Nova edição da São Paulo Fashion Week tem a Amazônia entre as novidades

Marcas Ana Fibras, Badulaques e Flor Silva colaborarão nos desfiles das grifes Karine Fouvry Paris e Borana, na próxima terça-feira, 23

Manaus – De Manaus para as passarelas do maior evento de moda do Brasil, o São Paulo Fashion Week (SPFW) 2018. Essa é a trajetória compartilhada pelas marcas Ana Fibras, Badulaques e Flor Silva, selecionadas pelo Programa de Apoio à Competitividade das Micro e Pequenas Indústrias (Procompi Amazonas), em parceria com o Sebrae. As marcas de acessórios amazônicos vão participar, na próxima terça-feira, 23, do espaço Arca — um galpão na Vila Leopoldina (SP) — com seus produtos, nos desfiles das marcas Karine Fouvry Paris e Borana.

Ana Lúcia, Andréa e Flor Silva representarão a moda local na SPFW 46, nesta semana (Foto: Divulgação)

Em sua 46ª edição, de hoje até a próxima sexta-feira, 26, a SPFW vai receber as marcas manauaras mais bem-sucedidas em duas oficinas: Estratégias para Construção de Marca e Desenvolvimento de Coleções, ambas ministradas por meio do Procompi/Sebrae, que conta com a parceria da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), por meio do Departamento de Assistência à Média e Pequena Indústria (Dampi). As curadoras das oficinas, Karen Roohlin e Olívia Merquior (CEO da Decri Deviati), auxiliaram 15 indústrias de confecções e acessórios de Manaus na construção da marca e assessoria de moda, com o aperfeiçoamento do design do produto.

As empresas selecionadas terão seus itens compondo looks do desfile das marcas do Projeto Top 5 do Sebrae Nacional, Karine Fouvry e Borana. Segundo a pesquisadora e designer da Decri Deviati, agência de consultoria especializada no mercado de moda, Nídia Aranha, Manaus é uma cidade com riqueza e herança cultural muito grande e que precisa ser incentivada.

“Essa enorme riqueza, percebida aqui, mora em um lugar saudosista e precisa, agora, na indústria criativa da capital, desses incentivos às startups para transformar esses pequenos artesãos em microempreendedores. Falta alinhar toda essa produção com as diretrizes do novo mercado, que é volátil e se alimenta do novo”, disse Aranha, ao destacar que essa produção local precisa ser apresentada para o mundo com a devida qualidade.

De acordo com a coordenadora do Dampi, Salete Braga da Costa Amoedo, o projeto tem por objetivo qualificar empreendedores individuais, empresários e colaboradores das pequenas e microindústrias do setor de confecções (vestuário e acessórios), com capacitações técnicas que colaborem com a elevação da qualidade dos processos e produtos desse segmento.

“Temos muita carência de referências de moda aqui no Estado, e capacitações como essa nos trazem tendências do mercado e auxiliam na construção da marca de referência amazônica, portanto, sem perder o regional, que é o nosso diferencial nos produtos”, disse a designer e artesã Andréa Valentin, da marca Badulaques.

Segundo ela, o desafio de enxergar além das limitações locais acompanha sua trajetória de dez anos no mercado. Ela cria joias a partir do uso de materiais locais, como sementes de jarina, açaí e fibras. No desenvolvimento de seus produtos, a artesã inclui influências afro e amazônica nas peças.

“Sempre que eu confecciono as minhas peças eu penso em exclusividade e em cada design. Eu posso usar a mesma semente, em determinadas peças, mas sempre ousando no design”, disse, ao explicar que, em uma única peça, é possível valorizar tanto o trançado como a semente.

Da natureza

Material sustentável, como escama de pirarucu, caroço de tucumã e a própria madeira, é matéria-prima dos produtos da artesã que cede seu nome à marca Flor Silva. Participantes do desfile da Karine Fouvry e da loja colaborativa do evento, as biojoias amazônicas não estão apoiadas em uma estética naïf, segundo a designer Nídia Aranha, ou seja, aparentam uma simplicidade com liberdade de autoria.

“O trabalho da Flor não tem diretrizes estéticas baseadas em coisas tribais, que é mais ordinário de se ver esses materiais atrelados com essa estética. Ela subverte e leva isso para o lugar multicolorido e novo, eu acho a estética dela profundamente contemporânea”, explicou Aranha.

