Ricardo Stuckert mostra beleza ancestral em fotos

Fotógrafo fala da exposição ‘Índios Brasileiros’ e do filme ‘Democracia em vertigem’, onde assina a direção de fotografia

Manaus – Nas últimas décadas, o Brasil deu ao mundo grandes nomes da fotografia. Sebastião Salgado, Arakém Alcântara e outros, que estão na galeria das imagens que retratam a alma, o corpo, as cores e as dores do país. Agora, mais um nome entra para o álbum emocional da fotografia nacional: Ricardo Stuckert, que com sensibilidade única e estética inconfundível, vive uma fase ímpar em sua carreira.

Responsável pela direção de imagem e fotografia do documentário ‘Democracia em Vertigem’, indicado ao Óscar, e com a exposição ‘Índios Brasileiros’ instalada na Aliança Francesa de Brasília (DF), a convite da Embaixada da França, como parte da programação do evento Noite das Ideias, Stuckert falou com exclusividade à Plus. Confira a entrevista.

(Foto: Ricardo Stuckert)

PLUS – Quais suas origens?
Ricardo Stuckert –  Sou a quarta geração de uma família de fotógrafos. Depois da Primeira Guerra Mundial, meu bisavô, Eduardo Roberto Stuckert, embarcou de Lausanne, na Suíça, em direção à América do Sul, sem destino definido. Na primeira parada, encantou-se com a Paraíba e lá ficou. Além de fotógrafo, era pintor e tradutor. Passou o primeiro ofício aos filhos, depois aos netos. É uma tradição familiar. Na minha família, entre vivos e mortos, são 33 fotógrafos.

PLUS – Você tem uma familiaridade com a Amazônia e suas populações tradicionais. Sua exposição em Brasília atesta isso.
RS – Minha primeira viagem para a Amazônia foi em 1991. Fiz uma expedição para fotografar um eclipse solar no Amazonas. Fiquei fascinado pela região. Em 1997, como fotógrafo da ‘Veja’, fiz uma viagem à Comunidade de Nazaré, no Amazonas, onde vivem os índios Yanomami. Foi a primeira vez que tive a oportunidade de fotografar os povos originários do meu país.

CP – Uma das personagens mais marcantes de suas fotografias é a indígena Penha. Fale sobre ela.

RS – Lá (na Comunidade de Nazaré) conheci a índia Penha Goés. Ela tinha 22 anos e uma força no olhar. Em 2015, decidi reencontrá-la para fazer novamente a foto que fiz há 17 anos. Quando a encontrei, estava com 39 anos e mantinha a mesma pureza no olhar de 17 anos atrás. Tive a certeza de que tinha uma missão não apenas de fotografar a indígena, que marcou a minha trajetória profissional, mas de prestar, humildemente, um tributo aos povos indígenas do meu país.

PLUS – Essa fotografia icônica da índia Penha de olhos expressivos, foi capa do álbum do Boi Garantido de 1999. Você sabia disso? Conhece o Festival de Parintins?
RS – Estou sabendo desse fato agora. Não tinha visto a foto da Penha na capa do álbum. Conheço o festival e acho fantástico. Quero voltar em breve para fotografar.

PLUS – Como escolheu as imagens da exposição?
RS –  A exposição é a concretização de um sonho. Sempre quis mostrar o trabalho que tenho feito com os indígenas desde 1997. Com o convite da embaixada da França, foi possível viabilizar. A escolha das imagens foi feita com o curador, Fábio Scrugli. Decidimos quais imagens seriam importantes mostrarmos.

PLUS – Qual o significado desse trabalho?
RS – É um trabalho muito importante para mim. Em todo o Brasil, temos hoje quase 900 mil índios e mais de 300 etnias falando 274 línguas diferentes. Cada etnia tem seus costumes, tradições, rituais, danças. Cada aldeia que visito é um aprendizado. O modo de viver do indígena é fantástico. Eles vivem com simplicidade, com aquilo que a floresta oferece. Têm orgulho de manter a cultura preservada. Nos ensinam a importância de viver em comunidade, de respeitar e preservar a natureza. Tem sido um aprendizado constante ao longo desses anos.

PLUS – Estamos vivendo um capítulo dramático de nossa história ambiental, tanto para o bioma quanto para os povos que nele habitam. Qual sua opinião sobre?
RS – A Amazônia abriga a maior floresta tropical e a maior bacia hidrográfica do mundo. Precisa e deve ser respeitada e cuidada por todos. Precisamos, sobretudo, protegê-la e os povos que vivem nela. Indígenas, ribeirinhos, seringueiros. A preservação é fundamental para a saúde do Planeta Terra. Precisamos lutar contra a devastação e pela preservação.

PLUS  – Em que ponto seu trabalho pode ajudar a região e o povo que nela vive?
RS – Acho que a fotografia tem o papel de documentar. Por meio das minhas fotos, espero que haja uma valorização e um respeito maior pelos povos originários. A fotografia é uma linguagem universal que atrai a atenção das pessoas e pode colaborar e chamar a atenção às questões importantes para os indígenas.

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(Foto: Ricardo Stuckert)

PLUS – Vamos falar de cinema. E ‘Democracia em Vertigem’?
RS –  Já trabalhei como diretor do documentário ‘Pela Primeira Vez’, que mostra a posse da primeira presidente mulher do Brasil, Dilma Rousseff. Agora, trabalhei como diretor de fotografia de ‘Democracia em Vertigem’ e gostei da experiência. Documentar esse momento político foi importante para a nossa história e para a nossa memória. Boa parte do que vivemos na área política nos últimos tempos está no documentário. O filme narra a trajetória política do Brasil em um momento muito importante da nossa história. O documentário é uma história muito comovente porque retrata um período conturbado da política nacional e possui elementos ricos da vida pessoal da diretora. Petra, com sensibilidade, conseguiu mostrar ao mundo o quanto a democracia brasileira está debilitada.

PLUS – Setores da sociedade brasileira não aceitam a obra.
RS – Cada um tem a sua opinião e é preciso respeitá-la. Algumas pessoas criticaram, mas muitas elogiaram. O mais importante é que conseguimos realizar um trabalho que está sendo respeitado não apenas no Brasil, mas em todo o mundo.

Plus – Uma próxima vinda ao Amazonas? Quando?
RS – Em breve. Ainda não sei a data, mas quero ir logo. Adoro o Amazonas. Foi o estado brasileiro que mais visitei.

***Com a colaboração de Mencius Melo (especial para a Revista Plus)***

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