Vidas negras importam!

Nos últimos dias, vários atos tomaram conta do mundo afora para repudiar o racismo, o fascismo e outras formas de preconceito

Manaus – “O raciscmo está implantado no DNA da América e, enquanto fecharmos os olhos para a dor de quem é oprimido, nunca escaparemos dessas origens”. Quando a atriz premiada e da pele preta Viola Davis falou isso, atuando como a advogada criminal Annelise Keating, na série estadunidense ‘How to Get Away with Murder’, durante um de seus julgamentos, não sabíamos que a frase descreveria tão bem – infelizmente – o que as pessoas de cor preta têm passado.

(Foto: Divulgação)

Estopim

Uma situação ocorrida no dia 25 de maio chamou a atenção do planeta e provocou reações em todos os lugares. O afro-americano George Floyd foi brutalmente assassinado, depois que Derek Chauvin, um policial branco de Minneapolis, EUA, ajoelhou-se no pescoço dele por pelo menos sete minutos, enquanto estava deitado de bruços.
Nas imagens, o homem reclama e diz repetidamente: ‘Não consigo respirar’.

Floyd foi detido após o funcionário de uma mercearia em Minneapolis chamar a polícia e acusar o homem de tentar pagar as compras com uma nota falsa de US$ 20.

Em virtude da morte de Floyd, uma série de manifestações tomou conta das ruas em todo o mundo.

Em Manaus, não foi diferente. Um ato pela democracia realizado na Avenida Djalma Batista, zona centro-sul, na última terça-feira (2), pedia, entre outras pautas, a paz e repudiava o fascismo, racismo e demais formas de preconceito.

Entre cartazes e gritos da multidão contra os atos de racismo, houve performances que lembraram a ação violenta do policial que culminou com a morte de Floyd, citando sua última frase, que também virou uma das marcas dos atos pelo mundo.

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Nos últimos dias, a luta contra o racismo tomou o mundo e chegou a Manaus (Foto: Divulgação)

Especialista

Para entender melhor a problemática, enraizada na humanidade, e para que possamos tentar mudar o racismo estrutural e salvar as futuras gerações, a especialista em antropologia e doutora pela Unicamp, Fabiane Vinente, explica que “boa parte de nossos comportamentos e atitudes são moldados ao longo da vida. Crianças não nascem racistas, elas aprendem a ser racistas por conta de que repercutem coisas que ouvem dos pais, na família e escolas. Por isso, é importante pensar na educação antirracista”.

Para a especialista, a punição deve andar lado a lado com a educação antirracista. “É necessário que o Estado faça seu papel e tome uma postura de inibir esse tipo de comportamento discriminatório”, completa Vinente.

História vivida

Na manifestação em Manaus, que também foi denominada como ato ‘antifascista’, uma das pessoas que participou foi o enfermeiro Lucas Brito, 24. “Sou um homem preto, assumidamente gay, gordo e pobre. Estou dentro de várias minorias marginalizadas. Para evitar o racismo, a maior forma de solucionar isso é ocupando espaço. Hoje, atuo como coordenador de uma casa de acolhimento LGBT+ e consegui me formar, mesmo tendo visto amigos de infância morrendo ou se perdendo”, diz.

Sobre os atos, completa: “O Brasil é terra indígena. Negros escravizados povoaram o Brasil. A escravidão dos negros, infelizmente, representa uma parte da nossa história. Há sangue preto em nosso País e, mesmo assim, todos os dias morremos. É preciso ocupar nosso espaço”.

E para refletirmos, seguem versos da canção de Paulo Cesar Pinheiro e Mauro Duarte, ‘Canto das Três Raças’, imortalizada na voz de Clara Nunes, e tão contextual: “E ecoa noite e dia / É ensurdecedor / Ai, mas que agonia / O canto do trabalhador / Esse canto que devia / Ser um canto de alegria / Soa apenas como um soluçar de dor”.