Entrevista com o polêmico Zé Celso, sem papas na língua

Teatrólogo fala sobre nudez nos espetáculos e a conturbada vinda de Dionisíacas para Manaus. Zé carrega ideias inovadoras e opiniões irreverentes que você confere aqui.

Polêmico, o teatrólogo Zé Celso Martinez traz para Manaus a turnê ’Dionisíacas em Viagem’, para três dias de apresentações no Balneário do Sesc (entre 4 e 6 de setembro).

Na bagagem, além dos espetáculos ‘Taniko’, ‘Cacilda’, ‘Bacantes’ e ‘O Banquete’, Zé carrega ideias inovadoras e opiniões irreverentes que você confere na entrevista a seguir.

 

Como se deu a criação da ’Dionisíacas em Viagem’ e como foram escolhidos os quatro espetáculos que integram a turnê?

Os espetáculos foram escolhidos em torno da busca do Teatro de Estádio, que por sua vez leva ao retorno do momento em que o teatro mais teve poder na história da humanidade: o da tragédia grega, em que o teatro era como o Carnaval, uma instituição cívica. Quer dizer, da cidade toda, e não somente de uma parte dela. Por isso o grão, o núcleo das ’Dionisíacas’ é  ’Bacantes’, que por sua vez, gera o ’Banquete’, que é uma comemoração em torno do sucesso do ator que faz Dionísios, o deus do teatro, do vinho. E se chega nela através do ’Fio do labirinto de Cacilda Becker Ariadne’ na peça ’Estrela Brasileira a Vagar Cacilda!’.  E se começa pela viagem de ‘Taniko’ , na calma, no estado zen do ’Nô Bossa Nova Trans Zen Iko’.

Você é conhecido por trabalho único e que abusa do nu. Acha que o nu inibe o público?

Não, libera. No Centro Cultural da Prefeitura no Bairro de Peixinhos, entre Recife e Olinda, até o chefe do tráfico ficou pelado. O amor livre, o que chamam de indecência, pouca vergonha, é o maior fator de educação, formação cultural do ser humano, nos ensina o óbvio. Quem sabe ousa viver seus prazeres, é livre, é um cidadão politizado, não se deixa arrebanhar. Pois retornamos a nossa condição humana sem catequese, como diz Oswald de Andrade, ”pra comer e pra trepar, todos nascemos preparados”. Mas os donos do povo querem fazer os humanos esquecer esta obviedade.

(Nota: O Bairro de Peixinhos foi onde o Teatro de Estádio foi montado em Recife, durante a turnê das ‘Dionisíacas em Viagem’ este ano. Trata-se de uma grande comunidade localizada entre Recife e Olinda, com questões sociais semelhantes às das comunidades periféricas dos grandes centros urbanos brasileiros. Lá, a população compareceu – e interagiu – em peso às apresentações, com diversas pessoas tendo que voltar da porta por causa do sucesso)

Como caracteriza o uso nu no palco? Qual a inspiração para que o nu incorpore os seus espetáculos?

Não se ’usa’ o nu. Ainda mais num lugar quente como Manaus, todos deviam poder andar pelados, se quisessem, como os índios. A inspiração da nudez é a mesma do retorno à fonte da vida, ao amor, ao fazer amor, ao tomar banho, ao nosso nascimento. Quem tem medo das partes que nos deram a vida são burros, otários, cegos, dominados, escravos.

Qual a importância de Dionisíacas vir para Manaus?

A última vez em que viemos a Manaus foi com ’O Assalto’, de José Vicente, na direção do primeiro ator do Oficina Marcelo Drummond, apresentado no Teatro Amazonas, em 2004. Era uma grande encenação, que redescobria um dos maiores dramaturgos brasileiros, interpretada por dois grandes jovens atores: Fransérgio Araújo e Haroldo Costa Ferrari. Mas, com a Cia. toda, com o então chamado Grupo Oficina Brasil, em 1971, fizemos dois espetáculos realizados no Teatro Amazonas: ’O Rei da Vela’, de Oswald de Andrade, e ’Os Pequenos Burgueses’, de Maximo Gorki; e também uma sessão do espetáculo ’Galileu Galilei’, de Bertolt Brecht, patrocinado pela Coca-Cola de Manaus, num Ginásio Esportivo.

