Os fantasmas de Freddie Mercury

Filme sobre o líder do grupo Queen tem conteúdos reveladores. O longa, intitulado ‘Bohemian Rhapsody’, estreia no dia 2 de novembro

Manaus – Está marcada para 2 de novembro a estreia, em circuito internacional, do filme que conta a vida de um dos maiores ídolos do rock, Freddie Mercury, líder e fundador do grupo britânico Queen. Porém, ninguém precisa esperar até lá para ter uma boa ideia do que foi esse turbilhão sonoro que levou multidões a estádios e que viveu tão pouco, apenas 45 anos, muito intensamente.

Sua obra-prima, ‘Bohemian Rhapsody’, é uma espécie de livro aberto sobre seu talento artístico, suas angústias e seus amores. Há quem diga que os versos de sua balada operística mesclada com hard rock e muita delicadeza são impenetráveis. Há gente para tudo.

Com uma voz educada, potente e de alcance quase infinito, Freddie humilhou o estereótipo do cantor roqueiro (Foto: Reprodução)

Há pelo menos quatro anos, tenta-se concluir essa ideia genial: contar, em filme, a vida de Freddie Mercury – desde seu nascimento, na distante Cidade de Pedra, em Zanzibar, hoje, território da Tanzânia, África. Filho de indianos parsis zoroastrianos, Freddie nasceu Farrokh Bulsara. Pianista desde muito menino, compositor, cantor exuberante, morreu vítima da aids, vítima irônica do amor. Por ora, o foco estará sobre a composição e o processo de gravação da dramática e operística ‘Bohemian Rhapsody’, tão magnífica quanto a apaixonada ‘Love of my Life’ ou aos apelos de ‘Somebody to Love’.

A grande verdade é que as origens de ‘Bohemian Rhapsody’ são obscuras ou, pelo menos, multifacetadas. Freddie a teria escrito em sua casa, em Londres, uma versão questionada, com doçura, por Brian May, o guitarrista astrofísico do Queen. Sim, May é um respeitado astrofísico pelos círculos científicos britânicos. Para ele, a música teria sido composta em estúdio, em meados dos anos 1970, como a maior parte das demais do grupo. Admite, porém, que ela estava na mente de Freddie há muito tempo.

Desde o final da década de 1960, afirma Chris Smith, amigo próximo de Freddie. “Ele já dedilhava no piano pequenos trechos que mais tarde se transformariam na ‘Rhapsody’. Ele, também, insinuava sugestivamente, no piano, a canção ‘Mama’, gravada por Roy Orbison, em 1962”. A triste e sincera confissão a sua ‘mamma’ já estava esboçada há muito tempo.

Mesmo assim, só depois de mais de uma década a música começou a tomar sua forma final. O produtor Roy Thomas Baker disse que Mercury o chamou para mostrar-lhe uma ideia que o perseguia. “Sentou-se ao piano e tocou o começo. De repente, parou. Disse que a partir daquele compasso entraria uma seção da ópera! E não disse mais nada. Levantou-se e foi jantar”.

Em 1975, o Queen já era uma banda famosa e seu líder personificava toda a força de um cantor que sabia cantar. Freddie humilhou o estereótipo do cantor roqueiro, aquele que tem uma voz rouca e nada mais. Tinha a voz educada, potente e de um alcance quase infinito. Os demais integrantes da banda eram virtuosos em seus instrumentos e, também, bons cantores. Além de Brian May, cuidavam dos vocais o baixista John Deacon e o baterista Roger Taylor.

Apesar de todo esse suporte de talentos, a gravação de ‘Bohemian Rhapsody’ levou três semanas e contou com nada menos do que 180 overdubs (novas gravações sobre a gravação original) de vocais de apoio, combinados com vários instrumentos: piano acústico, baixo elétrico, guitarras elétricas, bateria e, até mesmo, um imenso gongo chinês. Somente depois de pronta essa ‘cama’ de apoio é que Freddie gravou o vocal principal. A partir desse momento, pioneiro, o Queen se tornaria a primeira banda de rock a usar elementos de ópera em uma música.

‘Bohemian Rhapsody’ é uma obra-prima composta por quatro movimentos: a balada do início, a força da ópera no meio, uma enérgica seção de hard rock e um final delicado. Há quem julgue a música confusa, hermética e, especialmente, a sua letra. Talvez seja, mas pode haver uma explicação. Antes, porém, vale lembrar que representantes da indústria da música alertaram a banda que a ‘Rhapsody’ era longa demais e que dificilmente seria um sucesso. Erraram.

A princípio, os críticos do The New York Times desmancharam-se em elogios, mas deixaram dúvidas no ar quanto ao significado da letra. Freddie, irredutível, recusou-se a dar explicações sobre sua composição. Pouco depois, mencionou que a letra refletia relacionamentos, mas logo mudou de ideia e a redefiniu, “trata-se de um absurdo rimado aleatório”.

Os demais integrantes, especialmente Brian May, respeitaram a proteção que Freddie fazia de sua canção, mas sabiam que nela havia referências ocultas a traumas pessoais.

Especulações nunca faltaram, algumas consideradas delirantes, como a que compara a ‘Rhapsody’ à tragédia de Fausto, o médico, mago e alquimista alemão Johannes Georg Faust (1480-1540), que vendeu sua alma a Mefistófolis, o diabo. A figura de Fausto foi resgatada em outras obras, entre elas a de Johann Wolfgang von Goethe, que a escreveu e reescreveu ao longo de quase 60 anos.

Há os que dão interpretações mais mundanas (ou simplesmente mais humanas) à obra. Ao compor ‘Bohemian Rhapsody’, Mercury estava no ponto de não retorno em sua vida pessoal. Ele havia se separado de Mary Austin, companheira de sete anos e amiga por toda a vida, para viver seu primeiro relacionamento com um homem.

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