Mais que uma ‘mania de doença’

Transtorno é assunto sério e, atualmente, atinge cerca de 10 milhões de brasileiros

Manaus- “Ah, porque eu sou hipocondríaco”. Bem comum, esta justificativa já domina da mesa de bar, com os amigos, até um simples bate-papo, no ambiente de trabalho. O problema é que esse uso banal mascara os grandes malefícios da hipocondria. Mais que a famosa ‘mania de doença’, trata-se de um assunto sério: atualmente, o transtorno mental — sim, a condição é tratada como um distúrbio — atinge, pelo menos, cerca de 10 milhões de brasileiros.

Transtorno é assunto sério e, atualmente, atinge cerca de 10 milhões de brasileiros. (Foto: Divulgação)

A importância acerca da hipocondria é tanta que o termo foi abandonado pela 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, em parte pelo caráter pejorativo com o qual o diagnóstico era recebido, de acordo com a psicóloga e mestra em Psicologia Alessandra dos Santos Pereira. “Atualmente, a classificação descreve esse distúrbio como Transtorno de Sintomas Somáticos”, disse a especialista. “Estes sintomas (somáticos) são responsáveis por causar aflição ou perturbar, significativamente, a vida diária desses pacientes. A condição é acompanhada, ainda, de pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos relacionados a esses traços ou associados a preocupações com a saúde”, acrescentou.

De acordo com Alessandra, apesar de não existir nenhum estudo conclusivo sobre como o hipocondríaco adquire ou desenvolve esta condição, há uma série de fatores que pode contribuir para o transtorno, como, por exemplo: vulnerabilidade genética e biológica (maior sensibilidade à dor); experiências traumáticas precoces (violência, abuso e privação); aprendizagem (atenção obtida por causa da doença, ausência de reforço de expressões não somáticas de sofrimento); e normas culturais/sociais que desvalorizam e estigmatizam o sofrimento psicológico em comparação com o sofrimento físico.

Como identificar

Com relação aos sintomas da hipocondria, a psicóloga aponta os indícios mais comuns nestes pacientes. São eles: ter um medo intenso ou ansiedade prolongados de ter uma doença grave; preocupar-se que os menores sintomas e sensações físicas podem significar uma doença grave; procurar médicos repetidamente ou fazer exames complexos com frequência, como ressonâncias magnéticas e ecocardiogramas; trocar de médico constantemente, sempre buscando uma segunda opinião que indique uma condição grave; falar diversas vezes sobre seus sintomas ou das doenças de que suspeita ter; checar frequentemente o corpo em busca de problemas ou os seus sinais vitais, como pulsação ou pressão arterial; e cogitar ter uma doença só de ler ou ouvir sobre ela.

“Em indivíduos mais velhos, sintomas somáticos e doenças médicas concomitantes são comuns. Em crianças, os sintomas mais comuns são dor abdominal recorrente, cefaleia, fadiga e náusea”, reforçou Alessandra. “O diagnóstico é clínico e, geralmente, os profissionais que costumar identificar os padrões do problema são clínico geral, psiquiatra e psicólogo”, completou.

Intervenções

Segundo a especialista, o tratamento para o transtorno possui diversas abordagens. “A primeira é a psicoterapia, onde a metodologia mais utilizada é a psicologia cognitiva-comportamental. Essa abordagem permite que o paciente reconheça as causas de seu comportamento ansioso e o ensina formas de diminuí-lo”, explicou. “Além disso, é importante que o paciente aprenda mais sobre o problema, até para saber lidar de uma maneira melhor com ele. Essa educação sobre o quadro também é importante para a família e amigos do hipocondríaco. Por isso, não se fala em ‘cura’, mas, sim, em psicoeducação”.

Em outros casos, porém, os medicamentos podem ajudar. “Principalmente os antidepressivos da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina ou antidepressivos tricíclicos. Muitas vezes, tratar comorbidades, como ansiedade e depressão, também ajudam no quadro”, pontuou Alessandra.

Vício em remédios

Como este distúrbio consiste, entre outras características, no uso excessivo de medicamentos, ele pode acarretar ao hipocondríaco problemas mais graves — sejam eles de saúde ou meramente comportamentais. Entre estas disfunções, estão: uso de procedimentos médicos desnecessários; depressão; transtornos de ansiedade; raiva e frustração excessivas; problemas nos relacionamentos, trabalho ou escola; e gastos exagerados com consultas e procedimentos médicos.

“Não há formas conhecidas de se prevenir a hipocondria. No entanto, identificar o problema e tratá-lo desde cedo reduz, significativamente, os impactos na vida cotidiana desses indivíduos”, destacou a psicóloga.

Informação

Apesar de possuir um perfil de características pré-traçado, é muito fácil alguns dos sintomas da hipocondria se misturarem, de fato, com pensamentos e preocupações normais do ser humano, no dia a dia. Por conta disto, é importante ter o dobro de atenção na hora de se ‘autoafirmar’ um diagnóstico.

“Socialmente, as pessoas vivem em um ritmo de vida frenético, estressante e com pouca qualidade de vida. Acredito que esse cenário seja propício para o desenvolvimento de ansiedades e tentativas de controlar a vida (corpo, envelhecimento, finanças etc.). Muitas vezes, esta agitação pode, verdadeiramente, ser responsável pelo desenvolvimento de algumas patologias. No entanto, a possibilidade de adquirir uma doença não caracteriza, em si, um problema. É muito mais a maneira como o indivíduo entende isso que o atormenta”, complementou a especialista.

Convívio

O papel dos amigos e da família é fundamental tanto para a identificação quanto para o tratamento desses pacientes que sofrem com o transtorno. Alessandra aconselha, antes de tudo, que este grupo não associe os sintomas do hipocondríaco a ‘frescuras’ ou sofrimentos sem razão. “É importante orientar a pessoa que sofre do problema a reconhecê-lo e a procurar ajuda profissional para orientar o caso. Caso isto não seja possível, é contraprodutivo criar argumentos contrários à situação, uma vez que esta ação apenas reforça a problemática. O melhor a fazer é buscar orientação profissional para lidar com as características do paciente com quem convive”.

Determinados fatores podem desencadear a doença

Embora existam muitas hipóteses para as causas da hipocondria, nenhuma delas é certa. No entanto, já foram identificados alguns fatores de risco, como:

1. Personalidade – Traços de personalidade já foram identificados como fator correlacionado de risco independente para muitos sintomas somáticos. Ansiedade ou depressão comórbida é um aspecto comum e pode exacerbar os sintomas e a incapacidade;

2. Ambiente – O Transtorno de Sintomas Somáticos é mais frequente em indivíduos com poucos anos de instrução e baixo nível socioeconômico e nas pessoas que tenham sofrido, recentemente, eventos estressantes na vida;

3. Modificadores do curso – Sintomas somáticos persistentes estão associados a aspectos demográficos (sexo feminino, idade mais avançada, menos anos de instrução, baixo nível socioeconômico, desemprego etc.), relatos de abuso sexual ou outra adversidade na infância, doença psiquiátrica crônica ou transtorno psiquiátrico concomitante (depressão, ansiedade, transtorno depressivo persistente, pânico), estresse social e fatores sociais reforçadores como benefícios obtidos com a doença.

Fatores cognitivos que afetam o curso clínico incluem sensibilidade à dor, atenção elevada a sensações corporais e atribuição de sintomas corporais a uma possível doença médica, em vez de reconhecê-los como um fenômeno normal ou estresse psicológico.

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