Série artística fotográfica reflete, em forma de protesto, sobre o desmatamento na Amazônia 

‘A última floresta’, da drag Uýra Sodoma, propõe ser uma resposta às tentativas do governo de negar o desmate na Amazônia

Manaus –  Por mais de um ano, a drag Uýra Sodoma e o fotógrafo Matheus Belém trabalharam na produção da série fotográfica ‘A última floresta’, uma documentação artística sobre o processo de desmatamento na Amazônia. O resultado desse trabalho chega ao público neste mês, em forma de protesto.

‘A última floresta’ chega como uma manifestação em resposta aos ataques do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e às tentativas do governo de negar o desmatamento na Amazônia (Foto: Matheus Belém/Divulgação)

Emerson Munduruku, biólogo e artista visual, que vive a drag Uýra, explica o processo artístico e de exibição das fotos. “É a Uýra em interação com o fogo, com a terra pelada. Uma série muito tocante que vem propor um olhar pra esse processo que já é secular na Amazônia e que vem se intensificando, se agravando e destruindo a vida dentro do nosso território. Queremos expor o material de forma contundente na imprensa por entender que, neste momento, é urgente falar sobre o desmatamento”.

Segundo o artista, ‘A última floresta’ chega como uma manifestação em resposta aos ataques do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e às tentativas do governo de negar o desmatamento na Amazônia. Um trecho da estrada de Iranduba e dois da AM-010 são os cenários das fotos.

“Bolsonaro sempre defendeu agronegócio, agropecuária e mineração em áreas protegidas da Amazônia, é um amigo dos ruralistas. Em prol do agronegócio, o presidente insiste em negar o aumento do desmatamento na Amazônia. Temos que responder enquanto artista, ambientalista, imprensa e sociedade. Ninguém vai negar a realidade que a gente vive”, ressalta Munduruku.

Embasamento

Mestre em Ecologia pelo Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Emerson compôs um grupo de pesquisas com profissionais nacionais e internacionais para avaliar os impactos de mudanças climáticas sobre anfíbios, répteis, e mais recentemente, plantas e outros animais.

“No meu estudo em particular, sob orientação da Dra. Fernanda Werneck, usando dados do Inpe e de outras renomadas instituições de pesquisa, detectamos estimativas de altos riscos de extinção para uma espécie de lagarto (Kentropyx calcarata ou Calango-da-Amazônia), a partir de medidas que evidenciam o quanto o clima influencia no metabolismo do animal, indicando que por volta do ano de 2050, esta espécie  de lagarto amazônico tem 70% de chances de ser extinta.”

O biólogo explica ainda, que aumentos de calor futuros podem dizimar todas as populações, exceto umas poucas, onde pode haver migração de indivíduos para áreas com clima mais equilibrado, como o da floresta. Porém, para isso é necessário a existência de floresta.

“Essa postura do governo de não deixar transparente suas propostas de combate ao desmatamento da Amazônia, de atacar às instituições engajadas nesta missão e também de estimular os ruralistas, miram para um maior desmatamento de uma Amazônia cuja área total desmatada já supera 20%. Perder a floresta significa uma Amazônia de deserto e um Brasil passando sede”, finaliza.

Exposição ‘Uýra, a árvore que anda’ está em cartaz na Galeria do Largo (Foto: Matheus Belém/Divulgação)

Uýra Sodoma

Uýra Sodoma, entidade em carne de bicho e planta que habita e reflete Manaus, é considerada um dos maiores símbolos de preservação ambiental da atualidade, conquistando repercussão internacional e tendo o trabalho divulgado na mídia francesa, americana e britânica.

Até o dia 30 de outubro, fotografias, vídeos e instalação artística mostram a trajetória da drag na exposição ‘Uýra, a árvore que anda’, em cartaz na Galeria do Largo (R. Costa Azevedo, 290 – Centro), com acesso gratuito. Duas fotos da série ‘A última floresta’ compõem a exposição.

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