Mercado de shows vive com medo e sem renda

Suspensão de apresentações intensificou desigualdades e o desemprego

Manaus – Todo processo independente foi afetado drasticamente. Toda infraestrutura que a banda construiu em 10 anos ficou sucateada dentro de uma nova demanda, a virtual. As lives sem patrocínios mal conseguem pagar os artistas e os profissionais, como os produtores e os técnicos. Numa dessas, nosso baixista preferiu ter outros rumos na carreira.”

A fala de Samuel Porfirio, rapper da banda Engrenagem Urbana, morador da Cohab 2, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, está longe de ser uma exceção entre os profissionais que constituem as engrenagens da indústria do entretenimento.

De acordo com estimativas de empresários ouvidos pela reportagem do portal R7, em pouco mais de um ano de suspensão de eventos presenciais por conta das ações de combate à pandemia de Covid-19, os prejuízos no setor de eventos teriam ultrapassado a marca de R$ 280 bilhões.

Com isso, mais de 3 milhões de pessoas perderam o emprego em meio à maior crise sanitária do século 21. Para se ter uma ideia do impacto no mercado nacional, segundo dados do Ministério da Economia, o segmento representa algo próximo de 13% do Produto Interno Bruto (PIB).

Rafael Curvina, que é responsável comercial por artistas como Michel Teló, acredita que o fechamento de vagas de trabalho acabou se tornando uma consequência inevitável diante da ausência de entrada de recursos em caixa.

“Você gera um impacto, lógico, dentro do escritório do artista. Você tem que mandar as pessoas embora. As famílias que dependem daquilo e trabalham com isso há muitos anos. A gente está falando em um ano. O último show que eu fiz foi no dia 10 de março de 2020. A gente depende da saúde pública. Das pessoas pararem de morrer. Terem segurança para que as coisas voltem a acontecer”, analisa Curvina.

O produtor técnico Nailton Silva sentiu isso na pele. O profissional, que atua na área há mais de 20 anos, perdeu a principal fonte de renda após ser demitido da Casa Natura Musical —um dos principais espaços de shows na capital paulista— ainda lembra das sensações quando o governo paulista decretou o primeiro fechamento dos serviços considerados não essenciais, em março do ano passado.

“Tinha um show da Elza Soares marcado, que estava esgotado, que foi cancelado. Era tudo muito incerto sobre o que iria acontecer. Aí, começou que não iria voltar tão rápido. Então, começaram a dispensar algumas pessoas porque não iria voltar”, conta Silva.

Um levantamento realizado pelo Data SIM apontou que no início da quarentena no Brasil, entre os dias 17 e 23 de março, o cancelamento de shows e espetáculos provocou um impacto de R$ 483 milhões no mercado da música. A crise, no entanto, atingiu de formas bem diferentes artistas, empresários e outros profissionais que formam a base do setor.

Diante da inevitável necessidade de adaptação, entre março e abril de 2020, os músicos se reinventaram e encontraram nas lives a primeira alternativa para tentar driblar a falta de shows. Gusttavo Lima foi um dos pioneiros do novo formato. O sertanejo, que fez uma apresentação histórica de cinco horas de duração, faturou alguns milhões de reais dando voz a um repertório de sucesso dentro e fora das plataformas digitais.

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