Às vésperas das Olimpíadas, Rio de Janeiro decreta calamidade pública

Segundo o governador do RJ, a crise está impedindo o Rio de \”honrar seus compromissos\” para a realização da Olimpíada de 2016.

Rio de Janeiro – O governador em exercício do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles (PP-RJ), decretou \”Estado de Calamidade Pública no âmbito da administração financeira\” no Estado. O decreto foi publicado nesta sexta-feira (17) na segunda edição do Diário Oficial.

No texto, o governador justifica a medida pela \”grave crise econômica que assola o estado\”, e diz que a crise está impedindo o Rio de \”honrar seus compromissos\” para a realização da Olimpíada de 2016.

O decreto possibilita às \”autoridades competentes\” a \”adotar medidas excepcionais necessárias à racionalização de todos os serviços públicos essenciais, com vistas à realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016\”, mas não esclarece quais as implicações da medida. 

Em nota, o governo do estado afirma que \”o decreto é mais uma medida de transparência do Estado em relação à crise financeira. Aliado aos decretos nºs 45.680 e 45.682, publicados recentemente, autoriza a adoção de novas propostas destinadas a cortar gastos\”.

O governo, de acordo com o texto, teme um \”total colapso na segurança pública, na saúde, na educação, na mobilidade e na gestão ambiental\” devido à falta de recursos. O texto também cita a queda na arrecadação, principalmente no ICMS e nos royalties do petróleo; os esforços de \”reprogramação financeira\” para ajustar as contas do estado; a dificuldade de honrar compromissos com os Jogos; as dificuldades em prestar serviços públicos essenciais e a chegada iminente das delegações estrangeiras para a Olimpíada.

Dornelles também cita a \”importância e repercussão mundial\” do evento, \”onde qualquer desestabilização institucional implicará em risco à imagem do país de dificílima recuperação\”.

\”Carta branca\”

Para o especialista em administração pública e professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Rafael dos Santos, o decreto é uma forma do governo do Estado pressionar a União por verbas e permite, entre outros fatores, aprovar mediadas sem a necessidade de submetê-las ao Legislativo. 

\”Com o estado de calamidade o Estado pode contar com apoio maior da União em caráter de urgência, contratar empréstimos sem autorização do legislativo, demitir funcionários públicos em período de experiência… O governo ganha uma carta branca, por três meses, para realizar atos que precisariam de autorização do Parlamento\”, afirma Santos.

O professor também vê relação entre a recente visita do presidente interino, Michel Temer, ao Estado, e a publicação da medida. \”Parece algo combinado com o governo federal\”, afirma. \”É também uma desmoralização para o gestor, que reconhece a incapacidade, mas garante a verba para a realização dos Jogos.\”

Dornelles pediu ajuda ao governo federal para poder financiar obras de infraestrutura ligadas às Olimpíadas, como a linha 4 do metrô, que unirá Ipanema à Barra da Tijuca, principal bairro dos jogos.

Crise se arrasta desde novembro

A pouco dias das Olimpíadas, o Rio de Janeiro enfrenta uma das piores crises financeiras de sua história. Ao menos 143 mil aposentados e pensionistas receberam seus pagamentos atrasados em junho. A previsão do déficit do Estado para este ano é de R$ 19 bilhões.

A crise se arrasta desde novembro do ano passado, quando os salários dos servidores públicos passaram a ser parcelados. A cada mês, o Estado foi adiando o dia de pagamento, chegando agora ao décimo dia útil.

Em dezembro, serviços de emergências de hospitais estaduais foram fechados por falta de recursos básicos, como algodão e esparadrapo. O Hemorio, centro de coleta e distribuição de sangue, fechou as portas por um dia por falta de seringas.

Policiais militares recebem com atraso o pagamento extra a que têm direito por trabalharem na folga. Nas delegacias, foi proibida a impressão de registros de ocorrência para economizar papel.

Na semana passada o Estado suspendeu a assistência financeira às famílias mais pobres, encerrando o programa Renda Melhor. Os restaurantes populares, sem repasses desde 2015, também ameaçam fechar as portas.