Alter do Chão, o Caribe em plena Amazônia

Vilarejo oferece peixe fresco, autenticidade e praias de rio que estão entre as mais belas do País

Manaus – Lá do alto, a imensidão de água que eu tentava alcançar com os olhos grudados na pequena janela do avião me paralisava a tal ponto que cheguei a pensar se poderia ser isso fruto de mais um feitiço do tal boto namorador que, segundo a lenda, se transforma em homem e sai a encantar mulheres nas noites enluaradas dos rios do Norte. Ou seria apenas a emoção de estar perto, como nunca estive, do Rio Amazonas, que lá embaixo fazia seu curso de forma majestosa, cortado aqui e acolá por terra firme coberta pela floresta.

A ‘Pérola do Tapajós’, como é conhecida, conta com mais de 100 quilômetros de praias de água doce. Na Vila de Alter do Chão, conhecido como o ‘Caribe Brasileiro’, a praia aparece apenas uma vez ao ano, quando o rio baixa. (Foto: Cristino Martins/Agência Pará)

É assim, cheia de emoções, a chegada a Santarém, segunda maior cidade do Pará e ponto de desembarque para turistas que saem de Belém, em voos de 1h15, em busca da cada vez mais cobiçada Alter do Chão, 39 quilômetros distante do aeroporto.

Fundada no século 17, a vila de Alter é frequentada por paraenses e manauaras há algum tempo, mas começou a chamar a atenção no eixo Sul e Sudeste depois de ter liderado o ranking das melhores praias do Brasil publicado pelo jornal inglês The Guardian, em 2009. “A melhor praia brasileira não está no Rio de Janeiro ou no Nordeste. Também não está na costa. Está num rio no coração da Amazônia”, disse o veículo. Mais recentemente, em 2016, a publicação voltou a falar do destino, destacando suas aldeias remotas, sua floresta tropical e o clima mais baladeiro que chega com o fim do ano, quando agências organizam festas de Réveillon em suas praias, atraindo turistas de todo o País.

Agora também na lista de melhores destinos do caderno Viagem do jornal O Estado de S. Paulo para 2019 (bit.ly/melhores2019), Alter ganha cada vez mais notoriedade na mídia e espaço nos roteiros paraenses. Foi assim que, decidida a conhecer Belém e Ilha de Marajó, decidi esticar também até o vilarejo banhado pelas águas mornas e transparentes do Tapajós. Como o Amazonas (onde deságua), sua imensidão dá a ele aspecto de mar, formando em Alter do Chão um dos maiores aquíferos do mundo, com volume de água estimado em 83 mil quilômetros cúbicos.

Alter do Chão, o Caribe em plena Amazônia (Foto: Divulgação)

Areia, guarda-sol e floresta

Praia de rio: eis a principal atração de Alter. Parece pouco? Espere só para sentir a delícia de estar sobre estreitos bancos de areia, cercados de água doce às vezes dourada, às vezes esverdeada, comendo um pirarucu assado na hora. Ou de encontrar outras tantas faixas de areia clara, onde vez ou outra desabrocham troncos anárquicos de árvores baixas, garantindo sombra em lugares silenciosos e paradisíacos no chamado Caribe Amazônico.

Mas há ainda as árvores altas e cheias de vida da Floresta Nacional do Tapajós, uma das primeiras unidades de conservação do País. E as comunidades ribeirinhas, que recebem seus visitantes de maneira simples e agregadora, mostrando o trabalho que realizam para sobreviver e manter em pé uma floresta que, há muito tempo, tem sido ameaçada por interesses econômicos.

Reserve no mínimo três dias para Alter, mas tenha em mente que é preciso uma semana para fazer os passeios com calma. Em setembro, a Festa do Sairé movimenta a vila e, apesar de enchê-la, é chance ímpar de vivenciar uma das manifestações religiosas e artísticas mais emblemáticas do Norte do País. Entre procissões, almoços e fogos de artifício, dois botos, Tucuxi e Cor-de-Rosa, revivem a lenda do boto namorador, disputando no Sairódromo o título de melhor do ano – como é em Parintins com os bois.

Pela imensidão de seus rios, pelas praias, pela floresta, pelo pôr do sol, pela cultura e culinária local. É o destino da vez, no fim das contas, porque nos mostra quantas coisas podem significar a Amazônia.

