Amor pela Raposa na Amazônia vira filme

Curta-metragem ‘Azul Escuro’ revela a história do torcedor do Cruzeiro Seu Lúcio, mineiro que mora em Novo Airão (AM) e que não permite a deficiência visual o afastar do seu clube do coração

Manaus – O amor pelo futebol não tem barreiras físicas e nem geográficas. Deficiente visual desde os 52 anos de idade, Mário Lúcio Carvalho, 66, mais conhecido como ‘Seu Lúcio’, é um mineiro torcedor fervoroso do Cruzeiro e que mora no Amazonas, mais precisamente no município de Novo Airão (a 115 quilômetros a noroeste de Manaus), há mais de 30 anos. E foi na região amazônica que ele perdeu completamente a visão devido um glaucoma.

Aposentado Mário Lúcio conheceu o Mineirão em uma partida pelo Cruzeiro. (Foto: Gustavo Bueno/Divulgação)

Mas mesmo sem enxergar, Seu Lúcio não deixa de acompanhar cada lance da Raposa em campo. E a história do mineiro cruzeirense que vive no Amazonas se tornou um curta-metragem, o ‘Azul Escuro’, realizado por torcedores cruzeirenses que trabalham com audiovisual e que teve a pré-estreia, na terça-feira, no Shopping Ponteio, em Belo Horizonte (MG). Mais de 300 pessoas assistiram ao curta de 25 minutos, em duas sessões de cinema.

“A minha paixão pelo Cruzeiro nunca teve limites, mesmo tendo ficado cego, em 2004, depois de um glaucoma não parei de acompanhar o meu time. Adaptei meu computador e tenho um sistema que me ajuda a guardar as informações da história do Cruzeiro”, disse Seu Lúcio.

A história de Lúcio chegou ao conhecimento da diretoria do Cruzeiro, que levou o mineiro de coração amazonense, ao lado da esposa, Dona Pedrina, e o filho Gilliard, para conhecer os jogadores da Raposa e ouvir a torcida celeste no Estádio do Mineirão, no clássico contra o Atlético-MG, no último domingo, pelo Campeonato Mineiro.

“E entrar em campo com o time? Tive a honra de entrar com o Raul (ex-goleiro campeão brasileiro, em 1996, e da Libertadores, em 1976, pelo Cruzeiro), um dos meus ídolos e carregar a bandeira do Brasil no hino. Ouvir meus amigos cruzeirenses cantando o hino foi maravilhoso. Fiquei muito feliz”, declarou.

E quem olha para Seu Lúcio não imagina a história de vida do aposentado. Órfão na cidade de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, ele ainda na infância foi devolvido para o orfanato por torcer para o Cruzeiro.

“Passei a infância em orfanatos em Nova Lima e Belo Horizonte. Até que um dia uma família de ‘BH’, no bairro de Lourdes, bairro de gente chique onde o Atlético-MG tem a sede deles, me adotou. Mas eles me devolveram porque logo nos primeiros dias, teve um clássico entre Cruzeiro e Atlético-MG e foi ali que descobri que eu era muito cruzeirense, porque comecei a vibrar muito pelo Cruzeiro e a família não gostou muito”, revelou Seu Lúcio.

“Eles eram muito atleticanos e não queriam um cruzeirense na casa deles. Eu nem liguei de ser devolvido, porque queria mesmo era ser cruzeirense, só queria saber do Cruzeiro. Encontrei minha família quando me mudei para Novo Airão, na década de 1980. É onde me sinto em casa e fiz minha família, é o meu paraíso”, declarou o cruzeirense.

A profissão de cozinheiro foi quem trouxe Lúcio para Manaus e mais tarde para o interior do Estado. “Morei em Manaus um bom tempo. Trabalhei como cozinheiro para empresas que serviam comida em avião. Depois, consegui entrar na Polícia Civil e virei delegado. Foi quando me designaram para o município de Novo Airão, onde me apaixonei assim que coloquei meus pés”, explicou.