Imigrantes e ‘expulsos’ de invasão formam população de ocupação em prédio, no Centro

Edifício que já foi sede do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é ocupado, atualmente, por 52 famílias. Moradores relatam o que os levou a ocupar o histórico prédio no Centro de Manaus

Manaus – O desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, que aconteceu no Largo do Paissandu, após o incêndio ocorrido na madrugada do último dia 1º de maio, na cidade de São Paulo, gerou grande comoção nacional. A tragédia, que deixou, pelo menos, quatro pessoas mortas, despertou o alerta entre os brasileiros e também do poder público quanto aos imóveis ocupados por movimentos de moradia popular.

Um exemplo da preocupação com moradores em prédios abandonados, em terras amazonenses, é o edifício que já foi sede do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), na Rua Quintino Bocaiúva, esquina com a Rua Guilherme Moreira, no Centro de Manaus, e estava sob posse da Superintendência do Patrimônio Público do Estado do Amazonas (SPU/AM). O local abriga famílias de imigrantes de outros Estados e países, além de pessoas da própria capital, expulsas de ocupações e que não tinham onde morar.

No 1º andar, vive Sebastiana Silva, de 54 anos. A senhora divide o espaço com outra família e, no local, com apenas três cômodos, moram cerca de sete pessoas, além de um pequeno comércio instalado, que serve como fonte de renda para ele. A mulher ficou sem ter onde morar após a retirada das famílias na ocupação Cidade das Luzes, no bairro Tarumã, zona oeste.

“Aqui, existem outras pessoas que também vendem, mas cada um respeita o outro porque sabe que cada um precisa. No local, mora a minha família e a família da minha cunhada”, explicou. Na última quarta-feira (15), houve o primeiro sorteio que selecionou a entidade que vai gerir e obter recursos para destinar o edifício para moradia popular, no âmbito do programa Minha Casa Minha Vida-Entidades.

No prédio, que anteriormente pertencia à União, 52 famílias se adaptam ao espaço e lá moram há mais de dois anos e seis meses. Haitianos, maranhenses, paraenses e, em grande maioria, amazonenses, estão vivendo no prédio de seis andares, onde dividem um banheiro para aproximadamente três famílias em cada andar.

Os custos são para pagar as síndicas que cuidam da segurança do imóvel e os motivos são sempre os mesmos: a luta pela moradia própria. A REDE DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO (RDC) teve acesso ao prédio no mesmo dia do sorteio e conheceu a história de três famílias que moram na localidade. Toda a visita foi acompanhada pela coordenadora do União Nacional por Moradia Popular, Cristiane Telles.

blankO acesso aos andares superiores foi feito totalmente pelas escadas, já que os elevadores do imóvel não funcionam. Questionada sobre a proveniência da energia elétrica, a coordenadora afirmou que um acordo entre os moradores e a Justiça determinou o desligamento do gerador, pois as famílias não tinham condições de realizar a manutenção do equipamento e os moradores desenvolveram um meio alternativo.

Os últimos órgãos que fizeram análises técnicas no local foram o Corpo de Bombeiros e Defesa Civil. As revisões aconteceram após o desabamento em São Paulo. Engenheiros do Movimento emitiram laudos onde apontam que o prédio não corre risco de desabamento. A coordenadora do Movimento afirmou que o laudo está anexado ao processo jurídico na Justiça Federal.

“Não entramos aqui de forma desorganizada. A Caixa Econômica Federal fez vistorias e atestou a estrutura da construção em perfeitas condições. Ele (o imóvel) foi destinado em 26 de setembro de 2016 para habitação em interesse social. Foi ocupado antes por famílias, em sua grande maioria, provenientes da Cidade das Luzes”, alegou Cristiane.

Eliane Souza Saraiva, 30, dona de casa, natural de Benjamim Constant (a 1.121 quilômetros a oeste de Manaus) mora no local desde que este foi ocupado. “Já não tínhamos condições de pagar um aluguel. Meu marido ficou desempregado e foi quando a dona Cris apareceu e nos ajudou. Nós só temos a agradecer porque foi um período muito difícil pra gente”, lembrou.

Alcyr Matos foi a figura escolhida para nomear o prédio e a comunidade. Alcyr foi um líder da moradia no Brasil, negro,  que ajudou a trazer para o Amazonas a União  Nacional da Moradia Popular. “Homenageamos porque ele faleceu, mas apoiou o movimento no Minha Casa Minha Vida”, explicou a coordenadora Cristiane Telles. Após as obras de reforma, a comunidade pretende manter o nome.

“A Caixa Econômica Federal fez vistorias e atestou a estrutura da construção em perfeitas condições. Ele (o imóvel) foi destinado em 26 de setembro de 2016 para habitação em interesse social. Foi ocupado antes por famílias, em sua grande maioria, provenientes da Cidade das Luzes”, informa a coordenadora do União Nacional por Moradia Popular, Cristiane Telles.

Após o processo de transição para o prédio habitacional, cada morador pagará um valor equivalente ao Minha Casa Minha Vida faixa 1, de R$ 80 a R$ 250 para a Caixa Econômica Federal. A dona de casa vê com bons olhos a aquisição. “Vai ser muito bom, até porque vamos pagar o que é da gente. Então para mim, vai ser ótimo” disse Eliane, entusiasmada.

