Gaslighting e a manipulação psicológica

Psicóloga aponta cuidados que os pais devem ter com os filhos, caso sejam vítimas deste tipo de abuso

Manaus- Em ‘A Garota no Trem’, livro de Paula Hawkins, a protagonista Rachel desenvolve depressão e alcoolismo ao descobrir ser infértil. A partir dali, ela passa a duvidar da sua própria sanidade por conta de coisas que o ex-marido, Tom, a acusa de ter feito — sob o efeito do álcool. Ele afirma, inclusive, que a largou pela amante, Anna, e por ter perdido o emprego, após uma confusão causada por Rachel, novamente, embriagada. No desfecho do suspense (cuidado com o spoiler!), o leitor descobre, juntamente à protagonista, que, na verdade, tudo o que Tom dizia era mentira. Ele era um abusador.

Psicóloga aponta cuidados que os pais devem ter com os filhos. (Foto: Reprodução)

Este tipo de ‘terrorismo psicológico’ é conhecido como gaslighting e, além de antingir, em sua grande maioria, mulheres, é bastante comum, também, entre crianças e adolescentes. E, quando praticado, especificamente, com este último grupo, suas consequências se tornam mais difíceis de serem tratadas. Em entrevista à Revista PLUS deste domingo, a psicóloga e psicopedagoga clínica Fabiana Lima falou um pouco sobre este tipo de abuso no qual informações são omitidas, distorcidas ou inventadas, sempre a favor de seu executor.

“De forma geral, é um tipo de abuso que faz com que a vítima passe a duvidar da sua própria capacidade de analisar e perceber os fatos da realidade”, disse ela, que é especializada em terapia cognitivo-comportamental, com ênfase na infância e juventude.

Para explicar melhor, ela ilustra: “Você já se encontrou em alguma circunstância onde uma pessoa garante que você disse algo que não se lembra de ter dito? Você revira sua memória e conclui que, definitivamente, você não disse aquilo? (…) No entanto, a pessoa afirma isso com tanta segurança que você acaba lhe dando crédito. Portanto, ele se caracteriza como um ato de manipulação repetitiva que uma pessoa exerce sobre a outra. Seu maior objetivo é desestruturar a segurança da vítima, fazendo com que ela perceba essa realidade de forma distorcida”, esclareceu.

De acordo com Fabiana, não há lugares específicos para o gaslighting acontecer. Ele está presente onde existem quaisquer tipos de relações — familiares, profissionais, amorosas, etc. — e, geralmente, é praticado por uma pessoa de muita confiança da vítima. “Por esta razão, a manipulação se torna tão real, na percepção da vítima. Geralmente, as vítimas deste tipo de abuso são pessoas mais desconfiadas, que encontram esta ‘segurança’ no manipulador. Elas passam a duvidar de si mesmas, constantemente, e apresentam dificuldades na tomada de decisões, acreditando que os erros acontecem por sua culpa, dentre outras características”, destacou a psicóloga.

Perfil do abusador

Segundo Fabiana Lima, o perfil da pessoa que pratica o gaslighting é bastante interessante, pois, em certo momento, ela faz com que a vítima se sinta confusa e, noutra oportunidade, elogia e dá atenção, caracterizando, assim, um ciclo vicioso. “É um assédio marcado por múltiplos incidentes, agentes, pelo isolamento da vítima e por uma série de frases que se repetem, como ‘Você está exagerando’, ‘Você é sensível demais’ ou ‘Você não sabe fazer nada direito’, para citar algumas”, pontuou.

“O abusador é uma pessoa que desqualifica as intenções das outras. Ele identifica os pontos fracos da vítima e os ressalta contra ela, tudo isso de forma bastante natural, a ponto que a pessoa nem perceba estar sendo abusada. E, sim, estes atos são feitos de forma consciente. O praticador do gaslighting é intolerante e apresenta características de personalidade mais rígidas, sendo possível, até, sofrer de transtornos mais específicos de personalidade”, completou a profissional.

Cuidados

Para evitar que seus filhos sejam vítimas — ou praticantes — do gaslighting, Fabiana aconselha os pais a conhecerem e conversarem com os pequenos. “A comunicação entre pais e filhos é essencial para garantir a segurança emocional e um bom desenvolvimento psicológico, essencial nas primeiras fases do desenvolvimento. Oriente-os a saber como resolver situações de conflito, ouça-os. Ouvir como os filhos raciocinam e expressam seus pensamentos e vontade é muito importante, para eles e para a relação de vocês”, ressaltou.

Conforme a psicóloga, as vítimas deste tipo de abuso podem apresentar uma série de prejuízos na vida, como desenvolver um processo de baixa autoestima, transtorno de ansiedade, transtorno pós-traumático e insegurança. “A melhor forma de cuidado é aquela exercida com acolhimento e, também, com limites. A segurança emocional é construída e fortalecida, ou enfraquecida, ao longo de todo o desenvolvimento. Portanto, possibilitar à criança em formação ambientes firmes, seguros e que, também, frustram é essencial para que a organização psíquica seja bem formada. Desta forma, a criança terá uma estrutura mais firme e lidará com situações cotidianas de conflito de maneira saudável”, encerrou Fabiana.

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