Proposta do Inmetro mantêm eficiência de geladeiras brasileiras abaixo da média mundial

Caso a proposta seja implementada, brasileiros terão perda de R$ 52 bilhões até 2030 com gasto superior de energia

Manaus – A proposta de revisão das regras do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) das geladeiras e freezers colocada recentemente em consulta pública pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) mantém os aparelhos usados pelos brasileiros com níveis muito inferiores aos verificados na maioria dos países. A política de etiquetagem é essencial para o consumidor dispor de equipamentos mais eficientes e para que possa diferenciar os produtos.

(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil)

“Para se ter uma ideia, se o novo sistema for adotado, em 2026 a nova classe A será um refrigerador que hoje já não poderia ser vendido na Índia, México e Quênia e, em 2025, provavelmente não poderá ser vendido em lugar nenhum do mundo que não seja o Brasil”, alerta Clauber Leite, coordenador do Programa de Energia e Sustentabilidade do Idec, referindo-se à classificação dos equipamentos por letras conforme seu nível de eficiência energética.

A proposta do Inmetro prevê que as novas regras sejam organizadas em três fases:

Fase 1: subdivisão da atual classe A em A, A+, A++ e A+++, mantendo as demais regras atuais para calcular o índice de eficiência energética, valendo de julho de 2022 até o fim de 2025.

Fase 2: de 2026 a 2030, as subdivisões do A são eliminadas e volta-se ao A, B, C, D, E e F. Além disso, passam a ser usadas as regras de eficiência recomendadas pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) para países em desenvolvimento, mas com uma redução dos limites que faria com que o novo “A” das geladeiras brasileiras fosse o equivalente a um “F” do PNUMA.

Fase 3: a partir de 2031, passariam a valer quase que por completo as regras do “A” do PNUMA, mas de maneira menos eficiente, porque seriam mantidos fatores de correção que não se justificam com base nas experiências internacionais.

Caso essa proposta seja implementada, o país poderá levar mais cinco anos para alcançar padrões que já são regra há anos nos países mais desenvolvidos — a um custo para os brasileiros da ordem de R$ 52 bilhões até 2030, segundo cálculos das ONGs CLASP e International Energy Initiative – IEI Brasil para a Rede Kigali. O número representa a perda que os consumidores terão com a conta de luz pelos próximos dez anos se comprarem refrigeradores ineficientes devido ao atraso na revisão das etiquetas.

Para evitar parte significativa dessas perdas, o Inmetro precisa adotar, já a partir de 2022, os critérios do Energy Star de 2014, padrão internacional de consumo eficiente, para a faixa “A” da etiqueta e mantendo a classificação nas faixas de A a E, ao invés de subclasses da “A” como está propondo (A, A+, A++ e A+++). Numa segunda fase, em 2024 esse padrão seria harmonizado com o da United for Efficiency (U4E, da Organização das Nações Unidas), mais rigoroso, mas alinhado às recomendações para países em desenvolvimento e plenamente factível para o mercado brasileiro.

Falta de atualização

O Idec também vê com muita preocupação a demora para a atualização do programa, cujas regras são as mesmas desde 2006, enquanto a tecnologia de refrigeração avançou significativamente. “A demora lotou o mercado de refrigeradores com notas “A” que, na prática, são falsas. Isso engana o consumidor, que ao comprar o equipamento acredita estar levando pra casa o refrigerador mais eficiente disponível”, alerta Leite.

A falta de revisão da etiqueta também distorceu a política tributária do segmento. Desde 2009, as geladeiras mais eficientes (que se enquadram na categoria “A” do PBE) têm redução do imposto de produtos industrializados (IPI), atualmente de 33%. “Essa renúncia fiscal estava atrelada a um compromisso com a oferta de produtos eficientes no mercado brasileiro, o que não está acontecendo”, completa o especialista do Idec.

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