Família ocupou o prédio em busca de tratamento para o filho

Há cerca de seis meses, o repositor Johnys Soares Teixeira, 24, caiu da escada que dava acesso ao quarto de onde morava. O jovem, natural de Nhamundá (a 383 quilômetros a leste de Manaus), teria se desequilibrado e o acidente resultou na perda total de sua formação cefálica. A família saiu da cidade no interior e veio para Manaus para cuidar do filho.

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“Não teríamos condições de pagar aluguel. Nós recebemos uma ajuda porque a minha irmã fazia bico e nos mandava”, disse o pai de Johny. Outra ajuda vinha dos colegas do rapaz. “Tudo que nós tínhamos deixamos para trás. Os vizinhos sempre ligam pra gente dizendo que a casa tá no escuro, tá abandonada. Mas vamos fazer o que? Hoje estamos lutando por ele. A vida que hoje queremos, é a vida dele. O que ficou, ficou. Nós temos que lutar por ele agora”, emocionou-se o ex-agricultor, José Ronilton.

“Hoje consigo falar com você mas ainda sinto trauma e tristeza de ver meu filho na situação que ele está. O médico não dava mais vida para ele. Não é fácil receber a notícia de que seu filho está entre a vida e a morte. Quando chegamos aqui, chamaram o pai dele e pediram para avisar que ele não ia resistir mas a minha fé em Deus foi maior”, completou a mãe do rapaz, Maria Ronilton. Segundo ela, a convivência no local é tranquila apesar das dificuldades enfrentadas por todos os moradores.

“Os vizinhos vêm aqui e são solidários. Mesmo com o pouco que eles têm aqui, eles ajudam a gente. É um ajudando o outro. Graças a Deus é uma comunidade abençoada que nós encontramos aqui”, destacou. Maria frisa que é importante para a família a ocupação como moradia. “Não tínhamos nenhuma condição e nem para onde ir. Viemos para Manaus com dois pares de roupa e só”, relatou.

Ter um local para morar permite que todas as atenções da mãe sejam para cuidar do filho, que se alimenta seis vezes ao dia por meio de uma sonda. “Agora, tudo é pro meu filho. A minha atenção é toda voltada para ele. Não só minha, mas também do pai dele também. Faz tempo que não temos um sono tranquilo. Aquilo de dormir deitado e descansar. É sem descanso, no máximo com 15 minutos e depois já estamos trabalhando por ele, trocando as fraldas, cuidando da alimentação e dando os remédios. Não vamos desistir”, finalizou.

Assista a reportagem:

União repassa imóvel para abrigar famílias no programa 'Minha casa, minha vida'

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Posted by D24am on Tuesday, May 15, 2018

Prédio possui regras de ocupação

Para a melhor organização da ocupação, foram criadas regras para boa convivência. No local é proibido o uso de bebida alcoólica e de entorpecentes. O acesso dos moradores é proibido depois das 22h e quem trabalha tem até meia-noite para adentrar ao imóvel.

Há um cuidado até mesmo com os tipos de roupa que pode-se usar na entrada e nos corredores. Outro ponto levantado é que não podem morar na ocupação pessoas com problemas e dívidas na Justiça. “A coordenação tem a ficha criminal de todos os membros da família. Ninguém pode ficar aqui sem essas informações dos antecedentes criminais”, disse Cristiane.

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No prédio, a organização é majoritariamente feminina. As três síndicas que trabalham são mulheres do movimento e não moram no prédio. Cada morador contribui mensalmente com R$ 50 para o pagamento das administradoras que atuam para aplicação das regras.  “Entre eles, os moradores escolhem os porteiros. Todo e qualquer custo é feito de forma coletiva”, explica.

O prédio, segundo Cristiane, possui 15 andares, sendo possível comportar 85 a 90 famílias, em apartamentos pequenos. ” O prédio já tem 52 famílias e restam 38 famílias para o Acasota, que ganhou o sorteio para a reforma do prédio. Estamos felizes, acreditamos que vai ser uma relação boa se eles conosco permanecerem nas regras de limpeza e organização”, disse.

“Somos organizados pela luta da moradia.”, finalizou a coordenadora Cristiane. Já a diretora administrativa da entidade vencedora, Associação dos Cabos, Soldados e Taifeiros da Aeronáutica do Estado do Amazonas (Acasota-AM), Priscila Silva, afirmou que será feito um levantamento por parte da equipe de Serviço Social para conhecer os moradores.

“Queremos verificar se eles realmente necessitam da moradia ou se é para meios comerciais, porque hoje temos que ter esse cuidado. Constando isso, vamos fazer o levantamento e o relatório junto a SPU para complementar com as famílias que a Acasota  atende atualmente. Vamos identificar quantas famílias o prédio é capaz de abrigar”, concluiu Priscila Silva.

Com a escolha da nova entidade que realizará as reformas e administração no prédio e com o repasse do imóvel da União para o programa social, o que emana dos olhares e das falas dos moradores e dos representantes do movimento de moradia popular é o entusiasmo e o sentimento de esperança de dias melhores: casa digna, moradia justa e um lugar melhor para viver em paz em comunidade.

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