Elas são mães e profissionais da saúde

Em meio a pandemia de Covid-19, mães que são profissionais da saúde contam suas histórias de amor, medos e superação

Manaus – Neste momento da humanidade, onde estamos aprendendo a viver distante de quem amamos, as profissionais de saúde (médicas e enfermeiras), que também são mães, vivem dilemas e também histórias de superação, onde o cuidado e amor à profissão, e amor e cuidado aos filhos se misturam, num misto de medo, mas também superação e muito amor. Neste domingo, algumas dessas mães nos contam suas experiências.

(Foto: Acervo pessoal)

“Na atual situação que nos encontramos por conta da pandemia pela Covid-19, para nós enfermeira e mães está sendo muito difícil, pois tememos que ao retornar do trabalho, estejamos carregando o vírus para dentro de nossas casas, botando em riscos nossos filhos. Mas somos linha de frente nessa batalha e a população precisa da gente. Escolhemos nossa profissão por amor e por amor a exercemos. Esse dia das mães, infelizmente, vai ser bem diferente dos outros, e não poderei estar ao lado da minha mãe devido ao isolamento, mas quando isso tudo acabar, comemoraremos juntas. Com certeza, essa pandemia mudou muito meu modo de pensar e agir. Me fez ver que somos mais frágeis do que eu já achava que éramos. Hoje em dia meus cuidados , principalmente quanto a proteção, triplicaram tanto com os paciente, quanto com meu filho dentro de casa. Quando nos tornamos mães, passamos a ter mais compaixão para com outras mães, porque passamos pela experiência. Trabalho diretamente com as mulheres que acabaram de se tornar mães , no pós parto, então sempre tento passar as experiências que tive para tranquilizá-las e ajudá-las, ser enfermeira é um dos meus maiores orgulhos, pois é uma profissão baseada no amor e no cuidado”
Raisa Lobato, 31, enfermeira obstetra, mãe de Eduardo de 1 ano e 4 meses

(Foto: Acervo pessoal)

“Nesse momento que estamos atravessando de pandemia pela Covid-19 está sendo muito difícil para nós médicas e mães porque temos que sair para trabalhar, deixar os filhos em casa e ir à labuta para tratar os filhos de outros, cuidar de outras crianças que estão precisando da gente, e com medo de se infectar e com isso levar o vírus para dentro de nossas casas. Porém, é um trabalho realizado com muito amor. Temos que ir para linha de frente de combate à doença. Somos mãe, porém somos médica, fizemos um juramento e a medicina é um sacerdócio. Temos que deixar nossas casas, nosso filhos e nos entregar ao próximo e sem saber se na volta vamos contaminar nossa família. Nesse dia das mães será especialmente difícil, pois tenho mãe e não poderei passar com ela. Será triste. Não estarei com minha mãe e também fico pensando nas mães que perderam os filhos para essa doença”
Gleusa Yara de Oliveira Claros, 53 anos, é médica pediatra e emergencista, mãe de Bianca Fernandes Coêlho (médica também) e Mateus Claros de Oliveira

(Foto: Acervo pessoal)

“Atualmente meu trabalho é na assistência as grávidas acometidas pela Covid-19, a princípio cheguei a pensar em me afastar da assistência ou pedir que fosse remanejada para um setor onde não tivesse contato direto com pacientes infectadas, mas depois a ficha caiu, não há como saber quem está infectado, uma paciente, um colega, um familiar, então a solução é usar todos os paramentos, ter cautela antes durante e depois do atendimento a pacientes principalmente na retirada dos EPI’s, visando se manter saudável pois em casa tem uma criança que me espera, a qual ainda amamento. Ser mãe durante a pandemia me fez ficar um pouco mais comedida, menos ousada com relação a minha profissão, esse é meu primeiro dia das mães sendo mãe e o que mais desejo é que tudo isso passe, pois mais doloroso que ter que ficar em um isolamento com pacientes infectadas usando EPI’s pesados que muitas vezes chegam a ser sufocantes é medo e a insegurança de poder abraçar, cheirar, beijar minha pequena”
Marta Castro, 34 anos, é enfermeira obstetra e mãe de Heloísa Valentina de 5 meses de idade

(Foto: Acervo pessoal)

“Em época de quarentena afloram os sentimentos de medo e insegurança sobre o futuro e quando terminará. Estar na linha de frente nos torna frágeis e contraditoriamente fortes para enfrentar o desafio mãe-médica. A fragilidade vem do medo que todos os dias nos acompanha em cada plantão. Esse medo leva a ter cautela na hora de me paramentar e não levar contaminação para meu filho, afinal: e se ele adoecer,quem cuidará? No primeiro momento, quando somos escalados para estarmos na linha de frente, o sentimento materno fala “ não vai, tens filho “, mas o juramento médico surge na alma, a preocupação com o outro vem e você adquire uma coragem de onde menos imaginou para seguir. O tempo, agora se tornou qualitativo. O pouco tempo que tenho para estar com ele, se torna valoroso, e a melhor hora do dia. A gente se cobra demais , exige ser uma mãe perfeita, no entanto, esta não existe, e para quem está na linha de frente dessa ‘guerra em tempos de paz’ a exigência triplica. Este domingo será o primeiro dia das mães, desde que meu filho nasceu, que passarei distante dele, no plantão . Dói? Sim. Tenho vontade de estar em casa e colocá-lo dentro de uma caixa e blindar ele de tudo. Porém, adquiro força de onde menos imagino, acolho minha escolha profissional e me inspiro nesse sentimento materno para enfrentar o desafio e, todo vazio que sinto com a ausência dele transformo em amor, doando-me a cada paciente que chega para receber meus cuidados, porque afinal ser mãe é padecer no paraíso , mas sem dúvidas ser mãe e estar à frente dessa pandemia é mostrar aos filhos, quando assim compreenderem, a forma mais elevada de altruísmo”
Raysa Wanzeller de Souza Paulain, 33 anos , clínica médica e especializando em pediatria , mãe de
Paulo Roberto Wanzeller Paulain , 4 anos

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