Bolsas

A produção de bolsas desenvolvidas pela artesã Ana Lúcia Lima, da marca manauara Ana Fibras, chamou a atenção, também, da marca de resort luxury, Karine Fouvry. Em macramê (forma de tecelagem manual), bolsas e carteiras são desenvolvidas com materiais regionais, como sementes de cabaça, linhas e fibras, utilizando também o crochê e a cartonagem para o revestimento das bolsas.

“É a primeira vez que tenho a minha marca vinculada a algo ligado à moda. Eu tenho essa concepção que é algo muito bom e que tem muita gente que queria estar no meu lugar, ter essa oportunidade de participar do SPFW e sair do meu universo local para estar lá é um sonho e um reconhecimento como artesã”, contou Lima.

A consultoria do programa Procompi/Sebrae, realizada com as artesãs participantes do SPFW, será contínua até o dia do evento, de acordo com Nídia Aranha. “Para o artesão, é muito importante estar atualizado, porque o trabalho artesanal tende à obsolescência da própria estética. O artesanato é um trabalho muito rico e perdê-lo por uma tendência de moda ou deixá-lo partir por conta de uma falta de atualização é uma coisa triste”, disse.

Nova geração de marcas estreia nesta edição do evento

Novidades no line-up da próxima São Paulo Fashion Week, Cacete Company, Piet e Bobstore entram para o elenco de participantes da semana de moda, que acontece de hoje até a próxima sexta-feira, 26. Em sua 46ª edição, a primeira desde que foi adquirida pelo grupo IMM, ela tem novo endereço (um galpão na Vila Leopoldina).

Piet e Cacete Company estão entre as mais jovens marcas da temporada — com um tipo de moda também voltado para uma nova geração de consumidores. Criada pelo designer Pedro Andrade em 2012, a Piet é um dos mais promissores nomes do streetwear nacional. Com foco em roupas masculinas de vocação esportiva e utilitária, acaba de inaugurar uma loja temporária no Bom Retiro, em São Paulo.

A Cacete Company, de Belo Horizonte, tem ainda menos tempo de estrada. Surgida em 2015 como uma marca de underwear, tem os estilistas Raphael Ribeiro e Thiago Carvalho à frente de sua criação. Hoje, vende um tipo de moda casual, também de vocação street, como a Piet.

Com 60 lojas próprias e mais de 20 anos de história, a Bobstore é uma das grifes do grupo InBrands (sócio da SPFW e dono de Ellus, Richards e Salinas, entre outras). Fez fama oferecendo um guarda-roupa feminino boêmio e chique, misturando alfaiataria, jeanswear e roupas casuais.

A Bob Store desfilará seu inverno 2019 na sua estreia no evento. Tendo como estilistas a dupla André Boffano e Samuel Santos, criadores da Modem, outra marca da nova geração da moda brasileira, a coleção é inspirada no trabalho da artista Georgia O’Keefee.

Novidades

No escopo do evento, além da moda, ganha destaque uma programação relacionada à economia criativa e empreendedorismo, especialmente por meio do projeto Estufa, que inclui desfiles de uma nova geração de estilistas, uma agenda de master classes e workshops (realizados no Arca e no Farol Santander) e uma exposição com curadoria da cenógrafa e cineasta Daniela Thomas e da artista Mari Nagem. “É um lugar onde você vê processos de criação dissolvendo fronteiras, como a informática trabalhando com a poesia ou a vestimenta usada como forma de discutir o corpo”, explica Daniela.

No que tange à moda, além de nomes como Amir Slama, Gloria Coelho, Osklen, Reinaldo Lourenço e Ronaldo Fraga, entram na escalação oficial da SPFW 46 as jovens marcas Cacete Company e Piet, com vocação street e casual, e a Torinno, com seu masculino de luxo, além da veterana Bobstore, com uma moda feminina urbana e levemente boêmia.

Num calendário que ainda mistura as estações — efeito do modelo see-now/buy-now —, a maior parte das marcas deve apresentar coleções para o inverno 2019. “Deixamos livre, cada um tem uma estratégia”, conta Paulo. “Os desfiles se tornaram instrumentos poderosos na formação do discurso e da imagem de uma marca. Com as redes sociais, ele vai muito além daqueles 10, 15 minutos”, finaliza.

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