A cultura pop como base de conhecimento

Inspirados por livros de ficção, séries de TV e personagens fantásticos, estudantes locais criam Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) com novas abordagens e visões de mundo

Manaus – Em dezembro de 2017, um estudante carioca ganhou as manchetes dos principais portais de notícias do Brasil por conta de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que tinha como objeto de estudo a rainha do rebolado — e dos memes — Gretchen. Apesar das opiniões divididas, Roberto dos Santos defendeu a tese e colou grau em Publicidade e Propaganda, pela Universidade Dom Bosco, em Resende, no Rio de Janeiro. “O que importa é que fui muito feliz realizando esse TCC”, disse o estudante, à época.

Em Manaus, mesmo não tendo seguido o mesmo caminho que Roberto e explorado a ‘diva midiática’, alguns universitários também resolveram deixar de lado os temas mais tradicionais e apostando em assuntos referentes à cultura pop para produzirem suas respectivas monografias. A estudante de Jornalismo Gabriela Maciel, por exemplo, optou por fazer uma análise audiovisual do episódio ‘Queda Livre’, da série ‘Black Mirror’, da Netflix. “Consegui unir o seriado ao meu curso, porque um dos módulos que temos, em Jornalismo, é o Audiovisual, que consiste tanto na produção de vídeos como, também, na análise de produtos”, afirmou a universitária.

A ideia para a análise surgiu após outro trabalho universitário, no qual Gabriela teve de unir a obra ‘Mal-Estar da Pós-Modernidade’, de Zygmunt Bauman, aos filmes ‘Clube de Luta’, ‘Zelig’ e ‘Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças’. A partir daí, a estudante se apaixonou pelo sociólogo polonês. “Um ano depois, conheci ‘Black Mirror’ e, especificamente, o episódio que escolhi para o meu TCC. Quando o assisti, só me lembrei dos conceitos de Bauman”, contou.

O capítulo em questão, ‘Queda Livre’, é ambientado em uma sociedade na qual todas as interações sociais de seus habitantes são avaliadas por meio de um curioso aplicativo: quanto maior a sua média em seu sistema de avaliação, mais bem querida a pessoa é pela comunidade e, consequentemente, mais tem acesso a oportunidades e vantagens. “O episódio é sobre uma sociedade que vive para ter uma boa aparência e reputação. E, hoje em dia, com as redes sociais, essa pressão de ter a vida perfeita é muito constante”, pontuou a universitária.

Após passar por matérias que destrinchavam o audiovisual, a televisão e a internet, Gabriela resolveu ‘casar’ os princípios de Bauman e de outros sociólogos com o universo de ‘Queda Livre’. “Quis unir todos os conceitos que aprendi para mostrar que ‘Black Mirror’ é muito mais que um produto de entretenimento, mas, também, uma forma de representação social de comportamentos, relacionamentos e atitudes que temos nos dias atuais”, acrescentou.

A apresentação do TCC da estudante está marcada, ainda, para este semestre. “Quando contei para a minha orientadora sobre o que queria abordar, ela curtiu a ideia e embarcou, nela, junto comigo. Tive muita sorte, porque minha professora foi bem receptiva com o meu tema”, destacou a universitária, que aconselha: “Escolha professores que tenham afinidade com o tema. Por exemplo, escolhi uma orientadora que tem muitos conhecimentos sobre audiovisual e semiótica, então, fica bem mais fácil de orientar e, também, aceitar seu projeto”.

Sociedade distópica

Sucesso de público e crítica, o seriado ‘The Handmaid’s Tale’ é baseado no romance homônimo de 1985, escrito pela canadense Margaret Atwood. A obra, que recentemente foi relançada por conta do ‘boom’ da produção, serviu como objeto de estudo para a monografia da estudante de Jornalismo Emanuelle Cristina Lopes. “A ideia de conciliar meu TCC com o livro da Margaret Atwood partiu do meu interesse por narrativas distópicas e por se tratar de uma obra escrita por uma mulher, que nunca esteve tão famosa como em 2017”, disse a universitária.

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De acordo com a estudante, o livro, que explora os temas da subjugação das mulheres, chamou a sua atenção por retratar o surgimento de um regime totalitário. “Diferente da trajetória de Katniss Everdeen, em ‘Jogos Vorazes’, ou da superpotência controlada pelo Grande Irmão, criada por George Orwell, que o público já conhece como as mais populares distopias, de épocas distintas, a de Margaret Atwood conseguiu não só inserir o leitor no contexto opressor que vivem as mulheres da chamada República de Gilead, como, também, mostrar como aquele país, antes os Estados Unidos, terminou nas garras de um regime totalitário teocrático”, ilustrou.

Na história, o público acompanha a trajetória de Offred, uma mulher com marido, filha e carreira que, gradativamente, encontrou-se desprovida de todos os seus direitos. “Isso, de certa forma, me soou como um grito de alerta para o atual momento que a nossa sociedade vive. A autora foi brilhante na abordagem chocante de um tema que reflete, de maneira assustadora, os dias atuais, mesmo tantos anos após a publicação do livro”, destacou Emanuelle. “Obras como esta ampliam a nossa visão de mundo sobre intolerância religiosa, pensamentos machistas e decisões retrógradas, no que diz respeito aos direitos conquistados pelas mulheres”, completou.

Para a sua monografia, a universitária espera abordar a Comunicação com base em uma análise de ‘The Handmaid’s Tale’. Para isso, ela parte de estudos sobre distopias e como elas trazem uma reflexão atual e relevante sobre problemas da sociedade. “Minhas expectativas estão altas, pois é um tema que vem despertando interesse em muita gente e está sendo bastante discutido. Isso me deixa ainda mais ansiosa em desenvolver um trabalho de qualidade”, afirmou Emanuelle, que, para corresponder as suas expectativas, resolveu adiar a entrega do projeto. “Quis estudar melhor o tema e, quem sabe, encontrar novos conceitos a serem abordados”, concluiu.

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