Foi um grande sucesso e finalizou uma excursão que o Oficina fez apresentando-se nos grandes teatros de capitais do Brasil, do Rio pra cima: BH, Brasília, Salvador, Recife, Natal, São Luiz, Fortaleza , Belém e Manaus. Ao mesmo tempo, o Oficina, clandestinamente como as grandes bilheterias das capitais, pagava-se um tempo para a criação clandestina do que chamávamos ‘Trabalho Novo’, ou ‘Lição de Voltar a querer’, no interior do País, nos sertões, e mesmo nas capitais – que resultou na criação coletiva de ‘Gracias Señor’, peça com que conseguimos driblar a censura da época, trabalhando com o que chamávamos TEATO, trabalho que apresentamos primeiro no Rio, no Teatro Tereza Rachel,  e depois na temporada de São Paulo, dividindo-o em duas partes, em dois dias. Desenvolvia-se no silêncio, com grande atuação do público, que em plena ditadura comunicava-se com os sinais que criávamos. Este trabalho intrigou a Ditadura Militar. A Brasília dos gorilas interessava-se pela encenação que fazíamos, não permitia que a peça saísse de cartaz como a Polícia Federal de São Paulo exigia, para observar, estudar a fundo o que consideravam uma ’aplicação de técnicas de hipnotismo do público’, transmitidas pela China para nós, ’subversivos brasileiros’.

Chegaram mesmo a publicar um texto de página inteira nos mais importantes jornais do País com o título: ’Como Eles Agem’, em que declaravam sua preocupação com esta técnica. Somente a pressão de 40 censores que ameaçaram demitir-se se Brasília não proibisse ’Gracias Señor’ conseguiu que os gorilas impedissem a continuação da temporada da peça que  iria correr o Brasil todo, a América Latina e chegar até as Universidades dos EEUU. Durante a Viagem  de 1971 pelo Brasil , no pico da repressão política militar, chamávamos nossa excursão de UT(R)OPÍA e, já chegando em Manaus, as três peças clássicas consagradas pelo público e pela critica , do Brasil e do Exterior, já traziam influências fortes do TEATO. O nome da peça ’Gracias Señor’ foi, aliás, dado pelo amazonense – hoje cineasta – Aurélio Michieles,  que, tendo participado de uma das preparações coletivas em Brasília, na UNB, onde estudava, veio para Manaus no final da UTROPIA  e seguiu com o Oficina para São Paulo.

Demoramos a volta à cidade, primeiro, por cauda do cerco da ditadura, que pouco a pouco foi impedindo nosso trabalho, até a Policia invadir o Teat(r)o Oficina, ter feito muitas prisões dos ’atuadores’, como nos chamávamos, nós do Oficina, e finalmente terem me levado, juntamente com Celso Lucas, fotógrafo cineasta, para as Câmeras de Tortura, de onde saímos com parte da Cia. para Portugal durante a revolução portuguesa dos Cravos, motivada pelas lutas  de Descolonização  do Império Português, na África e na Ásia. De Portugal fomos para Moçambique, onde filmamos a independência do país e os primeiros tempos da revolução Moçambicana. Quando voltamos do exílio, prenhes das revoluções de que tínhamos participado, tivemos que retornar ao trabalho subterrâneo para passarmos pela brecha estreita da abertura lenta, gradual e restrita…

Emergimos totalmente quando reabrimos publicamente nosso Teat(r)o Oficina em 1993, com ’Ham-let’,  já como Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona.

Foram anos de criação de grandes espetáculos multimídias do que chamamos ’Óperas de Carnaval Eletro-Candomblaicas da TragiComédiOrgya’ em nosso Terreiro Eletrônico reconstruído por uma das maiores ‘arquitetos’ do século XX, Lina Bo Bardi.

Passamos a trabalhar com artistas de múltiplas mídias, música ao vivo, atuação cada vez mais com o público, em espetáculos com grande número de atuadores: ‘Ham – Let’, de Shakespeare,  antropofagiado por nós; ’Bacantes’ (de Eurípedes), rito de origem do Teat(r)o que estamos trazendo agora como grão das Dionisíacas’; ‘Mistérios Gozozós’, de Oswald de Andrade, a primeira peça da Teatralogia que escrevi sobre a fabulosa atriz brasileira de ‘Corpo Elétrico’ Cacilda Becker: ‘Cacilda!’ (primeira exclamação), trazemos agora pra Manaus em sua segunda parte, mais precisamente: ’Cacilda!!’ ( duas exclamações); ‘Boca de Ouro’, de Nelson Rodrigues; ’Os Sertões’, de Euclides  da Cunha, 27 horas de Teato distribuídas em cinco dias: ’A Terra’, ’O Homem I’ , ’O Homem II’, ’A Luta I’ e “A Luta !!’; ‘Os Bandidos’,  de Shiller.

