Influenciadoras oferecem apoio emocional aos seguidores nas redes sociais

Três digital influencers utilizam suas redes sociais para falar sobre temas relacionados a saúde mental e emocional

Manaus – Depressão, suicídio, autoaceitação, universo LGBTQ+. Temas que até então eram pouco ou quase nada debatidos, por assim dizer, têm ganhado cada vez mais espaço nas redes sociais. Em boa parte, isso se deve ao fato dos influenciadores digitais finalmente começarem a utilizar suas ‘forças digitais’ para muito além de dicas de roupas, comidas e viagens, mas também para conscientizar e debater assuntos ligados à saúde mental e emocional.

Karen Mabel (@karenmabel), Suelen Costa (@rostodeneve) e Andréa Gouvêa (@gordeia_). (Foto: Yago Frota/GDC)

Recentemente, a tecnóloga em logística Karen Mabel (@karenmabel), de 40 anos, teve um post ‘viralizado’, ao falar sobre atendimentos psicológicos gratuitos em Manaus. A publicação, até a última sexta-feira (12), contava com mais de 6,7 mil compartilhamentos, mais de 7,9 mil curtidas, 800 comentários e atingiu mais de 120 mil pessoas.

“E esse post já serviu de pauta para debates sobre o Setembro Amarelo, uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio. Então, isso mostra que precisamos sim falar sobre temas que por muito tempo ficaram escondidos da sociedade em geral”, comenta ela, lembrando que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), nove em cada dez mortes por suicídio podem ser evitadas.

Porém, a ideia da influenciadora de abordar tais assuntos surgiu com a necessidade de aproximar cada vez mais de seus seguidores. “Entendi que as pessoas me seguiam não apenas pelas dicas, mas porque havia uma identificação. Comecei a falar sobre saúde mental por passar por questões e entender que muitas pessoas que me seguem também passam pelo mesmo. Acredito, ainda, que falando mais, não me sinto sozinha e nem elas”, diz Karen.
Experiência pessoal
Entre os temas que mais frequentemente são abordados pela influenciadora está a depressão. “Justamente por sofrer da doença. Por muito tempo, depois de ser diagnosticada, tive preconceito e vergonha de me expor. Hoje, vendo os números crescentes e alarmantes que passam por isso, me sinto na obrigação de falar: ‘ei, você não está só!’”.

Karen conta que lê atentamente as mensagens que recebe em suas redes sociais e que quando detecta relatos de sintomas ou a evidência de um diagnóstico da depressão, por exemplo, ela recomenda a procura imediata de um especialista. “Algumas pessoas contam as experiências vividas com outras próximas que sofrem da doença e sempre peço que prestem ajuda, que não desistam. Só quem passa sabe o quanto é difícil”.

Feedback positivo

A leitura e a conversa com profissionais são algumas de suas ferramentas na hora de abordar um tema tido por muitos como polêmicos. O engajamento da influenciadora tem rendido bons frutos. “O sentimento é sempre de alegria e gratidão. Me realizo sabendo que estou ajudando alguém com meu trabalho e isso não tem preço. Acaba sendo também um processo de autoajuda pois, além de procurar informação para ajudar o próximo, acabo absorvendo muito conhecimento também. Aprendo demais todos os dias”.

Para o futuro, Karen planeja permanecer na mesma linha que segue atualmente: oferecendo dicas, mas também planos de criar oportunidades de debates sobre temas variados e sejam de interesse da sociedade de uma forma geral. “Com mais profundidade, mais informação. Sei que muitos só leem ou sabem de coisas por meio da minha fala e isso me faz querer abrir cada vez mais o leque de conteúdos interessantes”, resume.

Depressão e ansiedades são assuntos tratados por Suelen Costa (à direita) em suas redes sociais (Foto: Yago Frota/GDC)

‘Ombro amigo’

Outra influenciadora que também é adepta da abordagem de assuntos que falam sobre a saúde mental e emocional é a publicitária Suelen Costa (@rostodeneve), de 28 anos. De acordo com ela, a internet, antes de tudo, tem o conceito de “conectar pessoas”.E foi com essa ideia que começou a falar abertamente diante da depressão e da ansiedade.

“Sempre procuro conversar, mas nunca tento tomar o lugar de um profissional, porque isso seria absurdamente irresponsável. Mas um ombro amigo, mesmo não conhecendo todos os seguidores pessoalmente, eu sempre tento deixar claro que eles têm”, fala.

