Quase 40% dos jovens já tiveram dívidas, aponta pesquisa

Entre as dívidas de longo prazo, 26% dos jovens endividados estão comprometidos com pagamentos de crediários e carnês e 21% destina parte do orçamento à amortização de empréstimos

São Paulo – Atualmente, quatro entre dez jovens estão ou já estiveram com o nome sujo. O principal motivo é a necessidade de contribuir com as despesas domésticas, associado ao descontrole com as finanças pessoais. Os dados fazem parte de levantamento inédito feito pela Câmara Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo birô de crédito SPC Serasa. As instituições mapearam a situação financeira dos brasileiros entre 18 e 24 anos, que dão os primeiros passos profissionais, como mostra reportagem, da edição desta segunda-feira (6), do jornal O Estado de S. Paulo.

Desemprego chega a 30% entre os jovens, ante 13% da população geral (Foto: Fernando Frazão/ABr)

Dos entrevistados, 78% possuem alguma fonte de renda, sendo que 65% afirmam contribuir financeiramente para o sustento da casa. O principal comprometimento é com a alimentação (51%). A pesquisa ouviu 801 jovens, entre homens e mulheres de todo o Brasil, de 20 de fevereiro a 6 de março.

No segundo ano da faculdade de Administração Pública, Samira Ferreira, de 21 anos, aprendeu de um jeito dolorido o que é déficit. Hoje, sua dívida pessoal soma R$ 50 mil, metade com o banco, outra parte com a instituição de Ensino. “Minha dívida cresce para que eu possa estudar”, disse ela, que está com o nome sujo e não sabe o que fazer para resolver a situação. “Tenho de me concentrar em uma coisa por vez, mas espero que isso não me prejudique lá na frente”.

O endividamento da moçada não é muito diferente do resto dos brasileiros mais velhos, já que 40% da população total do País terminou 2018 endividada, segundo a CNDL. Mas é mais preocupante, pois indica que as gerações mais novas não vêm sendo educadas financeiramente – e o problema tende a persistir. “É necessário realizar algum tipo de política pública para aumentar a educação financeira dessa população”, disse Daniel Sakamoto, gerente de projetos da CNDL.

Pelo fato de o estudo ter sido o primeiro a ser realizado com esse corte de faixa etária, é difícil inferir o impacto da crise econômica nessa população. Ou do desemprego, que chega a 30% entre os jovens, ante 13% da população geral. “Não há parâmetros de comparação, mas com certeza as famílias enfrentam agora alto desemprego e gargalo de consumo”, disse. ‘Exatamente por isso, o jovem precisa contribuir mais com as contas de casa, o que aumentou o problema”.

Para Guilherme Prado, presidente do Bem Gasto, projeto de educação financeira nascido no Insper, além de trabalharem para completar o orçamento doméstico, os jovens entram no mundo adulto sem referências de como e onde gerenciar os novos recursos. “O descontrole financeiro dos jovens é, no momento, um grande problema nacional e sem atenção devida das autoridades”, afirmou Prado.

Entre as dívidas de longo prazo, 26% dos jovens que se declaram endividados estão comprometidos com pagamentos de crediários e carnês, 21% têm parte do orçamento destinado à amortização de empréstimos pessoais e consignados e outros 21% tentam quitar as parcelas de financiamento para automóveis. “O que identificamos é que, com a crise, eles precisam ajudar em casa e acabam se enrolando com esses gastos de longo prazo”, afirmou Sakamoto.

Novo na idade, mas conservador na hora de fazer investimentos

O jovem brasileiro pode ser moderno nos costumes, mas é conservador na hora de investir. Sem educação financeira e cultura de investimento, a moçada que consegue guardar dinheiro se inspira pouco nas opções mais arrojadas disponíveis no mercado. Caderneta de poupança, conta corrente e até o colchão são os lugares preferidos por quem tem entre 18 e 24 anos e reserva parte do que ganha para o futuro, mostrou reportagem desta segunda-feira (6), do jornal O Estado de S. Paulo.

Entre os entrevistados na pesquisa da CNDL, 52% guardam dinheiro. A proporção é maior principalmente entre homens, das classe A e B: chega a 67,5%.

A opção de investimento favorita dos jovens é a poupança, com a preferência de 52,8% dos entrevistados. Em termos de rentabilidade, o produto ficou em último lugar no ranking de investimentos de abril, com retorno de 4,55% ao ano.

A segunda forma preferida da moçada para guardar dinheiro é a própria casa, embaixo do colchão. É a opção de 24,6%, seguida pela conta corrente, mencionada por 20,2%. São escolhas que não protegem o dinheiro nem sequer da inflação, que em 12 meses está em 4,58%.

“Já guardei dinheiro em casa, para controlar melhor o quanto eu gastava”, diz Sidnei Campos, de 21 anos. “No banco, ia gastando no cartão e perdi o controle”. Estagiário de Direito, ele estourou o limite de R$ 2 mil que tinha no cartão de crédito no ano passado. “Sou o cara mais ‘gastão’ que conheço”, diz.

A estudante Juliana da Paz recorre a bicos para completar o orçamento e pagar o aluguel da casa que divide com quatro pessoas. “Gasto mais do que ganho e todo mês entro no cheque especial”.