Em ’Os Sertões’, nós do Oficina Uzyna Uzona éramos mais de 100 atuadores em todas as áreas, incluindo as crianças que trabalhavam na peça, vindas do Movimento de Trabalho com as crianças do Bairro do Bixiga, onde está o TEAT(R)O OFICINA há 52 anos: ’O Movimento Bixigão’.

Os fatores, número de atuadores, atuação fora do Palco Clássico Italiano, tornavam muito caros nossos deslocamentos, mas mesmo assim viajamos por algumas capitais brasileiras e para o exterior.

Com ’Os Sertões’ fomos duas vezes para a Alemanha e, milagrosamente, conseguimos excursionar para o Rio, Salvador, Recife, Quixeramobim, no interior do Ceará, terra onde nasceu Antonio Conselheiro, o líder dos Conselheristas, e em Canudos, na Bahia, capital dos Sertões brasileiros do Nordeste, ponto máximo desta viagem, onde nos apresentamos como uma Nova Expedição, não mais militar, para massacrar a terceira Canudos, mas levando de volta o reconhecimento de todo Brasil.

Isso nos fez descobrir que vivíamos em dois Brasis, descoberta revelada no livro mais traduzido do Brasil em outras línguas, de Euclides da Cunha, que quase repetiu a façanha nos revelando num segundo livro fundido do Brasil– O Amazonas, em suas obras não concluídas: ’A Margem da História’, ’Contrastes e Confrontos’ e ’Paraíso Perdido’.

Os amazonenses vão ter a oportunidade de ver estes espetáculos em cinco filmes gravados diretamente em espetáculos com a presença do público, em tecnologia de ponta digital, filmados por fotógrafos do cinema brasileiro contemporâneo. Eles foram dirigidos por cinco diretores diferentes: ’A Terra’ por Tommy Pietra, que além do site www.teatroficina.com.br, dirige as transmissões diretas que fazemos, inclusive em Manaus, pela NET para todo mundo, das ’Dionisíacas’; ’O Homem I’ com direção do cineasta super premiado mundialmente Fernando Coimbra, ’O Homem  II’, dirigido por Marcelo Drummond, o Hamlet, o Dionisios, o Boca de Ouro, o Euclides da Cunha… enfim, o primeiro ator do Oficina Uzyna Uzona; ’A Luta I’, por Elaine Cezar, diretora de vídeo das  ’Dionisíacas’ e uma das maiores experts nesta área no Brasil; e ‘A Luta II’ dirigido por Erik Rocha.

A partir do fim de setembro, estes filmes serão lançados em cinemas do Rio e de São Paulo e deverão ser distribuídos por todo nosso País e no exterior. A Petrobras, nossa patrocinadora desde ’Os Sertões’, é também patrocinadora dos cinco filmes. E continua este ano investindo em nossa produção cinematográfica e teatral.

Todos estes fatores explicam a não vinda de nossas produções quantitativamente mais complexas, há 39 anos, a Manaus. E essa oportunidade surge agora pela iniciativa do extraordinário ministro da Cultura Juca Ferreira e de sua revolucionária equipe. Temos hoje no Brasil, desde a gestão de Gilberto Gil, consolidada e ampliada financeiramente e por novas ações pelos atuais dirigentes, um real Ministério da Cultura. Um corpo com poder político para dinamizar a principal riqueza do nosso País: a cultura brasyleira com ’Y’, como dizia Glauber Rocha. A infraestrutura mesmo de nossa vida nacional, o cuidado ecológico, com a produção de mais vida, mais poder humano para todos nós brasileiros.

Você está ansioso quanto à turnê em Manaus? Qual a expectativa?

Não tenho expectativas; o que tiver de ser, será. Detesto a espera e a esperança, boto sim é fé de que vai ser mais sensacional que em todas as cidades. Quase não viemos, pois nos alegavam que não estávamos na agenda cultural oficial da cidade. Mas este tipo de agenda não interessa muito a toda a cidade, sempre se dirige a uma parcela pequena dela. Só conseguimos mesmo através de Márcio  Souza e a ele dedicamos as ‘Dionisíacas’ em Manaus.

De que forma a cultura local será aproveitada nas peças em Manaus?

Principalmente pela atuação do povo do bairro e dos que queiram fazer as oficinas Uzynas Uzonas, que atuarão como contagiadores da multidão. Em troca do que pudermos passar, nos passarão os segredos do ser-estar manauara, hoje, nesta Semana da Pátria. Os estudantes, de todas as idades e classes sociais, virão ensaiar conosco pra existir este Teatro de Estádio como Teatro Central da cidade. O TEAT(R)O que queremos tão popular quanto ao futebol e tão oficial como o Carnaval.

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