Caminhada na floresta

Encontrar uma majestade nunca é tarefa simples, principalmente na floresta. Muita água, roupas confortáveis, repelente, protetor solar e, sobretudo, disposição para uma caminhada de quatro horas. Para ser vista, é isso que exige de nós a Vovozona, uma sumaúma de idade estimada em mil anos que reina na Floresta Nacional do Tapajós, a Flona.

É difícil descrever com precisão as medidas desta que é a maior espécie da Amazônia. Você até ouvirá que quase 30 pessoas são necessárias para abraçá-la. É uma boa forma de explicar sua dimensão. Mas insuficiente para traduzir a sensação poderosa que ela transmite. É mais do que tamanho: ela é parte da vida e das narrativas dos habitantes da floresta há séculos.

Um punhado dessas narrativas e de sabedorias locais são contadas pelos guias ao longo da trilha. Com eles, por exemplo, você vai ver de pertinho a origem de muitos frutos do Norte e também do turu, molusco que parece uma minhoca, alimenta-se do tronco das árvores e é usado no preparo de um caldo bem apreciado no Pará.

Gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a Flona é uma das unidades de preservação federal mais visitadas do Norte – recebeu no ano passado 42 mil pessoas. Ela engloba 21 comunidades espalhadas por 527.319 hectares, de acordo com o ICMBio.

A Vovozona está na comunidade de Maguari, uma das portas de entrada dos passeios – há também São Domingos e Jamaraquá. Nesta última, fica o igarapé de mesmo nome que é uma preciosidade verde e refrescante em meio a árvores suntuosas. Caso não esteja disposto a encarar tanto tempo de caminhada, há outras mais tranquilas, com parada em praias e no igarapé. Em comum, todas exigem pagamento de taxas aos guias e ao ICMBio (desde R$ 50) e pelas refeições (R$ 25). É acessível de barco e de carro e permite pernoite (combine com um barqueiro). Mais: bit.ly/guiaflona.

Alter do Chão, o Caribe em plena Amazônia (Foto: Divulgação)

Ilha do Amor desperta paixão à primeira vista

Podem até ser clichês, mas cartões-postais também podem surpreender quem chega pela primeira vez a um destino. Assim, quando avistamos a Ilha do Amor, cujas imagens são amplamente divulgadas nos marketing turístico de Alter, os olhos brilharam.

Para chegar à ilha, basta pegar na vila um barco-táxi comandado por garotos que cobram R$ 5 por embarcação para remar até o outro lado. Com nomes homenageando gente querida ou engraçadinhos, como um ‘Oi Bebê’ que encontrei, os barcos azuis só param de ir e vir quando o nível da água está muito baixo e a travessia pode ser feita a pé.

Reserve ao menos um dia de viagem para curtir praia. Com cadeiras, espreguiçadeiras e mesas espalhadas também dentro do rio, os quiosques oferecem a seus clientes refeições completas, cerveja gelada – Tijuca, marca local – e caipirinhas de frutas da região. Em média, gasta-se R$ 70 numa refeição. A única situação chata é ir ao banheiro: há apenas um, distante dos primeiros quiosques.

Escolhemos o Savana’s Bar para passar o dia. Entre leituras, sol e mergulhos refrescantes nas águas mornas e douradas-transparentes do Tapajós, rolou até um sambinha na sombra do quiosque. Formado por um dos garçons e outros trabalhadores da praia fluvial, a Sarapó e Banda embalou um Trem das Onze com afoxé, tambor e pandeiro quando soube que eu era paulista.

Maré cheia
Quando a água toma essa ponta da ilha, muitos bares fecham e migram para a parte mais alta. É por isso que, ao longo da faixa de areia, você encontrará ‘carcaças’ de bares vazios, mas prontos para funcionar em algum momento. Aliás, para outro pôr do sol maravilhoso além do da vila, feche o dia com a caminhada para esse lado da ilha, mais vazio e silencioso, onde a vegetação começa a tomar conta da areia. Se estiver sozinho, será ótimo para refletir. Se estiver entre amigos ou em casal, lembre-se: não é à toa que o lugar se chama Ilha do Amor.