FoMO e o ‘medo de ficar de fora’

Vício em redes sociais pode causar depressão e ansiedade generalizada. FoMO, do termo ‘fear of missing out’ — ou, em uma tradução livre, é o ‘medo de ficar de fora’

Manaus – No filme ‘Ingrid Goes West’ (2017), ainda inédito no Brasil, o espectador se depara com uma protagonista, interpretada por Aubrey Plaza, que fica obcecada por uma celebridade das redes sociais, papel de Elizabeth Olsen. Ao longo da produção, a jovem, por conta de seus distúrbios mentais, acaba passando por diversas situações que, apesar de preocupantes, tendem a escapar por uma veia mais cômica. O que poucos sabem, no entanto, é que esse transtorno que afeta a personagem de Plaza existe e tem nome: FoMO, do termo ‘fear of missing out’ — ou, em uma tradução livre, ‘medo de ficar de fora’.

A sigla foi criada, em 2000, pelo estrategista de Marketing norte-americano Dan Herman. Nos anos seguintes, os pesquisadores de Harvard e Oxford Patrick McGinnis e Andrew Przybylski, respectivamente, definiram o FoMO como sendo o desejo de estar, permanentemente, conectado com o que os outros estão fazendo.

(Foto: Divulgação)

Apesar de inofensivo, em um primeiro momento — afinal, quem não tem o costume de pegar o celular logo que acorda, pela manhã? —, esse comportamento pode desencadear problemas mais severos. Quem afirma é a psicóloga e integrante do Programa de Dependências Tecnológicas do Hospital das Clínicas, em São Paulo, Sylvia van Enck Meira.

“É um comportamento, digamos, compulsivo, de ficar checando as redes sociais para ver o que as pessoas estão postando ou falando. Este vício pode se tornar excessivo, a ponto de a pessoa ficar muito tempo nas redes sociais e acabar perdendo oportunidades de fazer e vivenciar coisas que, na vida real, favoreceriam a ela”, disse a psicóloga. “Essa necessidade de estar o tempo inteiro conectado, de alguma forma, pode desencadear, por exemplo, uma depressão ou ansiedade generalizada”, acrescentou.

Como identificar

Em uma época em que todos estão sujeitos a essa megaexposição, impulsionada pelo ‘boom’ das redes sociais, torna-se quase impossível não desenvolvermos, também, esse comportamento. Então, como diferenciá-lo de um fenômeno inofensivo para o FoMO?

Sylvia explica: “Existe um lado em que essa obsessão chega a ser ‘saudável’. Muitas vezes, você vê uma publicação e percebe que aquilo, seja uma melhor condição afetiva ou profissional, realmente, causa um sentimento de inveja em você. ‘Ah, gostaria de estar na mesma condição que essa pessoa’ ou ‘Por que eu não consigo ultrapassar certas etapas da minha vida?’. Isso é natural”, frisou a profissional. “O problema nasce a partir do momento que essa busca por publicações que, de alguma forma, afetam negativamente a pessoa, se torna constante. Esse comportamento, que reforça a autoestima baixa, é preocupante”, completou.

De acordo com a psicóloga, é importante que a pessoa se dê conta das coisas que ela está perdendo por conta desse vício. Há casos, ela cita, em que o indivíduo acaba largando os estudos por não conseguir acompanhar as aulas. “A pessoa precisa ter essa reflexão: qual a função dessa hiperconexão em sua vida? É primordial que (a pessoa) tenha esse pensamento, porque esse comportamento pode estar funcionando, inclusive, como um refúgio”, pontuou Sylvia.

“Vale observar, também, o que ela perde com esse vício. Tem gente que perde trabalho, relacionamentos e, até mesmo, casamento. Ela acaba abrindo mão de uma vida ‘normal’, com atividade física, alimentação regrada e outros hábitos saudáveis. Por conta dessa necessidade de estar 24 horas conectada, há pessoas, jovens e adultos, que acabam perdendo anos escolares. Esse estresse mental e físico acaba deixando esses indivíduos mais distraídos, dificultando, assim, as suas vidas acadêmicas”.

Como diminuir o vício

Uma dica para reduzir o FoMO é instalar, no celular ou no computador, um aplicativo que aponte quantas horas o indivíduo gasta em determinada plataforma. Isso ajudará a identificar a gravidade do seu vício em redes sociais. Deixar de lado as comparações com a rotina e a vida dos outros também é importante para amenizar os sintomas.

“Como o celular é um meio de acesso fácil, que a pessoa tem 24 horas em mãos, é importante que reserve um tempo somente para acessá-lo e não o deixe o tempo todo online. É primordial que o indivíduo não fique o tempo inteiro atento ao aparelho”, adicionou Sylvia. “Fora isso, a pessoa deve passar por avaliações clínica e neuro-psicológica para adquirir um diagnóstico. A partir dele, é indicado um ambulatório que melhor possa atender às necessidades desse indivíduo, seja com um psicólogo ou psiquiatra”, encerrou.

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