Mundo das lutas reforça os laços entre mães e filhos

Medo de ver os filhos ou a mãe se machucando deixa a relação familiar ainda mais forte e intensa

Manaus – O amor incondicional, os sacrifícios e os constantes ensinamentos de uma mãe para com os filhos são celebrados mundialmente, hoje, no Dia das Mães. Ser a rainha do lar não é para qualquer uma e quando os filhos decidem se aventurar em esportes que trazem risco ao corpo, como as artes marciais, o desafio é ainda maior. A recompensa é um laço afetivo com a cria que é capaz de transcender quaisquer barreiras e obstáculos.  

Para acompanhar e apoiar a paixão do filho, o lutador do UFC José Aldo, Rocilene Souza, 53, já está acostumada a enfrentar momentos de tristeza e dificuldade emocional. Por mais orgulhosa que esteja das conquistas do ex-campeão do peso-pena, ‘Roci’, como gosta de ser chamada, até hoje não conseguiu assistir um duelo de Aldo. “Tem mãe que consegue, mas eu não. Só assisto depois, quando sei que ele ganhou e está bem. Não aguento pensar no sofrimento de vê-lo machucado”, disse, ao resumir o sentimento pré-luta. “Eu consigo ver até a hora de ele entrar no octógono. Quando ele entra, eu me retiro”. 

Dona Rocilene revelou que comparece a todas as festas dos moradores do bairro do Alvorada, prática recorrente quando Aldo luta. Embora tenha orgulho do evento criado em homenagem ao filho, ela prefere ficar sozinha e longe da televisão durante o duelo. 

“Gosto de ir para prestigiar os vizinhos, mas prefiro me isolar durante a luta. Fico rezando”, disse. “A partir do momento em que ele diz ‘mamãe, marcaram a data da próxima luta’, eu fico com os nervos à flor da pele. Rezo todo o tempo. Quando vai chegando perto da luta, então, nem se fala. Queria dormir por uns meses e acordar já sabendo o resultado”.  

Acostumada a ver o filho brilhar, dona Rocilene considera a derrota para o irlandês Conor McGregor, na luta principal do UFC 194, em dezembro de 2015, um dos momentos mais difíceis da vida profissional de Aldo.  “Aquilo ali foi uma zebra muito grande. Nem ele acreditava. Foi horrível, fiquei muito abalada. Imagina como deve ter sido para ele”, relembrou. “Dessa vez, não deu tempo nem de eu sair da festa. Estava descendo o palco que montaram lá no Alvorada e, de repente, a luta já tinha encerrado. Mal deu tempo de piscar”.

Apesar do sofrimento, dona Rocilene buscou ver o lado positivo da situação e aconselhou Aldo a ser forte. “A derrota é boa porque vem como um aprendizado. Permite que a gente veja onde errou. Ele falou: ‘mãe, eu estava preparado’. E eu disse: ‘meu filho, o mais importante é que seu nome está na história’. É o consolo que dou a ele e a mim mesma, porque a trajetória dele é algo que ninguém pode apagar”. 

Dona ‘Roci’ é otimista e disse nunca ter questionado a escolha de Aldo em se aventurar nas artes marciais, mas revela que, se pudesse, teria escolhido outra profissão para o filho.  “Eu nunca interferi nisso. Acredito que temos que deixar os filhos seguirem o caminho que querem”, disse. “Como mãe, não queria essa profissão para ele. É muito sofrimento e pancada. Se eu pudesse escolher, não sei, escolheria qualquer coisa, menos lutador”, completou, gargalhando.  

Filha chora com a mãe ‘apanhando’

Whitney leva a filha para os treinos, mas ela chora ao ver a mãe ‘apanhando’ / Foto: Eraldo Lopes

Com a karateca amazonense Whitney Paloma, 20, acontece o oposto. O laço emocional com a filha é tão grande que o instinto de proteção parte do bebê de apenas um ano. Ao ver a mãe levando golpes durante os treinos da modalidade, a pequena Nicole começa a chorar na tentativa de impedir que a mãe seja machucada. 

“Eu não tenho com quem deixar a minha filha, então, não há um dia em que eu não leve ela comigo para a academia. Às vezes, treino com ela no braço, mas quando está mais tranquila ela fica sentada assistindo”, disse Whitney. “O problema é que, quando ela me vê levando muitos golpes, ela começa a chorar. Chega até a ser engraçado”.

Apesar do instinto protetor da filha, a lutadora acredita que, aos poucos, Nicole vai se acostumar com os movimentos do caratê e pode até se interessar pela prática. “Ela está no tatame desde que nasceu e agora já não se assusta tanto. Ainda assim, tem dias que não consigo treinar. Já até comprei um quimono para ela. Daqui uns anos, ela vai ser atleta também”. 

Rebeca é mãe, mentora e protetora

Rebecca e Hanna Graziela treinam jiu-jítsu juntas e se ajudam / Foto: Eraldo Lopes

Para a vice-campeã brasileira de jiu-jítsu, Rebecca Rodrigues, 30, a situação é um pouco diferente. Adepta da ‘arte suave’ há mais de oito anos, a lutadora faixa marrom acabou passando a paixão para a filha Hanna Graziela, 15. Agora, as duas treinam lado a lado e Rebecca atua como técnica e mentora da jovem. 

“Quando eu comecei a treinar, não tinha como deixar ela sozinha em casa, então, ela ia para os treinos comigo. Ela acabava treinando para me acompanhar, como uma brincadeira. Naquela época, não existiam treinos voltados para crianças ainda”, disse Rebecca. “Quando ela passou a fazer parte de uma turma infantil que ela começou a levar mais a sério”. 

O sucesso de Hanna no tatame é inquestionável. A atleta acumula diversas medalhas nas principais competições da modalidade no Estado. Para Rebecca, porém, o instinto maternal ainda fala alto ao ver a filha em uma luta. “Já melhorei bastante, mas, antigamente, ficava agoniada de ver a adversária em cima da minha filha. A vontade era de entrar no tatame e lutar por ela. É aquela coisa de mãe, de querer proteger a cria a qualquer custo”, afirmou. 

Treinadora de jiu-jítsu há quatro anos, Rebecca usa o que aprendeu na modalidade para se certificar de que Hanna não se machucará. “Sei que posso orientá-la e isso me deixa mais calma. Digo para ela ter cuidado em certas situações e ajudo no que ela precisa treinar mais. Se ela estiver bem treinada, vai saber o que executar na hora da luta e não vai sofrer nenhuma lesão”.  

 

 

 

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