Espinhas de peixe levaram 900 ao médico no 1º semestre, segundo Susam

Atendimentos para retirada do material representam 30% da demanda do Centro Diagnóstico de Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia, vinculado à Susam.

Manaus – Catar espinha de peixe não é a melhor parte do almoço de um amazonense, mas a falta de atenção na hora de consumir o alimento já levou, nos primeiros seis meses deste ano, cerca de 900 pessoas para a retirada do corpo estranho das vias aéreas, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (Susam). Especialista alerta para os riscos de engolir a espinha e orienta qual procedimento deve ser evitado se isso ocorrer.

As dicas populares de comer banana, farinha de mandioca ou um grande miolo de pão, forçando assim a espinha a seguir o seu ‘destino’, prejudicam ainda mais a extração do corpo estranho, que pode perfurar o esôfago e até causar a morte do paciente, alerta o otorrinolaringologista Railson Farias, do Centro Diagnóstico de Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia (Cedof), clínica particular conveniada à Susam.

Todos os meses, em média, 150 pessoas dão entrada na clínica de referência. Segundo Farias, este tipo de atendimento representa 30% de toda a demanda mensal do Cedof.

A jornalista Suelen Ribeiro, 33, se viu nessa situação, no fim do ano passado, após comer um peixe da região. Ela relata que, para aproveitar as sobras do dia anterior, retirou as espinhas do pescado e preparou um refogado, mas só notou que havia sobrado uma espinha quando já havia passado na garganta. “Fiquei com medo de comer farinha, e essas coisas que o pessoal diz, e engatar mais ainda porque a posição da espinha estava muito para o lado e achei melhor não mexer muito. Tentei tirar com o dedo e não consegui. Fiquei com receio de piorar”, lembrou.

Com a informação de que havia o atendimento de referência na rede pública, a jornalista se encaminhou para o Cedof, na Rua Leonardo Malcher, Centro de Manaus, e foi informada de que não poderia receber o atendimento sem antes passar em uma unidade de urgência.

O protocolo de atendimento de urgências e emergências relacionadas aos engasgos por corpo estranho, inclusive espinha de peixe, segundo a Susam, acontece, inicialmente, na rede de prontos-socorros e Serviços de Pronto-Atendimento (SPAs). Após uma primeira avaliação médica, o paciente, em casos mais graves, é encaminhado para o atendimento referenciado. Conforme Farias, a orientação para o paciente com corpo estranho é não tentar retirar a espinha com alimentos. “Deve procurar o médico imediatamente”, alertou.

“A sensação, mesmo depois que a espinha sai, é de que ainda está na garganta. Fiquei muito assustada porque, na minha família, tem histórias de pessoas que ficaram hospitalizadas por causa disso. Fiz uma endoscopia, mas correu tudo bem”, relatou.

Depois do susto, Suelen garante que nunca mais comeu peixe com espinha. “Pago um pouquinho mais, mas é mais seguro”, disse.

De acordo com Farias, além das crianças, os idosos também precisam tomar cuidado com a ingestão de peixes e frangos porque, em decorrência do uso de prótese dentária, a boca perde parcialmente a sensibilidade, atrapalhando a identificação na mastigação do alimento. A dificuldade na visão também coloca a faixa etária em maior risco. “É preciso olhar atentamente, comer devagar, sem estar olhando para a televisão, para que não aconteça de uma espinha entrar na garganta ou até mesmo perfurar o esôfago”, explicou.

Objetos e insetos

Em média, cerca de 350 procedimentos, por mês, são feitos para retirada de outros tipos de corpos estranhos, segundo a Secretaria de Estado de Saúde (Susam). De acordo com o otorrinolaringologista Railson Farias, miçangas, grãos de feijão e até insetos estão na lista de extrações do Centro Diagnóstico de Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia (Cedof).

Crianças menores de 3 anos devem ser, segundo o especialista, afastadas de pequenos objetos. Um dos maiores perigos, conforme Farias, são as baterias de relógio. Quando engolido pela criança, o objeto pode necrosar o esôfago e levar o pequeno paciente à morte.

“Quando pego um caso assim, uma média de dois a três por mês aqui na clínica, eu já fico preocupado. Já aconteceu de uma criança morrer por causa disso. É um perigo, criança coloca muito caroço de feijão, muita miçanga na boca, ouvidos e nariz. Tem que ficar alerta”, disse.

Mais comum do que se pensa, segundo o médico, a retirada de insetos também ocorre com frequência. Farias relata que já chegou a retirar baratas, lagartas e até aranhas de pacientes da capital. “Acontece muito com agricultor e pessoas que vão para  sítios. Às vezes, a pessoa  dorme debaixo de uma árvore e não nota. Já aconteceu de eu retirar uma microaranha do ouvido de um paciente em que a aranha já estava fazendo uma teia na membrana timpânica, há dois dias”, afirmou.

De acordo com a Susam, para o atendimento de casos dessa natureza, é necessário estar em jejum de 3 a 4 horas e apresentar encaminhamento fornecido pelo profissional médico do primeiro atendimento, no serviço de urgência.

Em outubro do ano passado, uma menina de 1 ano e 5 meses passou 32 horas com um alfinete próximo ao esôfago. A criança engoliu o objeto após a casa da família ter sido revirada, durante um assalto.

Na época, o pai da menina, o chapeiro Thiago Nogueira, relatou ao DIÁRIO o desespero para retirar o objeto da garganta da criança. “Ela começou a ficar roxa. Fiz pressão nas costas dela, mas não adiantou. Cheguei até a enfiar o dedo pela boca para que conseguisse tirar o alfinete, mas não deu certo”, contou, acrescentando que, após as tentativas, procurou atendimento médico. A criança passou por cirurgia no Pronto-Socorro da Criança da Zona Leste (Joãozinho).

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