Suelen destaca que sempre tenta explicar como lida com os seus sintomas de depressão e ansiedade no dia a dia. “São coisas simples ao olhar leigo, mas que significam o mundo para quem sofre de uma das duas doenças, como o simples ato de sair da cama de manhã, por exemplo”.
Sua relação com os seguidores é direta, sem intermediários. “Tanto meu inbox, quanto meu e-mail estão sempre abertos para quem quiser conversar. Mais uma vez, sempre me preocupo em reforçar a procura de um psicólogo e gosto de mostrar os benefícios de quando me consulto com um. E por ser difícil, ao meu ver, absorver informações técnicas dessas condições que procuro passar a minha vivência, mensagens e dicas práticas que me ajudam a tolerar os dias de crise”, salienta.

Ajuda mútua

Suelen conta, também, que já recebeu inúmeras mensagens de leitores que notaram seu ‘sumiço’ por um ou dois dias das redes sociais e que ofertam palavras de carinho. “Da mesma forma que, quando volto, sempre falo a respeito e recebo mais mensagens de pessoas que estão passando ou que passaram pelo mesmo. É um grande círculo virtual de apoio e compreensão. É uma sensação ‘quentinha’ no meio do caos diário. E isso me dá vontade de continuar falando sobre, escrevendo sobre… Nada troca a sensação de estar fazendo por alguém, mesmo que de forma mínima, o que eu gostaria de fizessem por mim”.

O blog de Suien – que não está de ‘férias’ – surgiu com o intuito de ser um refúgio, sem julgamentos. “Comecei meu tratamento somente este ano, mesmo sofrendo de ambas condições há anos. Para o futuro, quero voltar a escrever meus textos na minha plataforma online como o fazia antes, e deixar que meus leitores acompanhem minha melhora com um espaço maior do que uma legenda de Instagram, e se inspirem a procurar ajuda”, finaliza.

Andréa Gouvêa (à esquerda) aborda em suas publicações temas como autoestima e gordofobia (Foto: Yago Frota/GDC)

Aprendendo a se amar

A publicitária Andréa Gouvêa (@gordeia_) de 31 anos, sempre foi uma ‘menina gorda’ e que, por conta disso, teve que aprender a se amar como era. “Muitas influenciadoras me ajudaram nesse processo e, conforme fui compartilhando a construção da minha autoestima e amor próprio, fui recebendo muitas mensagens de mulheres que não conhecia, mas que relatavam que estavam um passo atrás da evolução e me viam como alguém a se inspirar para melhorar”, lembra.

A partir disso, Andréa passou a compartilhar escolhas de roupas Plus Size e o cotidiano. Entre os temas mais abordados, são autoestima coporal e gordofobia. “Recebo muitos relatos de mulheres que dizem odiar seus corpos, que não se sentem livres para usar determinada peça de roupa ou frequentar lugares como praias e piscinas que para tantos é normal. Sempre tento abordar este tema com a explicação de porque nos sentimos assim e depois de como podemos fazer para melhorar e seguir nossas vidas com mais liberdade, amor próprio e valorização da nossa beleza”.

Contato

O contato com suas seguidoras se manifesta frequentemente em forma de relatos em várias situações, que vão desde agradecimentos por ajudar a usar uma peça de roupa que ela nunca usaria até relatos mais pesados envolvendo gordofobia na família ou relacionamentos abusivos.

“Os que eu mais amo são os de mudança. Já recebi mensagens de mães me agradecendo, dizendo que não sabiam que essa forma de preconceito afetava tanto a vida da filha adolescente e que a mudança aconteceu, pois toquei no assunto. Também amo quando recebo relatos de mulheres que se libertaram e passaram a fazer coisas que nunca tinham feito inspiradas em atitudes minhas como ir à praia de biquíni, andar de bicicleta”, explica.

A influenciadora conta que sempre busca ler livros sobre a temática, como distúrbios alimentares e relação e construção da autoestima. “Também sigo muitos perfis parecidos com o meu e indico para as seguidoras se inspirarem em pessoas que as fazem bem, que não as façam sentir erradas ou mal com o corpo que tem”.

Para o futuro, esperar falar mais o gordofobia e situações como falta de emprego, acessibilidade, limite de humor, médicos, esportes. “Todo lugar onde sinto que o gordo não é incluso, quero mudar de alguma maneira. Gostaria muito de também reunir mulheres gordas para uma espécie de ‘workshop’ e falar sobre autoestima e a nossa construção sobre padrões de beleza. Este é um projeto que já está quase saindo do papel”, adianta.

(Foto: Yago Frota/GDC)

Anúncio