janeiro, provocou a demissão de Navarro, pesquisador da Embrapa.

A saída para a crise também é polêmica e passa por uma reestruturação completa na empresa. Estão previstas desde medidas simples, como a redução de linhas de ônibus destinadas ao transporte de funcionários em sua sede, em Brasília, às mais radicais, como o fim de unidades, redução de centros de pesquisas e um Programa de Desligamento Incentivado (PDI) para reduzir em até 20% gastos com pessoal.

Paralelamente, um projeto de lei para a criação da EmbrapaTec está na Câmara dos Deputados desde 2015. A proposta prevê a criação de uma subsidiária privada da Embrapa para operar no mercado de inovação, facilitar parcerias em pesquisas e até sociedades com outras empresas.

No cargo desde 2012, Maurício Antônio Lopes, o mais longevo presidente da Embrapa, defende as mudanças idealizadas no seu mandato. Ele garante que ‘a grande maioria dos pesquisadores foi consultada’, em comunidades virtuais da companhia e em videoconferências. ‘É uma falácia dizer que Embrapa não é aberta ao diálogo’, disse ele, rebatendo as críticas a sua gestão.

Feijão do tipo transgênico opõe estatal e pesquisadores

A primeira variedade de feijão transgênico no mundo resistente ao vírus do mosaico-dourado – principal praga da cultura que chega a causar até 40% de perdas nas lavouras – se tornou exemplo das divergências entre pesquisadores e a diretoria.

A variedade foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e registrada em 2012. Testes de viabilidade comercial feitos até 2015 apontaram lucratividade de até 38%. A cúpula da Embrapa, porém, vetou o lançamento por temer que a ação de outro vírus não combatido na transgenia prejudique comercialmente e legalmente a empresa.

O presidente da Embrapa considera o lançamento como de ‘alto risco’ pelo fato de não ser resistente ao Carlavírus, outra praga que é transmitida pela mosca-branca. “A tecnologia precisa ser aprimorada”, disse.

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