Mito do boto é tema de documentário

A produtora pretende abordar a emancipação da mulher, abandono parental e maternidade

Manaus – A produtora independente Aerofólio Filmes lançará o documentário Risé de Boto, previsto para 2021, que tratará da relação das mulheres com o mito do boto cor-de-rosa. “É uma lenda muito amazônica. Os entrevistados trarão depoimentos a respeito de como funciona a relação deles com esse mito”, disse a diretora Tatiana Cantalejo.

As gravações do longa-metragem iniciaram no dia 20 de maio deste ano. A obra se dividirá em quatro tópicos: a lenda do boto; as mulheres que assumiram terem tido filhos da criatura mitológica; as pessoas que se apontaram como filhos do boto e a figura dele enquanto animal.

A produtora independente Aerofólio Filmes lançará o documentário Risé de Boto, previsto para 2021 (Foto: Divulgação)

A produção está na fase de pesquisa, que levou a equipe a viajar de São Paulo ao Pará, passando por Santarém, Alter do Chão e Parintins. “A gente está nesse processo de descoberta, que envolve, principalmente, ouvir a população, entendendo as diferenças de pensamento de pessoas de várias regiões, com relação à lenda, trazendo as memórias das mães que foram afetadas por ela ou pelo abandono afetivo parental”, disse Cantalejo.

O pajé do Garantido Adriano Paketá dá “vida” ao Boto (Foto: Divulgação)

Boto em junho

No município de Parintins, os produtores tiveram contato com as festas locais e entrevistaram o Pajé do Boi Garantido, Adriano Paketá, que encenou o boto em um festival ocorrido em Santarém. “Demos ênfase à Parintins pelo fato das festas do município acontecerem em junho, enquanto o boto aparece nas festividades juninas, gerando uma intersecção”.

A equipe estacionou em Manaus, atualmente, com a intenção de descobrir a visão que uma cidade grande sobre a lenda. “O mito acontece de maneira distinta, no imaginário de pessoas de lugares diferentes. É interessante mostrar essas divergências provocadas pelas culturas locais. Pretendemos fazer isso com base no que nos dizem as pessoas e a partir do credo local”.

Grávidas do boto

A produtora contou que algumas entrevistadas comentaram a respeito da relação delas com o mito do boto, afirmando terem sido engravidadas por ele. “Há mulheres casadas, afirmando que o boto se transformou no marido delas, sem expressarem dúvida de que isso aconteceu, embora haja aquelas que atribuem a gravidez aos companheiros”.

O desejo da equipe é que o filme não seja apenas sobre a lenda do boto, mas, principalmente, sobre as mulheres e os filhos delas. “Estamos à procura de recursos para continuar o trabalho da maneira agradável e com mais meios de contar esta história da forma como merece ser contada, porque acreditamos que o filme, pode ser benéfico a muitas pessoas, especialmente às sociedades que são tradicionais, e julgam as mulheres”.

Abandono parental e emancipação feminina

A produtora pretende realizar uma reflexão sobre a emancipação da mulher, o abandono parental e a maternidade. “Queremos falar sobre a questão do boto somada ao fato de as mulheres terem de cuidar dos filhos sozinhas. Também falaremos sobre a condição das mães que decidem ter as crianças mesmos após sofrerem abuso. A ação de uma mãe solteira decidir criar os filhos também pode ser visto como um ato de resistência”, disse Tatiana.

A lenda

Um boto cor-de-rosa sai dos rios nas primeiras horas das noites de festa e transforma-se em um lindo jovem vestido com roupas brancas.
Usa um chapéu branco para cobrir o rosto. Nas festas, com seu jeito galanteador e falante, dança, bebe, se comporta como um rapaz normal e aproxima-se das jovens, seduzindo-as.

Convence as mulheres a irem a um passeio no rio, onde costuma engravidá-las. Na manhã volta a se transformar no boto, pois o encantamento só acontece à noite.