Beleza e vigor na estreia de ‘Maria Stuarda’

Primeira montagem no Brasil da obra de Gaetano Donizetti arrebata o público no 22º Festival de Ópera do Amazonas

Manaus – Meretriz indigna e impura, sobre ti caia a minha vergonha!”, com essas palavras de Maria Stuarda, rainha da Escócia, chega ao ápice o confronto entre ela e Elisabetta, rainha da Inglaterra, marcando a estreia nacional da ópera do italiano Gaetano Donizetti, no 22º Festival Amazonas de Ópera (FAO), no Teatro Amazonas, no último domingo (5).

Baseada na peça do escritor alemão Friedrich Schiller, a obra se passa no século 16, em um embate nascido de conflitos políticos e amorosos, como todo bom enredo de ópera. Elisabetta (interpretada pela soprano Tatiana Carlos), timoneira dos ingleses, se vê aconselhada pelo seu secretário de Estado Cecil (Fred Oliveira, barítono) de que a estabilidade da Inglaterra estará em perigo enquanto a rainha dos escoceses Maria Stuarda (Cristina Giannelli, soprano) viver. Somado a isso, Elisabetta teme que sua prima tenha lhe roubado o amor de Roberto, conde de Leicester (Paulo Mandarino, tenor), que se deslumbrou com a beleza da inglesa.

Assinados por Giorgia Massetani, os cenários trouxeram elementos fixos, como o palco pintado à feição de um tabuleiro de xadrez e um retrato renascentista ao fundo (Foto: Yago Frota/GDC)

Quando as duas se encontram no parque externo ao castelo de Fotheringhay, a troca de insultos entre as primas acontece, na qual Maria acaba por acusar Elisabetta de ser filha ilegítima de uma prostituta, manchando o trono da Inglaterra, um erro que lhe custará a vida.

Cenário e figurino

Assinados por Giorgia Massetani, os cenários trouxeram elementos fixos, como o palco pintado à feição de um tabuleiro de xadrez e um retrato renascentista ao fundo. Embora não tenha trazido nenhuma montagem suntuosa, o apuro de detalhes foi suficiente para levar imersão à apresentação.

Com agulhas de Fábio Namatame, os figurinos trouxeram uma releitura dos trajes usados pela nobreza do século 16, incorporando perfeitamente o arquétipo de cada um dos personagens. O destaque ficou com a roupagem de Elisabetta, cujos adornos em formato de espinhos marcaram bastante os traços intransigentes da personalidade da rainha.

Desde abril, o Coral do Amazonas, Núcleo de Teatro do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro e a Amazonas Filarmônica trabalharam juntos para levar a obra ao Teatro Amazonas (Foto: Yago Frota/GDC)

Performance

Em termos de performance, a experiente italiana Cristina Giannelli trouxe todo o pavor, tristeza e orgulho que marcam Maria Stuarda durante a ação, ganhando os aplausos mais fervorosos e demorados da plateia, ao final do evento. Tatiana Carlos, estreante na FAO, mostrou-se um contraponto perfeito, antagonizando a protagonista em aspecto e desempenho de forma a cativar o público com seus marcantes ares de vilã, e angariando a segunda leva mais enérgica de aplausos.

Corpos artísticos e elenco fazem um marco da obra no País

Desde abril, o Coral do Amazonas, Núcleo de Teatro do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro e a Amazonas Filarmônica trabalharam juntos para levar a obra ao Teatro Amazonas, por meio do evento realizado pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura (SEC), com recursos captados pela Lei de Incentivo à Cultura (atual nome da antiga Lei Rouanet).

Com um “elenco que misturou a experiência dos mais velhos com a garra dos mais novos”, disse o maestro Marcelo de Jesus, que assumiu a direção musical, a estreia de Maria Stuarda em solo brasileiro não poderia ter mostrado um desempenho mais potente do elenco.
Além de bela, certamente servirá de paradigma para as próximas produções que vierem a contemplar as terras tupiniquins com a obra de Donizetti.