A resistência da cultura brasileira

Desde sua reformulação há seis anos, o programa ‘Rumos’, do Itaú Cultural, já incentivou, por meio de editais culturais, quatro projetos do Amazonas

Manaus – Em tempos de grandes discussões sobre o futuro da produção artística brasileira e seus incentivos, o programa ‘Rumos’, promovido pelo Itaú Cultural, já selecionou, desde sua reformulação, em 2013, quatro projetos amazonenses, sendo dois deles escolhidos na última semana — conforme anunciado durante coletiva de imprensa, em São Paulo. Com um intuito de estimular a maior participação da cidade no edital cultural do programa, o instituto realizou o chamado ‘Itaú Escuta’ para entender melhor as necessidades da região.

O projeto ‘Casarão de Ideias – Um Lugar Para Todas as Artes’ foi o primeiro selecionado local, depois da reformulação do edital do ‘Rumos’ (Foto: Ruth Jucá/Divulgação)

“A experiência em Manaus foi muito boa e gerou um grande aprendizado. Percebemos que não falta capacidade, equalidade e nem discurso potente ou instigação poética potente, mas esse campo da segurança, de participar mais. Porque quanto mais se participa de editais ou cena cultural você vai ganhando uma confiança para essa escrita. Não existe uma bula, mas sim uma confiança, uma segurança para se inscrever e entender que é um processo difícil, mas que vale a pena participar”, diz Ana de Fátima Sousa, gerente de comunicação do Itaú Cultural.

Para o biênio 2017-2018 do edital, foram selecionados, do Amazonas, ‘Hip-Hop – A Parada Final’, de Willacym Miguel de Souza Maia, e ‘Nïima’, de Flávia L. B. Abtibol. “Todos os projetos apresentados têm sua singularidade e abordam assuntos que, se fossem em outro lugar, não fariam tanto sentido, mas, em Manaus, fazem todo o sentido. ‘Nïima’ é muito potente e, do começo ao fim, ficou muito bem posicionado. Ele foi uma unanimidade. Quem está discutindo a questão da sexualidade indígena? E essa coisa ‘doida’ de um projeto de hip-hop, mas que sempre é associado ao eixo Rio-São Paulo e, no Norte, tem um proponente cadeirante discutindo mobilidade urbana a partir da dança? Isso é genial, é uma potência”, argumenta a gerente de comunicação do instituto.

Sobre o atual momento da cultura no Brasil, Ana de Fátima afirma que um pensamento conservador vem ganhando força, nas redes sociais e na política, mas que cabe às instituições culturais, artistas e agentes culturais responder a esse movimento. “Existe um tom conservador operando e operando com muita força. Agora, é nosso papel responder a isso continuando com o que fazemos bem: a arte e a cultura brasileiras. Acho que arte e cultura são quase que uma medicina natural para combater as doenças sociais”, finaliza ela.

blank

Histórico

Primeiro selecionado desde a reformulação do edital com o projeto ‘Casarão de Ideias – Um Lugar Para Todas as Artes’, João Fernandes salienta que muito mais do que beneficiar o espaço cultural contemplado, o ‘Rumos’ ofereceu condições de receber, com qualidade, companhias que pela cidade passaram. “O impacto desse incentivo foi muito maior do que o imaginado, pois beneficiou não somente o Casarão, mas outros projetos contemplados e que chegaram à cidade e puderam encontrar uma estrutura digna. Então, fortaleceu não apenas a cena local, mas também esse intercâmbio com outros projetos”, comenta.

Além disso, Fernandes destaca a amplitude e a continuidade do programa. “O instituto Itaú Cultural amplia, cada vez mais, os olhares e o modelo proposto por ele, no qual o artista apresenta sua ideia e coloca o valor que pretende investir no projeto proporcionando uma liberdade no processo criativo. Inclusive, é algo que a Prefeitura de Manaus vem fazendo e que está dando bastante certo”, comenta ele.

Selecionada este ano com ‘Nïima’, Flávia Abtibol acredita que o edital é fundamental, principalmente, para artistas e propostas inovadoras no sentido de experimentação de linguagem e projetos que não teriam espaço em editais ditos mais tradicionais. “É fundamental escoar os trabalhos desses produtores e artistas que tentam avançar em uma linguagem diferenciada. E, vale frisar, não é um patrocínio, é uma parceria”, ressalta ela.

Projeto da Tamba-Tajá Criações, ‘Nïima’ busca contar a história de índios da etnia Tikuna, moradores da tríplice fronteira (Brasil-Colômbia-Bolívia) que ousam desafiar a família, o Exército e a igreja para exercer seus desejos e suas identidades de gênero. Durante dois meses (junho e julho), eles animam as festividades religiosas por meio do canto e da dança e, nos demais meses, vivem subjugados pela família e comunidade.

“Sempre existe uma expectativa positiva de um trabalho ser aprovado. Sabemos o quanto é difícil a produção independente e quanto os recursos disponibilizados são necessários para a elaboração deles. Quando recebi a notícia da seleção, fiquei bem feliz, pois mais do que colocar em prática esse projeto, vamos poder estreitar uma relação com as travestis tikunas e discutir o assunto, sobretudo com a participação desses indígenas”, ressalta Flávia. Agora, ela está na fase de contratação do projeto que tem o prazo de 24 meses para ser finalizado.

Anúncio