COI flexibiliza regras, mas não quer manifestações políticas em Tóquio

Atletas deverão respeitar protocolos nas cerimônias oficiais e também no pódio: ‘Jogos Olímpicos são politicamente neutros’

Tóquio – O COI (Comitê Olímpico Internacional) nunca foi favorável a manifestações políticas nos Jogos Olímpicos. A Regra 50 da histórica Carta Olímpica já indica a predileção por uma competição politicamente neutra. Em Tóquio 2020, em meio à agenda de inúmeras causas sociais defendidas pelos próprios atletas, a coisa pode mudar de figura. O comitê aceitou na última quarta-feira (21) flexibilizar códigos que poderiam punir justamente as estrelas do espetáculo.

A Comissão de Atletas do COI levou o pedido de flexibilização das regras para a reunião do Comitê Executivo da entidade, localizada em Lausanne, na Suíça, e indicou relativo sucesso. A tendência é que atletas sejam recomendados a respeitar protocolos nas cerimônias oficiais como de abertura e encerramento e também no pódio, mas com uma maior clareza do que podem ou não fazer e sem risco de penas mais severas.

Japão avalia realizar Olimpíada sem a presença de público estrangeiro (Foto: Divulgação)

A Regra 50 da Carta Olímpica, de 1894, que é codificação dos princípios do olimpismo do Barão de Coubertin, diz que “nenhum tipo de demonstração ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida em locais e arenas olímpicas”. Além disso, o documento ainda pede para que os atletas “promovam em todas as circunstâncias os interesses do Comitê Olímpico Internacional e do Movimento Olímpico”.

“Há uma recomendação para preservar o pódio, o campo de jogo e as cerimonias oficiais de qualquer tipo de protestos e demonstrações”, disse a presidente da Comissão de Atletas, Kirsty Coventry, que inclusive citou uma pesquisa que indica que de 60 a 70% dos atletas olímpicos concordam com a recomendação de “Jogos politicamente neutros”. “O que a maioria dos atletas dividiu conosco foi que, em termos de mensagens individuais, eles ainda querem se manifestar em entrevistas coletivas e nas plataformas sociais.”

Os Estados Unidos, efervescentes em pautas sociais nos últimos meses, por exemplo, já indicaram que não punirão seus atletas que se ajoelharem ou serrarem os punhos em qualquer situação. Embaixadores de grandes causas sociais, como o Black Lives Matter, estrelas do esportes desejadas em Tóquio 2020 como LeBron James (basquete) e Megan Rapinoe (futebol) comemoram a condenação do policial Derek Chauvin pelo assassinato de George Floyd. Naomi Osaka (tênis), principal atleta japonesa na atualidade, também se manifestou.

“Estou cansado de ver negros sendo mortos pela polícia. Deixei o tweet para baixo porque está sendo usado para criar mais ódio. Não se trata de um único policial. É sobre todo o sistema e as nossas palavras que eles sempre usam para criar mais racismo. Estou muito desesperado por mais responsabilidade”, escreveu LeBron.

“Enviando amor e força para Minneápolis hoje, para a família e comunidade de George Floyd e tantos outros. Aconteça o que acontecer, Derik Chauvin matou George, nós sabemos disso. Vamos continuar a lutar por um mundo onde isso não aconteça”, complementou Megan.

Dentro do COB (Comitê Olímpico do Brasil), a medalhista olímpica em Londres 2012, Yane Marques, hoje presidente da Comissão de Atletas, já se mostrou favorável a tal atualização da regra. Coube a ela também, liderar um curso para a delegação brasileira de práticas contra o racismo.

Os possíveis protestos dos atletas nestes Jogos Olímpicos remontam a Cidade do México 1968. Naquela edição olímpica, os americanos Tommie Smith e John Carlos (ambos do atletismo) eternizaram o movimento dos Panteras Negras. De cabeça baixa, luvas pretas e punho cerrado para o alto, eles chamavam a atenção para a luta pela igualdade de direitos civis.

Os Jogos Olímpicos Tóquio 2020 foram adiados em um ano por conta da pandemia do novo coronavírus. O maior evento esportivo do planeta agora está previsto para acontecer de 23 de julho a 8 de agosto, na capital japonesa.

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