Cresce movimento drag na cena artística de Manaus

Amazonenses falam sobre o atual momento da arte do cross-dressing, no País e na capital do Estado, que consagrou RuPaul e Pabllo Vittar

Manaus – “Shantay, you stay”. Caso você tenha esbarrado acidentalmente nesta matéria, essas palavras podem soar um pouco estranhas. O jargão, utilizado por RuPaul ao anunciar o destino das participantes de ‘RuPaul’s Drag Race’, popularizou-se junto ao grupo em que se vê inserido: o movimento drag queen. Impulsionada pelo sucesso do reality show, a arte do cross-dressing ganhou força e vem deixando, aos poucos, o lugar pouco privilegiado que ocupava — tanto na sociedade quanto no universo do entretenimento.

Nas cenas artística e social de Manaus, as drag queens são figuras cada vez mais assíduas e isso se deve, entre outros fatores, ao ‘boom’ da atração de Mama Ru (como RuPaul é conhecida pelos fãs) e, principalmente, à ascensão — quase que meteórica — da carreira de Pabllo Vittar, a primeira drag pop star do País. “Nós já tínhamos uma rasa ideia do movimento drag, em razão de personagens como Isabelita dos Patins, Verão Verão e Silvetty Montilla, entre outros nomes que estavam na mídia. Com a chegada da Pabllo Vittar, essa janela se tornou uma porta muito maior, que fez, finalmente, as pessoas terem o conhecimento de que a drag vai muito além de maquiagem e um cabelo bonito. Tem toda uma arte envolvida”, disse o publicitário Omã Freire, de 27 anos. “Acredito que muitos tinham receio de experimentar e serem retaliados por membros da família e amigos e, com toda essa visibilidade, acabaram desconstruindo algumas amarras”, completou.

(Foto: Sandro Pereira)

O publicitário é um dos adeptos dessa manifestação artística e, atualmente, dá vida a Ohana Jenner — famosa personagem das festas pop, na capital amazonense. “Minha caracterização começou no teatro, no grupo Escalafobéticos, em 2011. Eu fazia uma personagem caricata, que era a cara da mulher manauara: falava alto, não levava desaforo para casa, cheia de personalidade e que, às vezes, gostava de arrumar confusão com as amigas de elenco”, revelou. “A partir daí, fui construindo uma persona além daquela do teatro, que viria, mais tarde, para fora dos palcos, com outro nome e caraterização, que seria a Ohana”, acrescentou Omã.

De acordo com ele, a ideia de criar a drag queen surgiu da vontade ‘de dar um up’ à vida noturna que construiu ao longo dos anos. Frequentemente, o publicitário atua como DJ em eventos e festas manauaras. “Até achar o que, de fato, eu queria fazer com este alter ego, testei muitas coisas, muitos rostos, muitas roupas e muitos cabelos. Como já tinha feito algo no teatro com corpo feminino, foi mais fácil, pois já sabia por onde começar. Mesmo assim, foi um percurso longo até chegar onde estou, agora, que consigo montar a Ohana do jeito que eu sempre quis”, destacou.

Profissão drag queen

Mais que uma expressão artística, o fotógrafo Manoel Macedo de Melo, 19, tem a arte de se ‘montar’ como uma segunda profissão. Há, pelo menos, três anos, ele se caracteriza como Paris Vilela — uma drag queen socialite e modelo, nas palavras do próprio fotógrafo.

“A Paris Vilela é uma drag que tem um grande objetivo: o de ser cada vez melhor, a cada dia que passa”, afirmou Manoel. “Muitas pessoas me contactam para falar que meu trabalho é excelente e não tem coisa melhor e mais significante, para mim, do que ganhar esse reconhecimento”, completou.

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Paris Vilela (Foto: Reprodução)

Segundo ele, a personagem é fruto de muito esforço, planejamento e dedicação. Ao todo, o fotógrafo leva cerca de quatro horas para ficar pronto. “Eu criei a Paris com o intuito de mostrar que nós podemos e temos, também, espaço na mídia. Falta pouco tempo para meu canal estrear, no YouTube, e vou focar bastante na parte da militância e, ainda, em ajudar aquelas pessoas que passam por problemas no cotidiano”, adiantou.

O objetivo de ajudar outros aspirantes a drag queens a lidarem com os eventuais receios e dilemas do movimento partiu de um momento pessoal de Manoel. Ele revela à PLUS que, há alguns anos, sofreu de depressão e outros problemas familiares e de relacionamento. “A Paris era a fuga de todo esse sofrimento. Cada vez que eu me montava, sentia-me poderosa e com uma personalidade completamente diferente da que tinha quando eu não era ela. Felizmente, minha vida mudou, venci a depressão e, hoje, tenho total apoio da minha família. Hoje, faço drag não por fuga e sim por amor”, pontuou.

“A você que pensa em fazer drag, mas tem medo da sociedade: não deixe que a opinião dos outros destrua seus sonhos, não viva para agradar os outros e sim a si próprio. Ame-se”. Paris Vilela, drag queen amazonense.

Apesar das dificuldades que muitas drags enfrentam, diariamente, o fotógrafo acredita que a arte do cross-dressing já percorreu um longo caminho, dentro e fora dos palcos. “Hoje, a arte drag é bem vista por não ser mais um tabu. Para muitas pessoas, nós éramos algo que só podia ser visto, à noite, em boates. Mas somos muito mais do que isso, temos talento para seguirmos em diversos campos artísticos. Ganhamos mais respeito, admiração e estamos fazendo outras pessoas felizes com algo que nos faz feliz!”, defendeu.

