Sonho da casa própria vira pesadelo na zona norte de Manaus

Falta de infraestrutura básica e inexistência de vários serviços públicos dificultam a vida de moradores

Manaus – Alvo da expansão imobiliária de baixo e médio padrão, a zona norte de Manaus, mesmo absorvendo grande parte das famílias que adquirem a casa própria, não possui a mínima infraestrutura  para atender seus moradores. Falta de sinalização de trânsito, abrigos de ônibus, segurança, escolas, posto de saúde e até a má localização do posto de fiscalização de trânsito da BR-174 tornam o sonho da casa própria um pesadelo.

Na Avenida Comendador José Cruz, no Santa Etelvina, que dá acesso aos conjuntos Viver Melhor 1ª e 2ª etapa e que comporta mais quatro residenciais fechados, buracos com acúmulo de água, lama e máquinas pesadas prejudicam o tráfego de carros, ônibus e até pedestres.

Para se livrar das valas, motoristas realizam manobras perigosas e invadem a faixa lateral correndo o risco de causar acidentes. A mesma pista dá acesso ainda aos residenciais financiados pelo ‘Minha Casa Minha Vida’: Harmonia, Paraíso, Vida Nova, Felicidade e Liberdade.

Moradora da 1ª etapa do conjunto popular, a comerciante Cristiane de Lima, 33, afirma que só neste ano 18 acidentes de trânsito já ocorreram na área devido ao excesso de velocidade e à falta de sinalização nas ruas.

“Um garoto foi atropelado aqui por uma moto em cima da calçada. Já pedimos da Prefeitura que sejam pintadas faixas de pedestres e que semáforos sejam instalados, mas até agora nada”, disse.

Em março, um menino de apenas 2 anos de idade morreu atropelado na Rua Águia Dourada, Bloco 120, no Viver Melhor 2, enquanto corria atrás de uma bola. O veículo Fiesta hatch envolvido no acidente era conduzido em alta velocidade por um motorista sem habilitação, apesar de a saída do residencial ser obrigatoriamente pela barreira da Polícia Militar.

Instalado na segunda fase do Viver Melhor, inaugurada em fevereiro deste ano com a presença da presidente Dilma Rousseff (PT), o policial militar Nunes Filho, 47, conta que motocicletas sobem nas calçadas e carros batem contra a sarjeta. “Infelizmente, falta sinalização. O pior é que como não temos área de lazer as crianças aos domingos e feriados brincam na rua”, disse.

O Viver Melhor comporta 8.895 unidades habitacionais, destas 3.511 na primeira fase e 5.384 na segunda. Com a não construção das praças previstas no projeto original, o conjunto vem tendo os espaços ocupados por comerciantes ilegais. Salões de beleza, tabernas e até serralheria compõem os segmentos explorados por pessoas que sequer moram na área, de acordo com Filho.

Com os constantes furtos de água e energia, nem mesmo a proximidade com a caixa d’água e os postes impedem as recorrentes interrupções no abastecimento de água e luz, segundo a dona de casa Ester Vera, moradora do Viver Melhor 2. “Aqui, falta muita água e luz, mas a conta chega todo mês”, disse.

Córregos cheios de lama e lixo também fazem parte da realidade dos moradores da primeira etapa do Viver Melhor. Dono de um comércio na rua principal do conjunto, Milton Marinho, 37, afirma que os próprios moradores contribuem para o acúmulo indesejável. “No início, o córrego não era assim, mas as pessoas começaram a jogar lixo. Agora, sempre que chove os apartamentos do térreo alagam”.

Com pelo menos uma criança em idade escolar, em cada família, os moradores do residencial afirmam não ser pequeno também o número de crianças atualmente fora da escola por falta de vagas.

Vivendo na segunda etapa do conjunto, desde fevereiro, e com o filho de 7 anos sem estudar desde então, a dona de casa Cosma Ferreira, 35, conta que quando as casas foram entregues, a Secretaria Municipal de Educação (Semed) garantiu que as crianças teriam prioridade nas escolas do entorno, mas nem indo ao Conselho Tutelar é possível garantir o direito. “Disseram que não precisava a gente dormir na fila porque eles seriam a prioridade. Acabamos não conseguindo a vaga”, disse.

Para o técnico em telefonia Antônio Marcos Lima,38, que teve apenas um filho sorteado para estudar no residencial, o número de vagas é insuficiente para atender à demanda, principalmente após a inauguração da segunda fase, em fevereiro.

“Tivemos que faltar trabalho para conseguir vaga para ele. Um estuda no Km 2 da BR-174, o outro estudava no 14”, contou. Os moradores relatam, ainda, que grande parte das vagas são absorvidas pelas crianças da invasão localizada ao lado do complexo.

Médicos

Com necessidades básicas como vacinação, realização de curativos e acompanhamento de gestantes e idosos, os moradores reivindicam ainda a instalação de um posto de saúde, no residencial. O mais próximo fica no bairro Santa Etelvina.

Nos casos de emergência, eles contam ainda que a obrigatoriedade de parar na barreira da Polícia Militar dificulta a prestação de socorro.

“Acho que seria ótimo tirar a barreira de lugar. Já aconteceu de um rapaz estar socorrendo um idoso que infartou e ter que parar para explicar ao policial que precisava furar o bloqueio. Até ele explicar o idoso faleceu”, contou a comerciante Cristiane, moradora da primeira fase do Viver Melhor.

Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), uma Unidade Básica de Saúde (UBS) está em fase de construção no Viver Melhor com previsão de entrega ainda neste ano.

O posto de saúde já concluído ao lado do Residencial Verona Premium, na BR-174, ainda não está funcionando porque aguarda a chegada de profissionais de saúde.

Parcela significativa das pessoas que moram no complexo dependem do transporte coletivo, sendo seis linhas responsáveis por atender a demanda, mas segundo os comunitários, o número de ônibus deixa a desejar. Abrigos com telhas quebradas e bancos improvisados de madeira pelos próprios usuários compõem o cenário de quem usa o serviço.

“O problema é que eles entram aqui e fazem a volta na segunda etapa. Quando eles voltam para a primeira, já está lotado. Para pegar o ônibus, as crianças precisam acordar às 5h30. Temos as linhas 028, 356, 357, 358 e 041, mas precisa aumentar o número de carros”, afirmou Antônio Marcos.

Com abrigos de ônibus em apenas alguns pontos do residencial, o policial militar Nunes Filho afirma que, tanto no sol quanto nos dias de chuva, os usuários sofrem.

“Para amenizar, o pessoal usa sombrinhas para se proteger da água ou do sol”, disse. Assustados com a possibilidade de represálias, moradores que preferem não se identificar, denunciam a venda de drogas nas portas das escolas, inclusive à luz do dia. A ausência de uma delegacia no local, associada à iluminação pública precária também fomentam a ocorrência de assaltos.

“Os traficantes usam os portões do colégio como ponto do tráfico e a polícia, por mais grave que seja a ocorrência, só chega uma hora após a solicitação”, disse uma comerciante assaltada, recentemente.

Moradores enfrentam sol e chuva para ter ônibus

Mas a falta de serviços básicos como saúde, segurança e transporte não atinge apenas os comunitários do Viver Melhor. No Km 1 da BR-174, moradores do Residencial Verona Premium, entregue em janeiro deste ano, caminham debaixo de sol ou chuva até a Avenida Torquato Tapajós para ter mais opções de ônibus.

“Com apenas duas linhas de ônibus trafegando pela rodovia, o 321 e o 305, a única opção para quem não tem carro é andar pelo acostamento, inclusive à noite no escuro, para chegar mais rápido em casa ou no trabalho”, informou a contadora Nazaré Teixeira, 29.

Morando no local, há pouco mais de dois meses, Teixeira, mãe de dois meninos pequenos, afirma que quando comprou o empreendimento, em 2009, um posto de saúde da Prefeitura ao lado do residencial era utilizado como atrativo pela construtura, mas mesmo pronta a unidade nunca funcionou.

“O prédio já está todo deteriorado, com a pintura desbotada e ninguém mais comenta se ele funcionará algum dia. Se estivesse operando, as mães que trabalham fora poderiam pesar as crianças e manter as vacinas em dia com mais facilidade”, reclamou.

Proprietário de um apartamento no bloco 21 do mesmo condomínio, o designer Adão Conceição, 33, conta que mesmo não tendo filhos, sente falta de uma área de lazer.

“Quase todas as famílias aqui têm filhos e, devido ao regulamento do condomínio, elas são impedidas de brincar na rua do empreendimento. Então, os pais precisam se deslocar para parques, no Centro, e nem todos têm carro para sair com três filhos”, disse.

Morando no Residencial Vila Jardim Orquídea, no bairro União da Vitória, a analista de cobranças Clélia Marinho, 25, afirma que já precisou levar o marido até o Serviço de Pronto-Atendimento (SPA) do Conjunto Galileia para tratar um corte profundo na mão.

Órgãos esclarecem situações

Em nota, a assessoria de comunicação da Semed informou que não existem crianças sem estudar no Conjunto Viver Melhor e que as crianças que não conseguiram matrícula nas duas escolas inauguradas, em maio deste ano, estão estudando em bairros vizinhos.  “A Semed tem garantido o transporte escolar para essas crianças”, completou a secretaria.

No segundo semestre deste ano, a Prefeitura inicia as obras de mais seis escolas no residencial, com entrega prevista para o segundo semestre de 2015.

Quanto à inexistência de escolas de Ensino Médio no conjunto e a presença de estudantes fora da sala de aula, a Seduc disse que “várias providências estão sendo tomadas pelo governo do Estado para assegurar aos comunitários do Conjunto Viver Melhor o efetivo atendimento educacional”.

A inauguração em dezembro de 2014 de um Centro de Educação de Tempo Integral (Ceti) com estrutura para atender mil estudantes também foi repassada pela secretaria. O Ceti, atualmente, está com 60% da obra avançada.

Procurada para comentar as interrupções de água e a precária iluminação no Viver Melhor, as invasões de áreas por comerciantes ilegais e a ocorrência de alagações, a Superintendência de Estado de Habitação (Suhab) informou em nota que como “o residencial já possui ‘Habite-se’, questões como iluminação pública e asfalto devem ser solicitadas e fiscalizadas pela Prefeitura de Manaus”.

O delegado-geral da Polícia Civil, Josué Rocha, informou que, por enquanto, não há previsão de instalação de uma delegacia exclusiva na área.

Sobre a falta de sinalização no Viver Melhor, o Instituto Municipal de Trânsito (Manaustrans) disse que o empreendimento foi entregue com sinalização e que não recebeu nenhum pedido sobre o serviço.

A Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU) concordou que com a expansão da zona norte, novas linhas de ônibus precisam ser disponibilizadas à população.

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