‘Histórias do Meu Boi Bumbá’ nas redes sociais

A jornalista Dalva Andrade criou páginas no Facebook e Instagram para dar voz aos torcedores de Garantido e Caprichoso

Manaus – Pela primeira vez em 55 anos de existência da disputa do Festival Folclórico de Parintins (oficial), não foi confirmado ainda, pelo governo do Estado, se os bois Caprichoso e Garantido vão se enfrentar na arena do bumbódromo. Para manter viva as histórias do festival e o amor por essa festa, a jornalista parintinense Dalva Andrade criou perfis, no Facebook e no Instagram, chamados ‘Histórias do Meu Boi Bumbá’, para dar voz aos torcedores azuis e vermelhos. Eles relatam causos, experiências, vivências e demonstram a paixão pela festa e por cada um dos seus bumbás. “São histórias livres, sob o olhar de cada um, que falam do amor pela festa, que contam causos, que enalteçam personagens, que falem de sua participação na festa e que mantenha todos ainda mais unidos, em junho, divulgando a tradição”, explica Dalva, ao convidar os participantes.

A PLUS selecionou algumas dessas histórias.

Por Loló da Matta

“Nasci em Manaus (AM), mas sou parintinense de coração. Minha paixão por Parintins e pelo Garantido começou na década de 80. Onde eu morava, no Centro da cidade (Manaus), era rodeada por parintinenses. Foi nessa época que conheci o Júlio, o Escadinha e toda a família deles, a família dos Gonçalves, que morava na Ramos Ferreira, as meninas da Vila Gabriela, Rosana, Dalva, Darlene, Cema e os irmãos delas, os Medeiros, Henrique e irmãs, moravam praticamente na frente da minha casa e de quebra ainda tinha o Gilmar, a Odelir, a Gilma, então, a gente começou a se conhecer, reunir, tocar boi e fui conhecendo a cultura parintinense.

Aí me convidaram a ir para Parintins. Lembro que nessa viagem, a Odelir e o Mendonça, que ainda eram namorados, foram comigo. De madrugada, no meio da viagem, nunca tinha andado de barco, tive até pesadelo. Quando cheguei em Parintins, me identifiquei logo com a turma do Val Batuel, Julhão, Garcia, eles eram conhecidos como ‘Los Pandegos’, na cidade. Comecei a andar com eles, a maioria Garantido e foi assim que eu me apaixonei pelo Boi da Baixa.

Loló da Matta (Foto: Divulgação)

A primeira vez que fui na batucada, fui toda linda, com um xeque-xeque enorme nas mãos, entrei na fila das mulheres e fiquei perto de umas senhorinhas de meia idade, todas com suas palminhas nas mãos. Quando entrei no bumbódromo, que vi a galera vermelha e branca naquela arquibancada enorme levantando, gritando, dançando, eu comecei a olhar pra cima. Andando mas olhando pra cima. Admirada, né? rs.

Uma pena que esse mês não vamos ter festival folclórico e a gente entende o motivo. Mas, assim que tiver, quero estar lá pra prestigiar essa festa maravilhosa, que amo”.

Por Dodozinho Carvalho

“Já fui quase tudo no nesse Boi Caprichoso: animador da galera, torcida organizada, padrinho, porteiro, vice-presidente, diretor de marketing, presidente do Movimento Marujada, presidente do Caprichoso e compositor. Hoje sou item 19 – galera. Compro meu ingresso na arquibancada especial e torço pelo Touro Negro junto com minha família e os amigos que trazemos dos quatro cantos do mundo, para conhecer nossa brincadeira de boi.

E foi com essa paixão no peito que, em maio de 1985, capitaneados pelo querido amigo João do Carmo, o Careca, eu, Carmona Oliveira, Elias Assayag, Cleise de Jesus, Henrique Medeiros, Beto Vital, Silvia Emília, Socorrinha Rodrigues, Themis Gama, Silvia Maia e Ray Cardoso, o Cabeça, fundamos a Ala Jovem, em Parintins (AM), com o intuito de arrecadar fundos para ornamentação das ruas do lado de baixo da Ilha.

Dodozinho Carvalho (Foto: Divulgação)

Na feira agropecuária de 1986, que acontecia no mês de maio, lá na ilha, montamos uma barraca para vender comidas típicas e bebidas. A barraca era um grande sucesso e dividíamos as responsabilidades entre nós, eu era o financeiro. No último dia, tive que me ausentar antes do encerramento e deixei a barraca sob a responsabilidade do Careca, para que ele recolhesse mesas, cadeiras, equipamento de som da comadre Preta, as panelas e o mais importante: a renda.

