Campeonato de canoagem revela atletas indígenas com potencial olímpico 

Evento é resultado de um ano de treinamento com jovens da comunidade Indígena Três Unidos, no Amazonas

Manaus – Três atletas se destacaram neste domingo(22) durante uma competição de canoagem indígena realizada pelo projeto da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e CBCa. O projeto  tem atualmente 27 estudantes das comunidades Três Unidos, Nova Kanã e São Sebastião que fica na Área de Proteção Ambiental do Rio Negro, no Amazonas.

(Fotos: Bruno Kelly / FAS)

Somente com atletas da comunidade Indígena Três Unidos – o jovem Tailon Pontes de Araújo, de 16 anos, conquistou o primeiro lugar realizando a prova em 44 segundos, somente cinco segundos a mais que o nosso medalhista olímpico. Isaquias Queiroz, medalhista olímpico do Brasil nas Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016 conquistou o terceiro lugar na prova de canoagem na modalidade C1 – 200 metros. Para subir ao pódio, cruzou a linha de chegada em 39 segundos.

Para Marcelo Santos da Luz, coordenador da Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa), a competição é a fotografia do resultado do trabalho que começou em novembro de 2019: “Eles já estão no nível de campeonato brasileiro. O resultado de 44 segundos é extraordinário considerando as condições dos campeões mundiais. Eles têm anos de experiência e canoas tecnicamente melhores. Nossos atletas chegaram a este nível em um ano de trabalho. É uma resposta mais rápida pela aptidão que eles têm por serem indígenas e pelo contato com a natureza, que o ambiente amazônico favorece”.

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(Fotos: Bruno Kelly / FAS)

Os estudantes treinam de segunda a sábado, das 5h às 9h e 15h às 18h. Na seca, o treino é mais intenso porque eles têm de descer e subir um barranco de aproximadamente 12 metros com a canoa nas costas.

Há três anos, a amazonense Taila Vagem de Souza, de 19 anos, deixou a região do Rio Purus, onde nasceu, para ter melhores condições de estudo na área do Rio Negro. “O estudo é muito dificultoso por lá [no Purus], ia demorar muito para eu terminar. Aí eu e minha mãe achamos que aqui eu teria mais chances de terminar o ensino médio e seguir estudando”. “A vida é feita de oportunidades”, justifica a atleta. “A gente não pode deixar as oportunidades escaparem. Veio um monte de opções e eu não gostava de nenhum esporte, mas a canoagem foi amor à primeira vista”.

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(Fotos: Bruno Kelly / FAS)

Taila é sobrinha de Sebastiana Vagem Diniz, com quem mora atualmente. A tia viu no esporte uma oportunidade para a jovem melhorar de vida. “Quando o projeto começou aqui eu pensei que seria uma boa para ela. As condições da gente não são boas, eu não tenho condições de pagar um estudo, então o esporte é uma grande alternativa. Ela começou, gostou e nunca desistiu. Não é fácil, mas ela segue firme e agora vitoriosa. Conquistou hoje um segundo lugar, não foi o primeiro, mas já é alguma coisa. E eu sempre digo para ela ter humildade. O sucesso de tudo é a humildade, com humildade a gente conquista tudo que se quer”.

No evento realizado no domingo, Taila recebeu sua primeira medalha, o segundo lugar na categoria K1 feminino, quando a competidora rema sentada no caiaque. Emocionada, a jovem diz que ser uma campeã é o seu sonho. Com a medalha em mãos, diz que a mãe aposta nela, o que justifica a distância entre elas. “Essa medalha é muito gratificante para mim, principalmente para dar orgulho para minha mãe e familiares”.

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