“Espero que os produtores de Manaus reconheçam o nosso valor, assim como eles reconhecem o de drags famosas brasileiras. Na capital amazonense, muitas têm carisma e, principalmente, talento. Mas, por falta de oportunidades, não conseguem ter a devida visibilidade”, encerrou Manoel.

Ataques na web

Mesmo com o crescimento e a visibilidade deste movimento, as drag queens ainda são alvos de discursos de ódio e represálias, principalmente na Internet. Recentemente, por exemplo, um grupo se mobilizou para tirar de circulação a latinha de uma marca de refrigerante que trazia o rosto de Pabllo Vittar estampado. Em outra situação, a mesma artista teve seu perfil on-line atacado com comentários de tons homofóbico e transfóbico, incluindo ameaças de agressão e de morte.

Sobre esses e outros episódios que ilustram o preconceito sofrido pelas drags, Omã acredita que as pessoas devem, antes de tudo, se informar. “Nosso País sofre com um mal muito grande, que é seguir a cabeça de pessoas que se julgam líderes”, disparou o publicitário. “Nem sempre esses ‘líderes’ estão a fim de pregar coisas boas, apenas conceitos ruins para diminuir pessoas e propagar um ódio desnecessário. O movimento drag é arte, construção e quebra de inúmeras barreiras. (…) Espero que possamos, aos poucos, construir uma sociedade que acredite mais no potencial das pessoas, independente de gênero, raça, credos e afins”.

Para Manoel, associar o movimento drag queen à promiscuidade e a outros rótulos ‘batidos’ é “algo maldoso”. “Infelizmente, existem famílias que não tiveram acesso ao nosso trabalho de perto e não puderam ouvir nossas histórias. Mas, hoje, é muito importante termos drags famosas na mídia para que essas pessoas possam ver que o que fazemos é, acima de tudo, um trabalho com um objetivo: espalhar amor”, disse o fotógrafo. “Sempre carrego uma frase comigo e gostaria de compartilhá-la com todos. Nunca se esqueçam que ‘o inverno nunca falha em se tornar primavera’”, finalizou.

Grito da floresta: dos encantos da natureza às lutas sociais

Na última semana, dois nomes ganharam as páginas de um dos principais portais de notícia do Brasil: Emerson Pontes e Uýra Sodoma. O primeiro deles corresponde a um biólogo, nascido em Mojuí dos Campos (PA), enquanto o segundo se refere a uma drag queen com conceito e estética naturais — caracterizada pelo próprio Emerson. A personagem nasceu em 2016, quando o biólogo foi vítima de uma agressão. “Comecei a perceber as demais violências sobre o meu corpo e corpos parecidos com ele. Na época, comecei efetivamente a pensar, a me importar e a buscar fazer algo por outras vidas”, disse Emerson.

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(Foto: Divulgação)

O biólogo define Uýra como sendo uma “entidade do mato em carne de bicha e planta”. “É uma drag ‘monxtra’ que, para alguns, é uma árvore que anda ou uma palhacinha do bem e, para outros, é o próprio demônio”, descreveu. Para dar vida à personagem, ele se utiliza de folhas, conchas, frutos e outros elementos naturais. “Por se propor a provocar sobre o que, de fato, é natural, Uýra aparece nas ruas com o seu cabelo de mata, seu corpo de bicha e cara pintada de cores. Elementos vegetais, que são empréstimos da mata, são misturadas à carne deste animal, em um objetivo híbrido e de conexão”, explicou.

A inspiração para a drag vem desde processos da natureza a cantoras, grafiteiras, ativistas e outras artistas de Manaus e do restante do País. “Me inspiram a diversidade de formas e processos naturais, o que inclui desde os fungos que transformam as formigas em ‘zumbis’ e plantas que andam no bosque das florestas até a fala da travesti que precisa ser escutada”, ilustrou Emerson, que afirma ser bastante parecido com o seu alter ego. “Compartilhamos fúrias, serenidade e o mesmo corpo criador de sua própria cidadania”.

“No Brasil, o movimento drag tem crescido não apenas em número de artistas, mas, também, em sua própria diversidade. (…) Existem muitas pessoas desenvolvendo um trabalho diferente”. Emerson Munduruku, biólogo e drag queen.

Em seu trabalho, Uýra pauta questões ambientais e sociais, como gênero e diversidade sexual. “É preciso nos reconhecermos mais: eu sou negra, eu sou indígena, eu sou da periferia, eu sou mulher, eu sou travesti etc. É desta forma, fiel a si e unida às outras pessoas, que conquistamos os direitos e vivemos melhor as nossas diferenças. Precisamos aprender que, na natureza, não existe ‘um normal’, mas, sim, diversidade. A diferença não é inferioridade nem deficiência, mas algo natural da vida”, pontuou.

Recentemente, a personagem apareceu após um adolescente de 15 anos ser baleado, no bairro Amazonino Mendes. “Uýra, enquanto corpo-manifesto-periférico, existe como arte-denúncia para, também, visibilizar abusos e desigualdades de poder”, reforçou Emerson. “Ele (o adolescente) foi baleado na nuca por um policial militar, enquanto jogava bola com os amigos. No mesmo bairro, em 2010, algo semelhante aconteceu e, mesmo com um vídeo do ato, os responsáveis foram absolvidos”, exclamou.

Passo a passo

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