Acontece que o Careca, do jeito que era, e feliz demais porque a barraca havia sido um grande sucesso, bebeu todas e nem quis mais saber da barraca. Pela manhã do dia seguinte, rumei para a feira para encontrar o Careca e pegar a renda para pagar os fornecedores. Quando cheguei encontrei a barraca alagada do temporal que havia caído na madrugada. Era panela, som, louças… tudo molhado. E nem sinal do Careca. Preocupado com o que pudesse ter acontecido, saí a procura dele até encontrá-lo, ainda porre, na casa da irmã dele, Eleonora, com a mesma roupa do dia anterior mas com o dinheiro da renda enfiado nos bolsos.

Recordo dessa história com carinho pois muitos dos fundadores da Ala Jovem, depois, vieram morar em Manaus e aqui iniciamos o Bar do Boi e o Movimento Marujada, que aí, já merecem uma outra história”.

Por Claudia Freitas

“Sou curitibana e conheci o Festival de Parintins, no início dos anos 2000, mudando de canal. Estava no litoral paranaense, nessa época, tentando encontrar alguma coisa para assistir e acabou aparecendo na tela da TV uma menina com um vestido lindo (era a Vanessa Gonçalves, sinhazinha do Garantido) e uma música muito diferente me chamou a atenção. De cara fiquei encantada.

Nunca tinha escutado falar no Festival de Parintins e fiquei assistindo até aparecer o Pajé, que se transformou num animal. Achei sensacional! A noite acabou, e descobri que teria mais na noite seguinte. Assisti só para saber em que bicho o Pajé ia se transformar. Anos depois, pelo Orkut, conversei com algumas pessoas e criei coragem para atravessar o país. Finalmente iria conhecer o Garantido e o festival.

Claudia Freitas (Foto: Divulgação)

Fiz grandes amigos no festival e, desde a primeira vez que pisei na ilha, tive certeza de que encontrei o meu lugar no mundo! Estive em Parintins todos os festivais de 2007 até 2014. Nesse tempo a turma que tínhamos cresceu, e a cada ano a gente procurava uma casa pra caber todo mundo. Até uma família amazonense que sempre me acolhe quando chego em Manaus, a família Lacerda, ganhei. Fiz amigos nos dois bois, porque amizade sem rivalidade, em Parintins, não tem graça, né?

A maternidade me afastou fisicamente da festival de Parintins e não via a hora de conseguir voltar. Este ano, comprei os ingressos. Mas, vão ficar pro ano que vem”.

Por Beto Vital

“Aos 14 anos minha vida deu uma grande guinada. Eu achei que seria o fim do mundo, mas logo percebi que não, que na verdade era o início de uma grande história, a história da minha vida.

Era 1980, morava em Itacoatiara (AM), onde nasci, quando meus pais se separaram e minha mãe foi passar uma temporada com meus irmãos no Rio de Janeiro. Eu, aos cuidados de minha irmã mais velha, fui para Manaus estudar em um colégio interno. Nesse ínterim, minha irmã mudou-se pra Parintins, pois o marido bancário havia sido transferido. Foi um choque porque imediatamente constatei que não mais passaria as férias em minha cidade, com meus amigos. De fato, dezembro chegou e em vez de Itacoatiara embarquei no ‘Dejard Vieira’, rumo a Parintins, a cidade que escolhi como minha.

Logo fiz muitas amizades e a alegria da cidade me contagiou: Kactus Bar, Boate Ekos, Coca-Cola do Palmeiras, Buraco da Rosa, Buraco da Anta e os balneários do Basa, AABB, Associação Comercial e Cabo Rubens ferviam!
Ninguém falava em Boi.

Beto Vital (Foto: Divulgação)

Julho de 1981, novas férias, novas emoções. Passada a festa da padroeira, minha irmã me convidou para assistir a morte do Boi contrário, em uma quadra onde hoje funciona o Show Clube Ilha Verde. Assisti a tudo e confesso que me impressionei com a habilidade do Jair Mendes travando luta corporal com uma cobra de esponja. Parecia real!

Semana seguinte, fuga do Caprichoso e aí aconteceu o inexplicável. Ao chegar em frente ao Parque das Castanholeiras, apertei a mão de minha irmã e falei ‘esse é o meu boi!’ Ela sem entender retrucou: ‘ainda nem entramos, como podes afirmar isso?’ A energia que vinha de dentro me fez sentir que eu fazia parte daquilo, o que constatei tão logo pus os pés no recinto. O tremular das bandeiras e a alegria vibrante da torcida azul não deixaram dúvidas e pensei alto: esse é meu boi, essa é a minha casa, aqui é o meu lugar!

Mergulhei de cabeça e de lá pra cá, participo ativamente de tudo que diz respeito ao Boi Bumbá Caprichoso. Junto com amigos queridos fundei a Ala Jovem e o Movimento Marujada do qual hoje, com um orgulho absurdo, estou presidente”.